Rússia e Argentina limitam exportações: ação evidencia crise global de commodities?
16:26, 18 de dezembro 2021
Os dois países decidem modificar medidas relativas à exportação de um dos produtos mais importantes do mercado internacional: o trigo. A Sputnik Brasil entrevistou analista para saber o que leva duas nações tão distintas a adotarem novas resoluções sobre uma das commodities mais antigas do mundo.
SputnikNa sexta-feira (17), Rússia e Argentina anunciaram novas regras sobre a
exportação de commodities, com foco no trigo e, no caso argentino, também com foco no milho.
Buenos Aires limitou o volume de milho e trigo a ser exportado na temporada 2021/22 em 41,6 milhões e 12,5 milhões de toneladas, respectivamente,
segundo a IstoÉ dinheiro.
Já Moscou, maior exportadora de trigo do mundo, planeja estabelecer sua cota de exportação do produto em oito milhões de toneladas, marcando uma redução de um milhão de toneladas em relação ao nível concebido anteriormente, de
acordo com a mídia.
Diante de medidas pretendidas por países tão distantes e distintos sobre o mesmo tipo de comércio, surge o questionamento se uma crise global de commodities começou a se desenvolver.
A Sputnik Brasil entrevistou Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM/SP e especialista em História das Relações Internacionais e em Geoeconomia Internacional para entender o que há por trás das resoluções adotadas pelas duas nações.
Trevisan explica que essa não é a primeira vez que o governo argentino decide estabelecer um sistema de controle dos volumes exportáveis, e que tal medida, visa "aumentar a oferta de milho e de trigo no mercado interno para tentar conter a inflação que está elevada no país, principalmente atingindo os produtos alimentares provenientes do trigo".
"A Argentina sofre, de algum modo, uma carência no controle do processo inflacionário, e atribui a esse processo apenas uma questão de oferta de mercadoria. […] No entanto, o limite estabelecido é bastante pequeno, correspondendo aproximadamente a 20% da produção argentina dos dois produtos", esclarece.
O alvo da medida é "acalmar o
mercado interno argentino das pressões inflacionárias", entretanto, o especialista ressalta que é importante observar "o quanto dessas pressões contidas podem agravar a crise política no país".
Ao mesmo tempo que pode influenciar na já turbulenta economia do país, há outro ponto negativo ressaltado por Trevisan, o de que o controle dos volumes exportáveis já provou ser uma resolução "que termina em fracasso".
"Esse 'remédio' já foi tentado por, pelo menos, quatro ou cinco ocasiões nos últimos dez anos na Argentina e sempre resultou em fracasso. […] A simples retenção de vendas de commodities não significa uma absorção maior de dólar e também não significa que esse trigo e esse milho serão responsáveis pelo controle da alta de preços."
Impacto em países vizinhos
Ao mesmo tempo, a determinação argentina pode vir a ser sentida por seus vizinhos. Trevisan aponta que a decisão impacta o Brasil, uma vez que "compramos entre 75% a 80% do trigo que consumimos de exportadores argentinos".
"O Brasil já tentou diversificar essa medida comprando no ano passado uma porcentagem pequena de trigo dos EUA, porém, nós temos acordos muito sólidos e tradicionais firmados nos últimos 20 anos com os argentinos pelos tratados do Mercosul."
O
intercâmbio comercial estabelecido entre os dois países no âmbito mercosulino cria, então, duas situações que dificultam a compra do produto pelo Brasil de outros exportadores:
"Primeiro a Argentina vai reclamar os acordos assinados, e por outro lado, com esses acordos, o Brasil recebe o trigo
argentino com taxas preferenciais, algo que não vai acontecer ao comprar de outros fornecedores".
Característica central da inflação argentina
Atualmente, a Buenos Aires enfrenta uma inflação anual de mais de 50%, bem maior que a brasileira. Trevisan elucida que "o governo argentino enfrenta uma dívida interna que é inadministrável, a qual tem um déficit muito alto e que precisa emitir dinheiro para cobrir esse déficit".
"Praticamente, um terço dos consumidores de energia elétrica na Argentina não pagam a conta de luz, que é totalmente subsidiada pelo governo devido a taxas sociais, esse é um dos dados que pressiona o volume de gastos. Além disso, os dólares alcançados através das exportações não significa que o dinheiro fica no país, o que faz o preço do dólar interno subir muito."
Outro ponto importante a ser notado, é o fato de que Buenos Aires tem, fora do país, "mais de 100% do seu PIB em dólar depositado em bancos internacionais que não voltou para solo argentino", segundo o especialista.
"Esta realidade explica muito mais
sobre o contexto de alta inflação argentino do que o controle da venda de trigo e milho determinado nesta última medida", complementa Trevisan.
Contexto do trigo russo vs. argentino
Simultaneamente, também na sexta-feira (17), a Rússia anunciou que planeja estabelecer cota para exportação de trigo. Contudo, o quadro russo difere do quadro argentino, segundo Trevisan.
"A Rússia é a maior exportadora de trigo do mundo, e usa essas cotas de exportação como um fator geopolítico e geoeconômico. Atualmente, com a crise da Ucrânia, Moscou está pressionada, e começa a alertar o mundo de que sanções econômicas podem ter mão dupla. O país não estabeleceu uma cota de exportação, mas sim aumentou o imposto de exportação, o que afeta diretamente o mundo todo que tem um ciclo inflacionário bem alto."
De acordo com o especialista, essa é uma das formas que o governo russo encontrou para demonstrar "que também
tem elementos de defesa em relação a sanções, e merece destaque nesse aspecto que o trigo russo teve, nesta primeira semana de dezembro, uma venda maior para China".
"De alguma maneira, a tensa situação na Ucrânia já está produzindo efeitos econômicos no processo de defesa russo em relação às sanções estabelecidas por outros países."
Outro ponto que diverge o tipo de exportação de commodity argentino para o russo, é o fato de o mercado argentino se manter praticamente na comercialização com países vizinhos, dentro da conjuntura do Mercosul, enquanto que a Rússia "tem uma exportação aberta, mundial".
"A Rússia é uma grande produtora de commodities na área de energia, petróleo e gás, e esse não é o caso da Argentina. Buenos Aires produz outros produtos agrícolas […] assim como Moscou, mas o mercado argentino é acomodado ao Mercosul. Este não é o caso do mercado russo, o qual tem uma exportação aberta."
O especialista complementa que "o valor do trigo da Rússia é sempre um fator de equilíbrio para o preço do trigo no contexto europeu e norte-americano", diferente do argentino, que atende a um "mercado menor e mais definido".
Crise global de commodities
Diante das medidas adotadas referentes ao mesmo produto, por países tão distantes e distintos, é notável que está se desenvolvendo uma crise mundial de commodities. Trevisan diz que os pontos centrais desta crise são "uma desorganização do processo" e a elevação no custo do transporte.
"Houve uma desorganização de todo o processo produtivo e aconteceu um aumento significativo no preço do transporte marítimo dos produtos. O valor cobrado por cada contêiner chegou a subir 1000% nos últimos dez meses, esse valor afeta diretamente o comércio internacional", elucida o especialista.
Para Trevisan, o mundo não está apenas
enfrentando uma crise global de commodities, estamos vivendo "uma crise mundial de adaptação de um processo pós-pandemia, que está atingindo diferentes cadeias de produção, abarcando não só o mercado de commodities como também o de produtos industrializados".
"Parte considerável do aumento de 22% do preço do trigo médio na bolsa de Chicago nos últimos 12 meses se deve ao aumento no preço dos fretes, e não necessariamente ao aumento no preço direto da própria commodity", conclui o especialista.