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Soft power cultural: do francês ao inglês, como as potências usam o idioma para impor sua hegemonia?
Soft power cultural: do francês ao inglês, como as potências usam o idioma para impor sua hegemonia?
Sputnik Brasil
Durante encontro com líderes latino-americanos de direita, na última semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, chamou o espanhol de "língua maldita", ao... 12.03.2026, Sputnik Brasil
2026-03-12T19:55-0300
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Do latim ao francês, até a ascensão do inglês, após a Segunda Guerra Mundial, como a chamada "língua universal", o peso político das grandes potências sempre esteve diretamente ligado à projeção internacional de seus idiomas. O professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Pablo Vitor Fontes Santos explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que a linguagem é um elemento central na construção de poder, identidade e pertencimento no sistema internacional.Segundo o pesquisador, a língua não deve ser vista apenas como um instrumento neutro de comunicação, mas também como uma forma de perpetuar relações de poder baseadas no colonialismo. "A língua é uma forma de produzir identidade e pertencimento. Ela pode gerar inclusão, mas também exclusão e até apagamento cultural, dependendo da forma como é utilizada", afirma.Na avaliação de Santos, a consolidação do inglês como idioma dominante está diretamente ligada ao papel assumido pelos Estados Unidos no pós-guerra. Com a reorganização da ordem internacional e o início da Guerra Fria, Washington passou a investir fortemente na chamada diplomacia cultural, utilizando a linguagem como ferramenta de projeção global.Para o professor, o inglês não se expandiu apenas como meio de comunicação internacional, mas também como canal de transmissão de uma determinada visão de mundo.Esse processo, acrescenta o pesquisador, ultrapassa o campo cultural e alcança dimensões políticas e econômicas. "Não se trata apenas de aprender uma língua na escola. O inglês está presente nas negociações diplomáticas, nas transações econômicas, nas instituições internacionais e nos grandes centros de produção de conhecimento."Já o professor titular do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal Fluminense (UFF) Xoán Carlos Lagares citou ao Mundioka o conceito de glotofobia, que se refere à discriminação linguística — como no caso das declarações de Trump sobre o espanhol.Instituições internacionais e indústria culturalOutro fator importante para a consolidação do inglês como "língua universal", explica Santos, foi a estrutura institucional criada no pós-guerra. Organizações internacionais e instituições financeiras multilaterais passaram a operar majoritariamente nesse idioma, reforçando sua centralidade nas relações globais.Paralelamente, a indústria cultural desempenhou papel decisivo na expansão dessa influência. Hollywood, a televisão e os grandes conglomerados do entretenimento ajudaram a disseminar conteúdos que, além de entreter, carregam padrões culturais associados aos Estados Unidos.Mesmo quando filmes e séries são traduzidos ou legendados, o idioma original continua exercendo forte influência simbólica. Segundo Santos, esse processo contribui para difundir hábitos, formas de consumo e visões de mundo que reforçam a centralidade cultural norte-americana.Ao mesmo tempo, a língua também pode se tornar instrumento de contestação política e cultural. Um exemplo recente, segundo Santos, foi a apresentação do cantor porto-riquenho Bad Bunny durante o intervalo do Super Bowl. Para o professor, o gesto teve forte carga simbólica ao desafiar a centralidade cultural do inglês em um dos eventos de maior audiência do planeta.Do francês ao inglês: a mudança de hegemoniaAntes da consolidação do inglês como idioma dominante, o francês ocupava posição central na diplomacia e na cultura internacional. Durante grande parte do século XX, falar francês era associado a prestígio intelectual e social, inclusive em países como o Brasil. "Por muito tempo o francês foi considerado a língua das elites no país", lembra Santos.Esse cenário começou a mudar gradualmente após a Segunda Guerra Mundial e se intensificou durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos passaram a ocupar posição dominante na economia, na política e na cultura ocidental. Segundo o pesquisador, o processo se tornou ainda mais evidente nas décadas de 1980 e 1990, com a expansão da indústria cultural norte-americana e a circulação global de conteúdos audiovisuais que popularizaram o idioma em diferentes regiões do mundo.Mandarim pode desafiar a hegemonia do inglês?Diante da centralidade do inglês nas relações internacionais, uma pergunta recorrente entre analistas é se essa hegemonia pode mudar nas próximas décadas, especialmente com o crescimento econômico e tecnológico da China.Para Santos, essa discussão já aparece há algum tempo entre estudiosos da política internacional. A ascensão chinesa inevitavelmente levanta o debate sobre o papel do mandarim no cenário global, embora ainda seja difícil prever se o idioma poderia substituir o inglês como principal língua internacional.Segundo o pesquisador, a expansão do mandarim enfrenta obstáculos que vão além do peso econômico da China, como a própria estrutura da língua, que torna sua difusão mais complexa. "Não é apenas a grafia. Existe toda uma dimensão fonética e simbólica que torna o aprendizado mais difícil. Muitas vezes a tradução não captura completamente o sentido de certas palavras", finaliza.
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Soft power cultural: do francês ao inglês, como as potências usam o idioma para impor sua hegemonia?
19:55 12.03.2026 (atualizado: 21:02 12.03.2026) Especiais
Durante encontro com líderes latino-americanos de direita, na última semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, chamou o espanhol de "língua maldita", ao dizer que não teria tempo para aprendê-lo. A declaração reacendeu o debate sobre como, desde o pós-guerra, os Estados Unidos utilizam o inglês como instrumento de dominação no mundo.
Do latim ao francês, até a ascensão do inglês, após a Segunda Guerra Mundial, como a chamada "língua universal", o peso político das grandes potências sempre esteve diretamente ligado à
projeção internacional de seus idiomas. O professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Pablo Vitor Fontes Santos explica ao podcast
Mundioka, da Sputnik Brasil, que a linguagem é um elemento central na construção de poder, identidade e
pertencimento no sistema internacional.Segundo o pesquisador, a língua não deve ser vista apenas como um instrumento neutro de comunicação, mas também como uma forma de perpetuar relações de poder baseadas no colonialismo. "A língua é uma forma de produzir identidade e pertencimento. Ela pode gerar inclusão, mas também exclusão e até apagamento cultural, dependendo da forma como é utilizada", afirma.
Na avaliação de Santos, a consolidação do inglês como idioma dominante está diretamente ligada ao papel assumido pelos Estados Unidos no pós-guerra. Com a reorganização da ordem internacional e o início da Guerra Fria, Washington passou a investir fortemente na chamada diplomacia cultural, utilizando a linguagem como ferramenta de projeção global.
"Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos fizeram um investimento muito grande na diplomacia cultural, aquilo que alguns chamam de soft power, o poder brando. Nesse contexto, a língua inglesa passa a funcionar como instrumento de difusão de valores culturais, sociais e políticos associados à sociedade norte-americana."
Para o professor, o inglês não se expandiu apenas como meio de comunicação internacional, mas também como canal de transmissão de uma
determinada visão de mundo."Quando você acessa a língua inglesa, você acessa também um conjunto de valores culturais, formas de comportamento e referências históricas. Isso aparece na música, nos filmes, nas séries, nos cursos de idioma e em toda a indústria cultural que se expandiu globalmente ao longo do século XX", diz.
Esse processo, acrescenta o pesquisador, ultrapassa o campo cultural e alcança
dimensões políticas e econômicas. "Não se trata apenas de aprender uma língua na escola.
O inglês está presente nas negociações diplomáticas, nas transações econômicas, nas instituições internacionais e nos grandes centros de produção de conhecimento."
Já o professor titular do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal Fluminense (UFF) Xoán Carlos Lagares citou ao Mundioka o conceito de glotofobia, que se refere à discriminação linguística — como no caso das declarações de Trump sobre o espanhol.
"Glotofobia é um termo cunhado por um sociolinguista francês, na verdade um falante do provençal, Philippe Blanchet. Trata-se de um termo composto: 'gloto', que significa 'língua' em grego; e 'fobia', que significa 'ódio'. Na prática, refere-se a todo tipo de preconceito linguístico que se manifesta contra línguas que não são consideradas oficiais, línguas sem poder político ou línguas de comunidades em situação minoritária", enfatiza.

31 de dezembro 2025, 21:11
Instituições internacionais e indústria cultural
Outro fator importante para a consolidação do inglês como "língua universal", explica Santos, foi a estrutura institucional criada no pós-guerra. Organizações internacionais e instituições financeiras multilaterais passaram a operar majoritariamente nesse idioma, reforçando sua centralidade nas relações globais.
"Se pensarmos nas instituições internacionais desde Bretton Woods, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial ou mesmo a ONU [Organização das Nações Unidas], uma das principais línguas das quais você tem que ter domínio é a inglesa, porque muitos dos documentos produzidos por essas instituições se dão nela", pontua.
Paralelamente, a
indústria cultural desempenhou papel decisivo na expansão dessa influência. Hollywood, a televisão e os grandes conglomerados do entretenimento ajudaram a disseminar conteúdos que, além de entreter, carregam padrões culturais associados aos Estados Unidos.
Mesmo quando filmes e séries são traduzidos ou legendados, o idioma original continua exercendo forte influência simbólica. Segundo Santos, esse processo contribui para difundir hábitos, formas de consumo e visões de mundo que reforçam a centralidade cultural norte-americana.
Ao mesmo tempo, a língua também pode se tornar instrumento de contestação política e cultural. Um exemplo recente, segundo Santos, foi a apresentação do cantor porto-riquenho Bad Bunny durante o intervalo do Super Bowl. Para o professor, o gesto teve forte carga simbólica ao desafiar a centralidade cultural do inglês em um dos
eventos de maior audiência do planeta."Você tem um artista latino cantando em espanhol, trazendo bandeiras de diferentes países da América Latina e ressignificando a própria ideia de América. Isso mostra como linguagem, cultura e política estão profundamente conectadas", afirma.
Do francês ao inglês: a mudança de hegemonia
Antes da consolidação do inglês como idioma dominante, o francês ocupava posição central na diplomacia e na cultura internacional. Durante grande parte do século XX, falar francês era associado a prestígio intelectual e social, inclusive em países como o Brasil. "Por muito tempo o francês foi considerado a língua das elites no país", lembra Santos.
Esse cenário começou a mudar gradualmente após a Segunda Guerra Mundial e se intensificou durante a Guerra Fria, quando os Estados Unidos passaram a ocupar posição dominante na economia, na política e na cultura ocidental. Segundo o pesquisador, o processo se tornou ainda mais evidente nas décadas de 1980 e 1990, com a expansão da indústria cultural norte-americana e a circulação global de conteúdos audiovisuais que popularizaram o idioma em diferentes regiões do mundo.
Mandarim pode desafiar a hegemonia do inglês?
Diante da centralidade do inglês nas relações internacionais, uma pergunta recorrente entre analistas é se essa hegemonia pode mudar nas próximas décadas, especialmente com o
crescimento econômico e tecnológico da China.Para Santos, essa discussão já aparece há algum tempo entre estudiosos da política internacional. A ascensão chinesa inevitavelmente levanta o debate sobre o papel do mandarim no cenário global, embora ainda seja difícil prever se o idioma poderia substituir o inglês como principal língua internacional.
Segundo o pesquisador, a expansão do mandarim enfrenta obstáculos que vão além do peso econômico da China, como a própria estrutura da língua, que torna sua difusão mais complexa. "Não é apenas a grafia. Existe toda uma dimensão fonética e simbólica que torna o aprendizado mais difícil. Muitas vezes a tradução não captura completamente o sentido de certas palavras", finaliza.
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