Neste 2 de fevereiro, completam-se 177 anos da assinatura do Tratado de Guadalupe Hidalgo, o acordo que causou a perda de cerca de 55% de seu território do México para o vizinhos estadunidense, após uma operação intervencionista perpetrada por Washington.
Em entrevista à Sputnik, Alfredo Ávila Rueda, doutor em História pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), analisa esse episódio da história mexicana, suas implicações ao longo dos anos e o contexto histórico, político e social atual entre as duas nações.
'Foi uma guerra de conquista'
O conflito entre o México e os Estados Unidos teve início em 1846 e se estendeu até 1848. Apesar das desculpas e argumentos apresentados por Washington, o especialista apontou que a finalidade do conflito era, basicamente, a expansão territorial.
"Trata-se de uma guerra basicamente de conquista; ou seja, há, claro, um monte de desculpas, um monte de argumentos, mas trata-se basicamente disso", explicou. “Os Estados Unidos, desde sua independência, haviam buscado obter mais recursos naturais para explorá-los, fundamentalmente terras rumo ao oeste, as antigas colônias. O problema é que essas terras tinham dono. Essas terras eram de comunidades nativas, de comunidades indígenas [...]".
De acordo com registros históricos, o México recebeu cerca de US$ 15 milhões (R$ 79 milhões) pelos estados da Califórnia, Novo México, Arizona, Texas, Nevada, Utah, além de partes do Colorado e Wyoming.
O valor, apontou o historiador mexicano, foi mais pagamento "simbólico", que serviu para que os Estados Unidos "lavassem as mãos diante de um fato que aqui e em qualquer lugar se chama conquista".
Além disso, afirmou, a quantia não chegou integralmente aos cofres do então governo mexicano, pois a maior parte foi destinada ao pagamento das reivindicações de cidadãos estadunidenses contra o México durante o período do conflito.
Um tratado determinante
O também professor e pesquisador da UNAM explicou que o tratado não foi determinante apenas em seu momento, como também moldou a futura relação entre os dois países em temas fronteiriços.
Ávila Rueda destacou que, no documento, uma das falhas graves por parte das autoridades mexicanas foi deixar nas mãos dos Estados Unidos a vigilância da fronteira, algo que até hoje é um tema áspero entre as duas nações.
"Na prática, o México estava renunciando ao exercício de sua soberania no controle da fronteira [...] Os Estados Unidos são um país tremendamente rico, em grande medida, por essa impressionante produção agrícola que possuem graças à quantidade de recursos naturais, e isso foi precisamente o que eles buscavam desde praticamente a sua independência: adquirir todo esse território que lhes gerou enorme riqueza", afirmou.
O fato também teve implicações sociais, frisou, pois, enquanto alguns apontam que o território foi conquistado "à força" pelos EUA, o discurso neoliberal estadunidense foi bem-sucedido para boa parcela da população:
"Acho que, se em algo o discurso neoliberal teve êxito, sobretudo a partir da década de 1990, foi em gerar uma enorme admiração pelos Estados Unidos em muitos setores da sociedade mexicana, particularmente nas classes médias”", opinou ele.