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Envolvimento de big techs em guerras: sem sistemas próprios, Brasil está exposto, avaliam analistas

© AP Photo / DVIDSSoldados britânicos lançam um drone com inteligência artificial durante os exercícios do Projeto Convergência em Fort Irwin, Califórnia. EUA, 4 de novembro de 2022
Soldados britânicos lançam um drone com inteligência artificial durante os exercícios do Projeto Convergência em Fort Irwin, Califórnia. EUA, 4 de novembro de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 26.03.2026
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas apontam que a atuação de empresas de inteligência artificial (IA) em guerras dos EUA sinaliza o risco de exposição de dados e espionagem ao qual o Brasil está exposto por recorrer à tecnologia estrangeira em órgãos do governo.
O Departamento de Guerra dos Estados Unidos formalizou nesta semana o uso do sistema de IA Maven, da empresa de tecnologia Palantir, como ferramenta-padrão para processar dados militares, identificar e monitorar alvos e auxiliar na tomada de decisões.
Orçado em US$ 10 bilhões (cerca de R$ 52,4 bilhões), o contrato da Palantir com o Pentágono garante à companhia papel de destaque na defesa norte-americana. Ele também expõe o avanço das empresas de IA em setores-chave de países e joga luz nos riscos que a dependência da tecnologia estrangeira traz à soberania e segurança nacional.
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A Palantir é suspeita de ter ligações com a Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA, na sigla em inglês) por ter recebido em seu investimento inicial US$ 2 milhões (cerca de R$ 10,48 bilhões) da In-Q-Tel — braço de investimento da agência. Ela também é acusada de colaborar com a agência análoga israelense, a Mossad, permitindo que seu sistema de IA seja usado para detectar alvos na Faixa de Gaza.
No Brasil, a Palantir mantém, desde 2024, um contrato com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Além dela, a OpenAI foi contratada para atuar na análise de ações da Advocacia-Geral da União (AGU), e o governo brasileiro mantém contratos com outras companhias estrangeiras do setor de tecnologia, como Oracle, Starlink, Red Hat, Microsoft e Google.
À Sputnik Brasil, especialistas alertam para o risco da exposição de dados quando se recorre a uma IA pública. Guilherme Neves, professor de cibersegurança do Ibmec-RJ, diz que o correto é montar um servidor próprio em que seja possível rodar a própria IA, sem acesso à IA pública.

"Senão há risco de vazamento de dados e mais: há risco de a IA pública aprender como é que você faz as coisas. Então você está transferindo tecnologia para os outros", aponta Conceição.

Ele afirma que a parceria com big techs estrangeiras não torna o Brasil vulnerável aos EUA se o país usar servidores internos e, principalmente, desenvolver seus próprios algoritmos de IA, com suas próprias características. Caso contrário, o país está exposto a riscos.

"O maior risco dessa empresa agir contra o Brasil é aproveitar os dados estratégicos se estivermos rodando informações de IA na base pública, e não em servidores próprios. Aproveitar esses dados para poder traçar uma estratégia de ataque: esse é o maior risco."

A proteção a dados sensíveis é uma questão comum aos países com a aproximação dos governos com big techs, conforme aponta Claudio Miceli de Farias, professor do Núcleo de Computação Eletrônica (NCE) e do Programa de Engenharia de Sistemas e Computação (PESC), ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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Segundo Miceli, uma das formas de mitigar esse risco é construir a soberania digital criando soluções desenvolvidas internamente, com tecnologias do próprio governo. Ele cita como exemplo o caso da gigante de tecnologia chinesa Huawei, que passou a desenvolver chips próprios após o governo norte-americano proibir a Microsoft de fornecer chips à empresa em meio à guerra tecnológica entre EUA e China.

"Hoje ela faz os próprios chips, tem o próprio sistema operacional, tem toda uma solução in-house dela mesma das coisas que ela usa. Então isso é um ponto fundamental dessa discussão", afirma o especialista.

Ele acrescenta que governos que optam por sistemas de companhias estrangeiras podem até ter soluções melhores, mas estão sempre expostos ao risco de ficar sem essa solução em meio a uma guerra comercial ou de ter os dados vazados, como ocorreu no caso da Cambridge Analytica — escândalo no qual dezenas de milhões de pessoas tiveram informações pessoais usadas para fins eleitorais.
Miceli argumenta que parcerias com big techs estrangeiras na esfera pública tornam o Brasil "refém" dessas empresas.

"É claro que também existe uma questão do conforto e da comodidade da gente não cuidar dessas soluções, mas sempre tem esse risco. E se essas empresas estão em um Estado Nacional que tem legislações próprias sobre essas empresas, sobre essa tecnologia, isso nos vulnerabiliza da forma que a gente não tem controle sobre as soluções que a gente está tendo. Como o caso da Huawei é um caso recente, que mostra que isso é uma preocupação."

Diante disso, os riscos são diversos e vão desde perda repentina do acesso a recursos como IA, e-mail, armazenamento de páginas e nuvens até espionagem.
"O risco de espionagem sempre existe, a gente nunca pode descartar esse tipo de coisa. Por mais que as empresas digam que não, existem casos documentados, como foi o caso do [Edward] Snowden, esse caso do Cambridge Analytica mesmo, o caso recente da Palantir, que foi noticiado que o Pentágono queria acesso a informações", explica.
Ele acrescenta que a exigência de acesso a dados não é uma questão exclusiva dos EUA, mas de qualquer país, pois se trata de uma questão de defesa.
Miceli afirma que, em meio aos inúmeros riscos, o maior é o de não ter nenhuma decisão real sobre esse elemento, podendo fazer um investimento que, no longo prazo, pode não se sustentar.

"Óbvio que a gente entende que tem o custo de você ter solução in-house, mas esse custo vem com a salvaguarda de que é sua a responsabilidade", conclui o especialista.

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