Sem citar o presidente estadunidense, ele lamentou a conjuntura internacional "desafiadora para o sistema internacional, a América Latina e a Corte IDH". Mudrovitsch disse que acompanha com apreensão à ascensão unilateralismo ganhar corpo como nova ordem internacional em diferentes partes do mundo.
"A ordem internacional construída no pós-2ª Guerra Mundial, fundada nos princípios do respeito ao direito internacional, da prevalência dos direitos humanos, da igualdade soberana dos Estados, da autodeterminação dos povos, da proscrição do uso ou ameaça do uso da força, da não-intervenção nos assuntos internos, da solução pacífica de controvérsias, do respeito à integridade territorial dos Estados e do multilateralismo, tem passado por um processo de contestação", disse Mudrovitsch em seu discurso.
Mudrovitsch afirmou ainda que a prioridade da corte, que ele presidirá pelos próximos dois anos, será a defesa de eleições legítimas no continente e da liberdade de expressão.
"Não bastam eleições periódicas com sufrágio universal. Um regime verdadeiramente democrático exige eleições autênticas, com imprevisibilidade dos vencedores, em pleitos imunes à captura, prévia ou posterior, de seus resultados por facções detentoras do poder político ou econômico", defendeu. "A democracia não prospera em uma ordem avessa à crítica, ao dissenso e ao livre debate de ideias", concluiu.
O novo presidente da Corte IDH é doutor pela USP e participou da elaboração de projetos legislativos de grande porte na Câmara dos Deputados e no Senado, como a reforma do Código Civil e na Lei de Improbidade Administrativa.
Mudrovistch chegou à corte em 2021 e em 2023 foi eleito vice-presidente do tribunal, cargo que ocupou até o fim do ano passado. Ele atuará como presidente da corte pelos próximos dois anos, até o dia 31 de dezembro de 2027.
Presidente do STF discursa na cerimônia
A solenidade contou com a presença de autoridades brasileiras como o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, a ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que também discursou.
"Vivemos no mundo uma era de incertezas. Há uma crise da democracia liberal", disse ele ao enfatizar que a desigualdade material é um dos principais vilãos para se alcançar a democracia de fato.
"A democracia não cumpriu todas as suas promessas —sobretudo a de igualdade material— e é desse vácuo que se nutrem populismos autoritários que pretendem miná-la por dentro."
Ao lembrar da tentativa de golpe no Brasil em 8 de Janeiro de 2023, salientou que "a democracia requer memória, não para despertar ressentimentos, mas para prevenir recaídas" e fez críticas ao que chamou de perseguição a ministros do STF como "modalidade silenciosa" do autoritarismo que representa "erosão democrática" que "corrói as instituições por dentro".
"São tempos em que a estrutura de freios e contrapesos é tensionada até quase à exaustão; em que a liberdade de imprensa é hostilizada; em que magistrados e magistradas são perseguidos por seu ofício", disse o presidente da corte.
As declarações são feitas após uma série de reportagens de mídias brasileiras colocando em suspeição o decoro de ministros do STF envolvendo as investigações sobre fraudes do banco Master. O ministro Dias Toffoli, relator do caso, está no centro da crise, devido a diversos episódios polêmicos, como um voo em um jato particular junto a um advogado de defesa, e negócios envolvendo seus irmãos com o banco investigado.