Crescimento das batalhas de rima expõe embate entre periferia e poder público em SP
21:40, 30 de janeiro 2026
O avanço das batalhas de rima em São Paulo e no ABC expõe uma disputa por espaço, narrativa e políticas públicas que atravessa a última década e se intensifica com a popularização do freestyle.
SputnikA 'batalha' é, antes de tudo, ferramenta de formação política e ocupação do espaço urbano. Este é o diagnóstico dos artistas entrevistados pela Sputnik Brasil: Winnit MC, educador do ABC. Lucas do Vale, fundador da Batalha da Matrix e João Augusto Benedetti, o Mamuti, produtor e pesquisador da cultura de rua na capital:
Winnit afirma que a expansão das batalhas de rima no país veio acompanhada de um processo de
marginalização reforçado por parte do poder público. Ele vê a
cultura como instrumento direto de transformação e diz que o incômodo estatal se explica porque a batalha "empodera o jovem" e desperta consciência crítica em espaços públicos.
"A Batalha de Rima é tão marginalizada e tão perseguida porque ela dá poder para quem acha que não tem", afirma.
"A batalha de rima é um freestyle, é uma forma de pensar e uma forma de se comunicar que você pode montar através de vários elementos diferentes [...] pra mim não foi uma coisa difícil, porque eu buscava um lugar onde pudesse conversar com pessoas que eu considerava iguais a mim".
O MC cresceu em Diadema, na região do ABC, território que descreve como "muito marcado pela luta, pela política de uma forma geral". Antes de rimar, seu foco era a militância estudantil. "Desde que comecei a fazer isso aí me dediquei 100%… era a única coisa que parecia que tava funcionando na minha vida".
27 de novembro 2024, 15:04
Winnit circulava pela Casa do Hip-Hop da região, porque se identificava com a estética e a linguagem do movimento. "Eu achava os outros elementos interessantes: o DJ, o grafite, o break dance… aquela coisa do aerosol, eu comecei fazendo umas tagzinha", diz ele.
Apesar de não seguir no graffiti, ele diz que essa vivência moldou sua percepção do que é a cultura como um todo.
"As pessoas se expressam pela vestimenta, pelas roupas, pelo corpo, pelas cores, pelas palavras e pelo jeito de escrever. Então, acho que é simultâneo, é um crescimento conjunto".
Batalha da Matrix
A Batalha da Matrix, em São Bernardo do Campo, se tornou um dos principais pontos de encontro da cultura de rua no ABC. Criada em 7 de maio de 2013, ela nasceu de encontros informais entre amigos que improvisavam rimas nas praças e postos da cidade.
Os primeiros passos ocorreram a partir do Sarau do Fórum, ligado ao projeto Meninos e Meninas de Rua. Ali, o grupo encontrou a "velha guarda do hip-hop", como descreve Lucas do Vale, um dos fundadores.
A partir desses encontros, nasceu a iniciativa de estruturar um movimento próprio. O local, recém reformado, virou ponto de encontro de skatistas e jovens. Segundo Lucas, ninguém sabia ao certo "se tinha que pedir autorização pro padre ou alguma coisa do tipo", mas as primeiras semanas foram realizadas sem interrupções — até se transformarem em 515 semanas seguidas de batalha.
O evento hoje é um dos maiores do estado, segundo ele. "Existe a percepção entre o público e os MCs que sim, que é uma das maiores do estado em volume de público", diz.
Além do tamanho, a história marcou a reputação da batalha entre MCs. "O pessoal considera muito a Matrix pela história, pelo histórico de resistência", afirma Lucas. Esse histórico inclui anos de
confrontos com o poder público municipal — um embate que, segundo ele, moldou a
identidade do movimento.
Localizada no centro comercial de São Bernardo, na Praça da Matriz, a batalha não fica perto de estações de trem ou metrô — algo que, em outras cidades, costuma definir o ponto das batalhas. "Isso quebra nossas pernas, mano, mas incrivelmente, mesmo assim, ainda rola uma certa disposição da galera para colar para cá", explica.
Mobilidade urbana e cultura periférica
A falta de acessibilidade afeta diretamente o público e os MCs, como já registrado no livro Rap, cultura e política, que trata sobre a Batalha da Matrix, de autoria de Felipe Oliveira Campos, o "Choco". Para João Augusto Benedetti, o Mamuti, a força das batalhas de MCs em São Paulo tem relação direta com a mobilidade e o direito dos jovens à cidade.
"Com R$ 5 você chega de Jundiaí a Rio Grande da Serra, você vai até o Fundão da Zona Leste, Guaianases e, tipo, pode chegar no Grajaú pelos mesmos R$ 5. Então isso dá uma facilitada”, afirma.
Segundo ele, essa circulação ajuda jovens a entenderem que seu território não se limita ao bairro onde cresceram. "Tem jovens que acham que a cidade é o bairro e São Paulo é uma outra cidade".
"A batalha de rima é uma parada que faz o jovem entender o direito dele à cidade", explica. "O ritmo que a cidade tem é o ritmo das batalhas. E esse negócio da cidade respirar essa cultura urbana".
Ao lembrar que uma das primeiras batalhas realizadas próximas ao metrô foi a Batalha do Santa Cruz, estação de nome homônimo, ele explica que vários desses eventos acontecem estrategicamente próximos de terminais para facilitar a locomoção.
Ele ressalta a importância de
ocupar os espaços públicos, não apenas a rua, como também centros culturais.
Ainda que a Batalha da Matrix esteja fora dessa lógica — já que Sã Bernardo do Campo não possui linhas de trem —, o público do ABC e de São Paulo conseguem dar um jeito de participar, usando uma combinação de transporte público, trem, trólebus e, muitas vezes, aplicativos, segundo Lucas.
"Aqui a galera presta muita atenção na rima", diz. Ele atribui isso ao perfil mais velho e menos idólatra do público, diferente de outras batalhas em que adolescentes seguem MCs famosos como figuras centrais. “Às vezes até passa batido a fama de um MC. Muitas vezes ele nem é reconhecido pelo público, que tá ali para julgar o que ele tem a entregar mesmo".
Para o MC Winnit, São Paulo tem um ecossistema único, mais diverso e mais competitivo.
"Por ser tão grande, tem uma ampla concorrência [...] uma pessoa que tem mais recursos vai conseguir fazer uma coisa melhor.” Por outro lado, cidades menores têm impacto mais direto quando revelam novos MCs. “Às vezes você vai pra uma cidade que tem só um MC e aquilo impacta mais do que numa cidade grande".
Repressão
Entre 2013 e 2017, a repressão foi "muito direta", segundo Lucas. "A gente tá falando de bomba, de bala de borracha, de polícia, de perseguição com meio de força mesmo".
O grupo produziu denúncias e dossiês para comprovar abusos e guarda até hoje bombas deflagradas no local da batalha. Segundo Lucas, o processo de perseguição tornou-se institucional, com multas, investigações e processos penais.
Ele afirma ter cerca de R$ 106 mil em multas, enquanto outro fundador acumula R$ 15 mil. “Foi um estalar de dedos do prefeito que para ele não aconteceu nada e para a gente nossa vida virou uma reviravolta.”
"Acho que São Bernardo tem uma característica muito particular, que é uma cidade ainda muito provinciana", afirma. Para ele, houve "uma pegada de
racismo institucional como política", citando ações contra casas de matriz africana e movimentos culturais periféricos.
Há, inclusive, um processo judicial de racismo institucional em curso contra o ex-prefeito. Lucas descreve a gestão como higienista: "Não era essa cultura que ele queria" Ele cita como exemplo o fato de a prefeitura ter realizado "uma festa oriental" no Dia da Consciência Negra — o que considera uma afronta.
O contraste com a tradição operária da cidade, opina, é resultado da virada conservadora.
"São Bernardo acabou se tornando uma cidade muito conservadora, muito reacionária até", diz, reforçando o papel do crescimento evangélico e da especulação imobiliária. "Nunca subiu tanto prédio, tanto condomínio de alto padrão, com as construtoras sorrindo e o povo que queria fazer cultura na rua chorando, sendo perseguido".
Mesmo com os obstáculos, Lucas afirma que a Matrix segue crescendo e se profissionalizando. O grupo administra um estúdio, uma produtora e uma linha de roupas, buscando novas formas de captação sem depender de grandes patrocínios.
"Acho que é interessante observar a flor que nasceu dessa rachadura no concreto e que ainda está crescendo".
Para Mamuti, apesar do sucesso da Batalha, há repressões rotineiramente:
Para a cultura hip-hop, para a cultura de periferia, para a juventude preta periférica no geral, o único braço do governo que chega é a polícia, é a repressão policial, seja pela GCM, seja pela Polícia Militar", afirma Mamuti.
Segundo ele, no entanto, a relação com o poder público muda em períodos eleitorais. "Em ano de eleição, eles entendem que a gente tá com a juventude. Aí eles aparecem, aí chega um dinheiro, aí chega um evento".
Winnit relata que, em São Bernardo, batalhas enfrentam forte repressão policial sobretudo devido ao impacto político da cultura. O incômodo, segundo ele, surge quando pessoas historicamente afastadas do debate público passam a disputar espaço.
"O jovem entende que o ambiente onde se realiza a batalha de rima é um ambiente público, que ele pode ocupar da forma que ele quiser [...] "Quando comecei eu descobri que através das palavras eu conseguia gerar convicções, convencer pessoas e me levar até lugares [...] Quando a gente se junta enquanto movimento, isso se torna uma ameaça para quem nos governa".
Popularização nas redes sociais
Lucas vê a explosão das batalhas como inevitável, impulsionada pela Batalha da Aldeia e pela profissionalização digital. Ele lembra que, antes, tudo era na rua e no boca a boca. Depois, as batalhas migraram para o Facebook e para outras plataformas, produzindo conteúdo e tornando-se acompanháveis à distância. O salto maior veio durante a pandemia.
"A Batalha da Aldeia era a única que estava pronta naquele momento para assumir esse papel completamente digital", diz.
Enquanto outras batalhas ainda se estruturavam, a transmissão semanal da Aldeia consolidou um público nacional. Nos últimos cinco anos, Lucas estima um aumento "exponencial" de audiência, com milhões de espectadores. A popularização abriu espaço para financiamento e participação em editais e eventos culturais. "Hoje em dia dá para vislumbrar mais assim um mercado de publicidade."
O auge ou 'boom', para ele, trouxe efeitos colaterais. O crescimento foi tão rápido que parte do público não conhece a história nem os códigos do hip-hop. "A galera chegou, pegou uma cadeira e ficou, mas não necessariamente sabia onde estava sentado".
Para ele, o papel central da cultura é justamente formar consciência. Ele cita o impacto sobre adolescentes e jovens que frequentam as rodas:
"A maior parte do público hoje são crianças e jovens de 12 até 24 anos. A gente tem mais tempo com essas crianças do que às vezes os pais, do que às vezes a própria escola", conta. "Não sei se dá para educar 100% do público, mas com certeza é necessário um processo de educação e politização".
O artista lamentou que haja batalhas que deseducam, com discursos misóginos, racistas, transfóbicos e homofóbicos.
"Dependendo do nível do discurso, você é desclassificado e banido e não pode mais batalhar nunca [...] A gente tem a missão de politizar as pessoas, de ensinar, de passar conhecimento", diz Mamuti.
Educação e ancestralidade
Winnit defende que a batalha é — e deve ser — politizada. "A gente tem a missão de politizar as pessoas, de ensinar, de passar conhecimento", defende.
"A gente é condicionado a não acreditar no nosso potencial. Então, você acorda de frente para um córrego, o primeiro sinal de dia que você tem é aquele odor fétido que te inibe de ter outros sentidos, de pensamento crítico, então, a primeira coisa que você quer fazer é sair dali. Para sair dali, você tem que entrar num ônibus lotado, aí você se aperta para poder trampar para alguém para ganhar um dinheiro, porque aquele dinheiro te coloca um passo acima das pessoas que vieram no mesmo lugar que você. Então, acho que a batalha de rima também traz essa autonomia financeira, traz essa autonomia estética, esse poder de questionamento".
Ele conecta essa missão de ensinamento à tradição da África Ocidental. "A batalha de rima, o freestyle, vem da cultura chamada griot, de quem guardava a história do seu povo pela palavra".
"Eu gosto muito de resgatar os afro-ritmos dentro da minha música e trabalhar bem nessa estética, tanto visual quanto auditivamente, porque eu acho que é o caminho melhor assim para música".
13 de dezembro 2024, 18:00
Além das rimas, Winnit
investe em música e direção audiovisual, produzindo e montando os próprios trabalhos. “Não é questão de controle, é autonomia, de me ver mesmo”, defende.
O artista lançou o clipe My Meisie, do qual participou também como ator e produtor executivo, além de participar diretamente no processo criativo.
"Está com mais de 18 premiações internacionais, e foi uma parada que eu fiz muito na unha, muito no seco [...] A música e o filme pra mim caminham como se fosse uma simbiose".
Segundo ele, artistas periféricos precisam reassumir suas narrativas.
"Eu quero ser o protagonista daquilo que eu tô cantando, que eu tô contando. É a gente retomar o poder da nossa narrativa", conclui ele.
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!
Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.
Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).