Arqueólogos do Museu Nacional dos Cárpatos Orientais (MNCR, na sigla em romeno) anunciaram a descoberta de uma rara estatueta de barro neolítica com cerca de 7.500 anos, encontrada durante escavações preventivas nos arredores de Sfantu Gheorghe, no centro da Romênia. O achado lança nova luz sobre a vida espiritual e artística de algumas das primeiras comunidades agrícolas da Europa.
A peça foi localizada no sítio arqueológico de Arcus – Platoul Targului, onde seriam realizadas obras de infraestrutura para ampliar as ligações elétricas da Arena Sepsi. Durante as escavações obrigatórias antes da construção, o que parecia um dia comum de trabalho rapidamente se transformou em um momento de grande relevância científica.
No interior de um assentamento datado entre 5800 e 5500 a.C., os pesquisadores identificaram vestígios de habitações, fragmentos cerâmicos, argila queimada e carvão. Entre esses restos domésticos, dentro de uma estrutura com mais de sete milênios, surgiu a estatueta de argila representando uma figura feminina de braços estendidos.
O assentamento foi atribuído à cultura Starcevo-Cris, uma das primeiras tradições agrícolas do sudeste europeu, responsável por difundir práticas de cultivo e domesticação de animais pelos Bálcãs e pela Bacia dos Cárpatos. Essas comunidades estiveram entre as primeiras a estabelecer aldeias permanentes e desenvolver formas iniciais de organização social.
A estatueta mede apenas seis centímetros, mas seu significado ultrapassa o tamanho modesto. Modelada em argila misturada com palha e areia, foi queimada em alta temperatura, adquirindo coloração vermelho‑tijolo. Os olhos em forma de "V", o nariz ovalado e as linhas que sugerem cabelos presos em coque revelam detalhes raros, possivelmente uma das mais antigas representações de um penteado feminino ao norte do Danúbio.
Os braços erguidos remetem a gestos de oração ou invocação, comuns na simbologia neolítica. Duas pequenas protuberâncias no torso identificam a figura como feminina, mas, ao contrário das tradicionais "Vênus" pré-históricas, ela apresenta uma silhueta esbelta e discreta. Essa diferença estilística, somada à raridade de estatuetas na cultura Starcevo-Cris, sugere variações regionais ou funções simbólicas distintas.
O propósito exato do objeto permanece incerto, podendo ter servido como oferenda votiva, amuleto doméstico ou peça ritual. Para os arqueólogos envolvidos, como o dr. Dan-Lucian Buzea e o dr. Dan-Calin Stefan, descobertas assim criam uma ponte emocional e cultural com os primeiros agricultores da região. Mais de sete milênios após ser moldada, a pequena figura de Arcus continua a despertar questões sobre crença, ritual e a busca humana por significado, lembrando que até os menores artefatos podem carregar histórias profundas.