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Exemplo inspirador para a China, agora cabe ao Brasil 'seguir os passos' do parceiro asiático

© Sputnik / Aleksandr KazakovA China apresentou o míssil balístico intercontinental Dongfeng 5 (DF-5C) no desfile militar desta quarta-feira (3) em Pequim
A China apresentou o míssil balístico intercontinental Dongfeng 5 (DF-5C) no desfile militar desta quarta-feira (3) em Pequim - Sputnik Brasil, 1920, 30.10.2026
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Em duas décadas, a China saiu da fama de ser origem de mão de obra barata e de produtos de qualidade duvidosa, a maior potência mundial em tecnologia e produtos de alto valor agregado.
Desde sistemas de inteligência artificial, chips, de infraestrutura de computação, energia, à produção de baterias, trens de alta velocidade, satélites, o gigante asiático não cessa de surpreender quando o assunto é velocidade em inovação.
E para abordar o tema, o podcast da Sputnik Mundioka ouviu o autor dos livros A China e a Nova Rota da Seda e Quem Tem Medo da China, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Diego Pautasso, e Gustavo Alejandro Cardozo, doutor em desenvolvimento regional e pesquisador sênior do Observa China.
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Ao lembrar que a partir dos anos 1980, o país recebeu multinacionais ocidentais que se utilizaram da grande oferta de mão de obra barata, Pautasso, destacou que paralelamente o regime chinês mobilizou políticas industriais, comerciais e tecnológicas que internalizaram a cadeia produtiva, tecnologias e, agregando valor a sua produção, com qualificação da mão de obra e mobilidade social.
"É exatamente esse processo, ao longo dos últimos 30, 40 anos, que fez a China sair de uma produção de baixo valor agregado, de produtos simples e primários [...] para se transformar no país que lidera a fronteira tecnológica", disse ele, que é Co-criador do projeto Fios da China nas redes sociais.
O "grande pulo do gato da China", frisou, foi criar uma trajetória nova no mercado automobilístico, com investimento em carros elétricos, tornando-a líder nesse mercado.
"Eles dominam das terras raras, passando pelas baterias, imãs e chegam até os veículos elétricos. E com isso eles conseguem, em um só movimento, fazer uma transição na sua mobilidade, por uma mobilidade elétrica e mais limpa, e ao mesmo tempo dominar todo o circuito tecnológico relacionado aos carros elétricos."
Cardozo destacou o investimento nas universidades para alcançar a vanguarda da tecnologia a nível mundial.
"A China está praticamente liderando em áreas estratégicas como ciências dos materiais, químicas, engenharia, energia da computação e inteligência artificial. É um dos maiores emissores de estudantes internacionais do mundo. Os chamados Haihi, que estudaram fora, já voltam para a China, então eles voltam com esse know-how, esse conhecimento. Então, também colocam as universidades chinesas na fabricação de novas ideias."
Capacidade de coordenação, investimentos públicos robustos possibilitaram que o país, que tinha 80% da população vivendo no campo em 1980, superasse a réplica de tecnologias estrangeiras para aperfeiçoá-las e criar produtos competitivos, ponderou Pautasso

"Aqueles que achavam que se tratava simplesmente de pirataria ou de bugigangas, logo viram a China liderar a inovação em várias áreas [...] E, nesse sentido, o papel do planejamento público, do investimento, da visão de longo prazo, do investimento em inovação, ciência e tecnologia cumpriram um papel articulado nesse projeto de desenvolvimento nacional."

O sucesso chinês, no entanto, é difícil de ser replicado, segundo os entrevistados, pois demanda um governo que não é refém das leis do mercado, tem soberania tecnológica e consegue concluir políticas industriais, comerciais e tecnológicas como política de Estado:
"A China tem um planejamento do desenvolvimento tecnológico, que é planificado, e esse planejamento fica de quatro a cinco anos, e eles vão fazendo, digamos, fixando objetivos para alcançar durante esse processo. Eles destinam um pressuposto, esse pressuposto não é alterado, não é que muda o governo, e eles tiram esse pressuposto, ele fica. Então eles têm resultados muito importantes durante esses quatro, cinco anos que vão trabalhando", explicou Cardozo.
Para Pautasso essa capacidade tecnológica é fundamental para a soberania da tecnologia digital, um dos gargalos aos quais muitos países são submetidos, inclusive o Brasil, cuja ingerência das big techs ficou evidente durante as eleições deste ano. A tentativa frustrada dos EUA de tentar boicotar a produção de semicondutores chineses é exemplo dessa soberania, disse:

"O tiro saiu pela culatra, porque por ser uma economia grande, com capacidade de planejamento, de investimento público, de realização de compras governamentais, com ecossistema de empresas de inovação muito forte, que forma grande quantidade de engenheiros técnicos e especialistas nessa área, acabou por precipitar o desenvolvimento chinês na área de semicondutores", opinou. "No final das contas, os Estados Unidos tinham maior dependência de produtos críticos da China do que a China de produtos críticos dos Estados Unidos".

Cardozo também chamou a atenção para a questão milenar e cultural da sociedade chinesa:
"A visão chinesa é uma visão muito comunitária, não uma visão individualista como a nossa visão aqui ocidental, por isso, quando um fala com um chinês de democracia, ele não compreende, porque essa obrigação do chinês é para com o grupo social e político, eles têm uma obrigação, primeiro com sua sociedade e depois com seu grupo político."
As estratégias de boicote ao crescimento chinês favoreceram a diversificação do comércio da China, principalmente, em direção ao sul global, na opinião do analista.
Mais recentemente, o país asiático também revelou o avanço vertiginoso no setor de defesa com produção de mísseis hipersônicos, drones, veículos não tripulados, entre outras armas de alta tecnologia, bem como modernização das forças armadas.
Com isso, a China criou alternativas sistêmicas no campo econômico, no campo comercial, no campo tecnológico e no campo da governança ao domínio do Atlântico Norte, opinou o Pautasso.

"Relações que obviamente podem ser atravessadas por contradições e assimetrias mas que não são baseadas ou não têm sido baseadas na mesma lógica imperial e do recurso à força. China não tem interesse em alterar substantivamente as regras do jogo, a não ser no sentido de criar um mecanismo, uma governança mais efetiva, mais participativa, com maior representação do Sul Global."

Brasil como exemplo

Segundo Pautasso, quando a China ainda tinha um Produto Interno Bruto (PIB) abaixo da média mundial e enfrentava sério problemas sociais e econômicos, na década de 1980, o Brasil era exemplo de país com o maior crescimento industrial no hemisfério sul em ritmo acelerado.
"A China extraiu lições da experiência brasileira, que obviamente também estava atravessada por contradições, mas era um processo bastante virtuoso de conversão de um país agrário num país industrializado de nível médio", observou ele.
Agora, cabe ao Brasil extrair as lições do processo de desenvolvimento chinês, defendeu o entrevistado.
"Cabe ao Brasil também se debruçar um pouco sobre a experiência chinesa [...], estudando as melhores práticas para que a gente também possa iluminar um pouco os desafios que temos pela frente."
Ele ressaltou que a cooperação sino-brasileira com transferência de tecnologia avançou em alguns setores importantes, e destacou o da saúde:
"A gente tem o SUS [Sistema Único de Saúde], que garante grande quantidade de compras governamentais. O Brasil se viu fragilizado no seu complexo industrial da saúde. E essa é uma fronteira que a gente pode, a um só tempo, reindustrializar e, ao mesmo tempo, estabelecer cooperação, transferência tecnológica, joint ventures, inclusive aprender com as lições da China".
Ele também citou os setores ferroviário, rodoviário e metroviário, em que a China teria muito a contribuir e fortalecer em parcerias de transferência de tecnologia.
Cardozo corroborou com a importância da visão de longo prazo para o sucesso de qualquer desenvolvimento e disse que o Brasil tem neste momento uma oportunidade ímpar:
"O Brasil tem muitas condições para ser uma potência muito importante a nível global em muitas áreas estratégicas. Acho que é a melhor economia neste momento da América do Sul, muito importante."
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