Groenlândia, o fator inesperado que revela a 'incongruência e a tibieza' da União Europeia
03:16 22.01.2026 (atualizado: 08:48 22.01.2026)

© AP Photo / Evgeniy Maloletka
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Por muito tempo, a União Europeia fabricou inimigos externos como Rússia e China para justificar suas políticas, vangloriando-se de ser o núcleo daquele "mundo baseado em regras" tão alardeado no Ocidente. Ao mesmo tempo, deixou segurança e defesa nas mãos da OTAN, ou seja, dos EUA. Hoje, a Groenlândia e Trump expõem a insensatez de tais decisões.
O tempo começa a cobrar seu preço em Bruxelas. Enquanto a classe política europeia buscava confrontos no leste, descobriu-se que o verdadeiro problema estava em casa, dentro de sua própria rede de aliados.
"Quem diria que um conflito — invisível por gerações — finalmente irromperia entre os EUA e a Europa, com a Groenlândia como epicentro dessa tempestade geopolítica?", indagou o jornal chinês Global Times.
O que começou como uma piada tornou-se um ponto crítico de discórdia dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da União Europeia (UE), onde Washington, até recentemente, era recebido como um rosto familiar.
No início de 2025, ninguém em Bruxelas levou a sério o comentário de Donald Trump sobre "comprar" ou "apoderar-se" da Groenlândia. Nem mesmo os próprios groenlandeses.
Mas o tempo passou e a situação mudou. A Casa Branca agora não esconde suas ameaças: a ilha ártica estará sob controle americano, mesmo que isso signifique uma intervenção militar em um território sob a proteção da Dinamarca, ou seja, da OTAN.
Diante dessa situação de "fogo amigo" dentro do Ocidente — mas especialmente dentro do supostamente sólido bloco atlântico — oito países europeus se declararam contrários aos interesses de Trump: Alemanha, Dinamarca, Finlândia, França, Noruega, Países Baixos, Reino Unido e Suécia. Uma posição que — diga-se de passagem — não foi além de uma forte condenação formal e do envio supérfluo de algumas tropas alemãs e dinamarquesas. Nada mais.
A resposta dos republicanos foi imediata: tarifas. Tarifas de 10% contra as nações que, até poucos dias atrás, eram aliadas. Ele chegou a alertar que as tarifas poderiam subir para 25% se, até 1º de junho, Washington não tivesse chegado a um acordo com a Dinamarca — e a UE — para controlar a Groenlândia, uma ilha rica em recursos minerais estratégicos e com uma localização geográfica privilegiada.
"A resposta que [os líderes europeus] deram a Washington foi incrivelmente morna. Foi absurdo ver [os alemães] enviarem 15 soldados para a Groenlândia. E o pior é que, quando Trump ameaça com tarifas, os alemães recuam. É ridículo", observa Mauricio Alonso Estévez, especialista em relações internacionais da Universidade Autônoma do México (UNAM) e doutor em Ciências Sociais, em entrevista à Sputnik.
O especialista também destaca que essas nações europeias expressam seu suposto medo de que a China ou a Rússia controlem o Ártico, quando, na realidade, o país que busca o controle da Groenlândia são os EUA.
'As elites europeias carecem de perspectiva própria'
As classes políticas que governam em Bruxelas perseguem interesses muito específicos que geralmente se alinham a uma agenda ditada por Washington. Segundo Estévez, isso poderia explicar o papel incongruente e passivo que a União Europeia desempenha hoje diante das intenções dos EUA de tomar a Groenlândia a qualquer custo.
Por um lado, aponta o analista, a Europa adotou medidas beligerantes e antirrussas devido ao conflito na Ucrânia, país que apoiou militar e financeiramente, mesmo em detrimento dos seus próprios interesses — estima-se que, desde fevereiro de 2022, tenha repassado US$ 196 bilhões (mais de R$ 1 trilhão em valores atuais) a Kiev, de acordo com a Comissão Europeia.
No entanto, quando Washington ameaça o território de um dos seus membros — a Groenlândia, cuja defesa está sob a jurisdição da OTAN — emite apenas algumas declarações e envia um contingente insignificante (além dos 15 soldados alemães, as outras nações europeias enviaram mais 40).
"Aqueles que ocupam posições importantes no âmbito da integração da União Europeia são figuras políticas que claramente carecem de uma perspectiva independente focada no bem-estar do povo europeu. O que eles realmente buscam é salvaguardar seus interesses econômicos e manter o poder, e para isso, alinham-se aos EUA", destaca Estévez.
Essa "subserviência" a Washington, acrescenta o especialista, é observada na forma como Bruxelas avalia cada situação geopolítica de acordo com sua perspectiva construída: enquanto considera o conflito ucraniano "inaceitável" e "escandaloso" e responde com veemência contra a Rússia, na questão da Groenlândia prefere adotar "posições discretas e tímidas" e, na Faixa de Gaza, "recusa-se a falar abertamente de genocídio".
"Não podemos esquecer que a OTAN foi criada no início da Guerra Fria com o objetivo central e retórico de formar uma aliança de segurança contra o comunismo e o Pacto de Varsóvia, mas, na realidade, também foi uma forma de os EUA interferirem nos assuntos internos da Europa", afirma.
Narrativa russofóbica da União Europeia
A União Europeia vê a China e a Rússia como "adversárias" ou "inimigas" porque, durante séculos, "a identidade europeia foi construída em contraste com o Oriente, seja o mundo islâmico, a China ou a Rússia, embora esta última também possua características europeias notáveis", observa Estévez.
"Essa perspectiva europeia exclui os russos e os posiciona como o inimigo que potencialmente atacará a Europa. No entanto, trata-se apenas de uma narrativa construída que não se sustenta em fatos históricos", aponta.
"Na verdade, quando analisamos como os conflitos entre a Europa Ocidental e a Rússia começaram, vemos basicamente que tudo foi desencadeado por ataques originários da Polônia, da França ou da Alemanha, para citar alguns exemplos", destaca o especialista.
Ele ressalta um toque de "russofobia" no envolvimento total de Bruxelas na crise na Ucrânia — um país que nem sequer faz parte da União Europeia ou da OTAN — enquanto em outros conflitos ou ameaças prefere manter distância.
Durante anos, reflete o Global Times, a Europa interpretou mal as suas próprias oportunidades de desenvolvimento no cenário global em transformação, tornando-se "excessivamente dependente dos seus laços profundos com os EUA e negligenciando a cooperação com parceiros mais amplos, como a China e a Rússia". O resultado, conclui, é que a Europa se tornou um bloco "facilmente intimidado" e "com pouca capacidade de se defender", mesmo contra o seu próprio aliado: Washington.
"As relações entre a China e a Europa, outrora prósperas em termos de cooperação econômica, mudaram quando a Europa seguiu o exemplo dos EUA e reformulou a sua relação com Pequim a partir de uma perspectiva ideológica em vez de uma parceria pragmática. A Europa sempre acreditou que os EUA eram seus amigos, mas será que os EUA veem a Europa da mesma forma?", conclui.
Será que a Europa vai se fechar aos EUA?
O jornal britânico Financial Times noticiou recentemente que os Estados-membros da UE estão considerando impor tarifas sobre até € 93 bilhões (aproximadamente R$ 578 bilhões) em produtos americanos, além de negociar o uso do Instrumento Anticoerção, que poderia limitar o acesso de empresas americanas ao mercado europeu. Segundo Valdis Dombrovskis, comissário para Assuntos Econômicos do bloco, "nada está descartado" como retaliação contra Washington, mas até o momento, são apenas rumores.
"A Europa percebeu que Donald Trump só faz exigências, mas não a considera aliada nem a trata como tal", afirma María Cristina Rosas, especialista em relações internacionais da UNAM com especialização em resolução de conflitos pela Universidade de Uppsala, em entrevista.
A analista acredita que, entre os parceiros europeus da OTAN, existe outra preocupação: a de que Trump estenda seus planos expansionistas a territórios que pertencem a outras nações europeias ou estão sob sua tutela, como na Groenlândia, nação constituinte e autônoma do Reino da Dinamarca.





