Venezuela dá guinada na política externa regional em busca de 'novo espaço de cooperação'
02:21 30.04.2026 (atualizado: 06:21 30.04.2026)

© AP Photo / Ariana Cubillos
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A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, realizou recentemente visita de trabalho a Barbados, e frisou que a parceria pode garantir o futuro da nossa juventude, criar empregos [e] dar impulso produtivo aos setores industriais estratégicos.
Em um contexto geopolítico marcado pela guerra no Irã e seus efeitos nos mercados energéticos e financeiros, a visita foi interpretada por analistas como um movimento estratégico de dupla via: por um lado, busca consolidar alianças no Caribe e, por outro, posicionar a Venezuela como um parceiro indispensável para a segurança energética e o desenvolvimento produtivo da região.
Em entrevista à Spubtik, Yonny Hidalgo, engenheiro, escritor e pesquisador venezuelano, ofereceu à Sputnik analisou significado desses encontros e os desafios enfrentados pela diplomacia venezuelana.
A visita de Rodríguez a Barbados, segundo ele, tem um simbolismo profundo que vai além da simples cooperação bilateral. Segundo sua análise, tanto a Venezuela quanto o país caribenho têm necessidades de legitimação e reconhecimento internacional.
"Do lado da Venezuela, após os acontecimentos de 3 de janeiro de 2026 — quando o presidente Nicolás Maduro e sua esposa foram sequestrados —, o país conseguiu manter a ordem e a paz interna. Isso precisa do reconhecimento de outros países, especialmente dos vizinhos próximos, como Barbados", explicou o especialista.
Hidalgo destacou um dado geográfico que muitas vezes passa despercebido: regiões como Guiria, no leste da Venezuela, estão mais próximas de Barbados do que de Caracas, o que transforma a ilha em um vizinho natural e inevitável.
Do lado da ilha caribenha, o contexto é igualmente significativo. Barbados se constituiu como república em novembro de 2021, deixando para trás séculos de submissão à monarquia britânica. Nesse processo de consolidação de sua soberania, a ilha também precisa construir alianças que não estejam sob tutela das antigas metrópoles europeias.
O analista também situou a visita em um cenário global de turbulências:
"O mundo inteiro está em problemas. O mais evidente é a guerra no Irã. Os efeitos que essa guerra terá sobre a ordem financeira internacional fazem com que nossos países vejam a necessidade de se reunir para criar um espaço de cooperação que lhes permita atuar de forma conjunta diante dos problemas que virão de outras regiões".
Lições do Petrocaribe
Um dos temas prioritários apresentados por Rodríguez em sua agenda é a cooperação energética, um campo no qual a Venezuela acumula décadas de experiência, não isenta de lições aprendidas.
"O Petrocaribe conseguiu construir uma plataforma jurídica e financeira que podia operar apesar das mudanças de governo", disse ele, ao mencionar o acordo, criado em 2005, que permitia que países do Caribe comprassem petróleo venezuelano em condições financeiras preferenciais .
No entanto, segundo Hidalgo, essa cobertura jurídica era viabilizada por meio dos órgãos executivos de cada país. A inovação que o analista identifica nessa nova visita é a intenção de envolver os poderes legislativos.
"Agora se propõe alcançar acordos em nível jurídico que possam ser executados apesar das mudanças de governo, mas envolvendo os órgãos legislativos para fortalecê-los", afirmou.
Essa visão busca proteger os acordos contra a volatilidade política, garantindo que os projetos de cooperação energética e produtiva tenham continuidade além dos ciclos eleitorais ou das mudanças no Executivo. Para Hidalgo, alcançar esquemas jurídicos que transcendam os governos de turno é o ponto central para relançar a integração regional.
O fator Guiana
Um dos pontos mais delicados da política externa venezuelana para o analista é a disputa territorial pelo Essequibo e a relação com a Guiana. A visita a Barbados e Granada adquire uma dimensão estratégica fundamental, já que ambas as nações são membros influentes da Comunidade do Caribe (CARICOM).
"Precisamente, o fato de Barbados ter se tornado uma república lhe deu uma liderança forte dentro da CARICOM, e enquanto pudermos fortalecer relações com os países membros dessa organização, poderemos lidar melhor com a situação com a Guiana", explicou Hidalgo.
O engenheiro destacou um movimento diplomático significativo: o convite aberto a Barbados para participar de investimentos em campos petrolíferos venezuelanos. Essa manobra, segundo sua perspectiva, transforma a relação de uma dinâmica vertical de "fornecedor-cliente" em uma parceria horizontal entre sócios com interesses compartilhados.
"Isso retira da Venezuela a posição de fornecedora exclusiva de petróleo e permite criar um espaço de cooperação mais profundo", afirmou.
Hidalgo projeta um cenário futuro no qual Barbados, interessado em desenvolver sua própria produção offshore em águas próximas à fronteira com a Guiana, encontre na Venezuela não apenas um aliado energético, mas também um parceiro tecnológico e geopolítico.
"Quando Barbados quiser investir na produção de petróleo offshore, em águas próximas às fronteiras com a Guiana, todo esse contexto que está sendo construído favorecerá esse tipo de investimento", concluiu.

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