No domingo (15), o diretor do ICE, Tom Homan, declarou em uma tensa coletiva de imprensa o fim da fase intensiva da operação contra imigrantes indocumentados no estado, que teve a cidade de Minneapolis como epicentro.
Homan confirmou que cerca de 700 agentes federais começariam a se retirar do estado imediatamente, argumentando que se havia alcançado um nível de "cooperação" com as autoridades locais, tanto o governador de Minnesota quanto o prefeito de Minneapolis, que são democratas.
Segundo ele, o objetivo de pacificar a área havia sido alcançado, o que permitia um retorno a métodos de combate à imigração ilegal com menos confrontos.
O anúncio foi visto por parte da opinião pública como tentativa de controle de danos da administração republicana, especialmente após a morte de dois cidadãos americanos — Renée Good e Alex Pretti — durante operações de agentes federais do ICE em Minneapolis em apenas duas semanas.
Homan admitiu que algumas operações "não foram perfeitas", prometendo que seriam feitos ajustes táticos. O recuo teria enviado um sinal de vulnerabilidade política por parte da Casa Branca, de acordo com Samuel Losada, internacionalista formado pela Universidade de Belgrano:
"A guinada de 180 graus da Casa Branca com relação a Minnesota é particularmente relevante porque rompe o mito da invencibilidade de Donald Trump", disse ele à Sputnik.
Durante a campanha eleitoral, lembrou o analista, Trump prometeu "a maior deportação de indocumentados na história dos EUA", e o tema ressoou entre os eleitores, que lhe deram um mandato claro para cuidar disso. Mas o caso Minnesota demonstra que um tema vencedor pode se tornar tóxico se não for abordado de forma competente, sustenta o especialista.
Rejeição popular
O principal fator que provocou a retirada do ICE não foi a pressão política dos democratas — atualmente carentes de um líder nacional e com baixa popularidade —, e sim o descontentamento popular, especialmente da população local, que ameaçava tornar a cidade de Minneapolis novamente o centro de crise política, como já havia ocorrido em 2020 após a morte de George Floyd.
Diante da crescente presença do ICE nas ruas de Minnesota, a resposta dos residentes foi uma greve econômica e um absentismo escolar sem precedentes, com mobilizações que se replicaram em grande escala nas principais cidades do país.
Pesquisas nacionais mostravam a rejeição às táticas do ICE — que incluíam agentes encapuzados, veículos sem identificação e prisões em escolas e hospitais, várias delas de menores — inclusive em setores moderados. Além disso, o tema se tornou uma bandeira unificadora tanto para ativistas quanto para a oposição.
A Justiça federal interveio, com juízes proferindo sentenças e questionando a legalidade das operações. A falta de respaldo popular, somada à erosão do apoio nos tribunais, deixou Washington sem os pilares necessários para sustentar uma operação de tal magnitude, impondo limites à Casa Branca.
"Para um presidente que cultivou uma imagem de homem forte, alguém que não cede e resolve rapidamente os problemas de forma profissional, a concessão aos manifestantes de Minnesota e aos críticos do ICE só pode ser vista como uma derrota", destacou Losada.
Golpe eleitoral?
Adrián Palomino, especialista em política estadounidense formado pela Universidade de Lima, opinou em entrevista à Sputnik que o debate sobre o ICE e suas táticas enfraquece o Partido Republicano.
"Se dois cidadãos americanos são assassinados por agentes federais em plena luz do dia, independentemente de os funcionários quererem explicar depois que eram ativistas agressivos ou que foi um erro, isso tem um efeito negativo na opinião pública", disse o especialista.
No entanto, Palomino acrescentou que o tema não será necessariamente um ativo para os democratas nas eleições de meio de mandato em novembro, mas impede que os republicanos se beneficiem de forma contundente de conquistas migratórias recentes, como a queda histórica de travessias na fronteira sul.
"A má lembrança da gestão de [Joe] Biden na fronteira sul ainda persiste, e os tempos na política são muito dinâmicos, portanto o debate sobre o ICE pode ficar em segundo plano. Mas, por enquanto, os republicanos retiraram de sua oferta eleitoral um tema que nos últimos anos os beneficiou, que é o combate à migração ilegal", concluiu.