Para o alto e avante: como o Conselho Espacial do BRICS pode fortalecer o frágil setor brasileiro?
21:15, 12 de fevereiro 2026
E lá se vão 20 anos desde a primeira (e única) expedição com um astronauta brasileiro rumo ao espaço sideral. Agora senador e cosmonauta Marcos Pontes representou o país na Missão Centenário, em parceria com a agência espacial da Rússia, Roscosmos.
SputnikDuas décadas depois, o cenário brasileiro não mudou muito. O projeto espacial nacional permanece embrionário e com desafios ainda intransponíveis, segundo analistas ouvidos pela Sputnik Brasil.
Entretanto, um alento a essa realidade ganhou força na última semana com o desejo do governo da Rússia de criar um Conselho Espacial do BRICS. A chancelaria russa lembrou que a iniciativa recebeu apoio dos líderes do BRICS durante a cúpula realizada no Rio de Janeiro, em 2025.
A ideia do colegiado é servir de base para projetos conjuntos de grande escala no setor, dentre eles, alguns ambiciosos como a construção de uma estação orbital e realização de voos tripulados.
Formado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o grupo político e econômico BRICS foi ampliado em 2024 com a entrada de Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã, além da adesão da Indonésia em janeiro de 2025.
Juntas, essas nações representam cerca de
36% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial e 45% da população global, segundo dados do bloco. Além disso, Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã figuram como
países parceiros do grupo.
A iniciativa é promissora ao facilitar não só o compartilhamento de imagens, capacitação e trocas de conhecimentos técnicos, mas também custos, apontam os entrevistados desta matéria. A consequência primordial, destacaram, é a menor dependência de potências ocidentais.
"O investimento no setor espacial fortalece a soberania tecnológica porque gera competência nacional em áreas estratégicas, lançamento de satélites, produção de satélites de comunicações, observação da terra e tecnologia crítica de sensores", disse à Sputnik Brasil a professora de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos, na Universidade Federal Fluminense (UFF) Raquel dos Santos.
Ela frisou que o
domínio tecnológico no espaço por uma nação tem impacto direto no dia a dia do cidadão.
"Cria capacidades aplicáveis no cotidiano como internet via satélite, monitoramento de desmatamento e previsão de desastres naturais."
Nesse sentido, o conselho pode propiciar ainda investimentos privados no setor e definir políticas públicas integradas de forma mais estratégica, fortalecendo a infraestrutura do Brasil, opinou o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no campus Joinville, Rafael Gigena Cuenca.
Ele também ressaltou para a
Sputnik Brasil a importância de
investimentos aeroespaciais para a soberania dos países e lamentou que o Brasil ainda não esteja nessa lista.
"Infelizmente não conseguimos conquistar essa soberania, e muito por subfinanciamento e falta de políticas públicas para o setor. Vale lembrar que na década de 1980 a China estava muito atrasada no setor e aprendeu com o Brasil como desenvolvê-lo. Hoje a China é um dos países que mais faz lançamentos e conquistou essa soberania no setor."
Para a professora, a ambição dos projetos está à altura da geopolítica espacial atual, que depende do investimento de grandes recursos e viabilidade política.
"Temos por um lado os EUA e seus aliados liderando o projeto Artemis de retorno dos voos tripulados à Lua e, em contrapartida, Rússia e China com o projeto de construção da Estação Lunar de Pesquisa", salienta.
17 de dezembro 2025, 20:00
E o Brasil?
Com projetos pelo BRICS, o Brasil teria a chance de participar mais ativamente do desenvolvimento tecnológico e operação de missões e operações
Há consenso entre os entrevistados que o
setor espacial nacional brasileiro tem muito a se beneficiar com uma plataforma como essa, com inserção científica em missões de grande escala, mais investimento financeiro.
"No caso a Rússia, é uma potência espacial desde a Guerra Fria, mas vemos nos últimos anos ascensão da China e Índia. Uma maior colaboração com qualquer dos três países pode trazer oportunidades de impulsionar o programa brasileiro", considerou Cuenca.
Essas oportunidades foram elencadas à Sputnik Brasil pelo professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade Federal do ABC (UFABC), Antonio Gil Brum que elencou não só o acesso a estruturas de pesquisa, como telescópios e centros astronômicos e astrofísicos, mas também a integração entre o "recurso humano", isto é, entre os cientistas, professores e alunos das instituições de ensino e privadas.
No entanto, a alta disparidade no grau de desenvolvimento científico e tecnológico entre os países pode prejudicar o processo decisório sobre recursos, tecnologia e coordenação. "Muitos países do BRICS têm capacidades espaciais relativamente limitadas o que pode gerar grandes dificuldades para mobilizá-los em prol de projetos que podem não trazer ganhos imediatos", pondera Santos.
Além disso, eles advertem que para tirar proveito dos projetos, o Brasil precisa fazer o dever de casa e estruturar práticas sólidas, com políticas governamentais para financiamento e incentivo de forma estratégica e contínua.
"O Programa Espacial Brasileiro carece de regularidade orçamentária, fortalecimento institucional da Agência Espacial Brasileira como órgão máximo de gestão e formulação de uma política pública para o setor espacial", comenta Santos.
Uma das medidas urgentes, apontaram, é criar uma integração entre governo, universidades e o setor privado.
"Se o Brasil organizar bem a estratégia para o Brasil no setor espacial, acho que pode aproveitar essa parceria e desenvolver a indústria espacial como um todo: governo, pesquisa e indústria", completou Cuenca.
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