"Em um mundo de múltiplas crises e com a ofensiva norte-americana, nós compreendemos a necessidade de caminhar cada vez mais para superar a nossa dependência tecnológica."
A frase marca o cerne das relações Brasil-Índia, segundo a entrevista da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, concedida à Sputnik Brasil durante sua viagem junto à comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Nova Deli.
Em sua fala, Santos lembrou a parceria de décadas entre os dois países — as relações diplomáticas remontam a 1948, alguns meses após o país alcançar sua independência —, como o fato do primeiro satélite 100% brasileiro, Amazônia 1, ter sido lançado da Índia, do centro espacial Satish Dhawan em Sriharikota, na Índia
Outro exemplo prático é, no âmbito do BRICS, o estudo de viabilidade do Novo Banco de Desenvolvimento para ligar os países do grupo e outras nações do Sul Global com um cabo de fibra óptica próprio, reduzindo a dependência de redes controladas por potências do Norte.
"Esse é um dos exemplos importantes de cooperação objetiva, de infraestrutura, de pesquisa, muito fundamental, que é a gente ter nossos dados circulando com nossas próprias infraestruturas."
Minérios críticos e tecnologia
Santos também lembrou à reportagem que Brasil e Índia compartilham um papel em comum na revolução industrial que se desenha. Ambos possuem reservas de minérios críticos, como lítio e terras raras e, dentro dessa perspectiva, o Brasil tem o interesse de que os dois países possam junto desenvolver o domínio no processamento desses minérios.
"Nós não queremos só exportar os minérios críticos, nós queremos manufaturar no Brasil, e a experiência que a Índia tem e a própria China tem na área de terras raras, nos interessa muito nessa perspectiva garantir que o Brasil possa entrar nesse mercado tão promissor e tão estratégico."
É essa luta pelo desenvolvimento próprio, em vez de se tornar apenas uma economia extrativista, que une países como o Brasil, Índia e outros do Sul Global, disse Santos. "Nós, países do Sul Global [...] temos estágios muito parecidos de desenvolvimento e até de domínio tecnológico."
Luciana Santos elencou uma série de investimentos da Índia já existentes em transição energética, em transmissão de energia e fertilizantes, além de parcerias como a da Universidade do Paraná com a Universidade de Bangalore para computadores de alto desempenho, e outras através do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia. "Ele já é importante, mas a gente pode fazer muito mais quando tiver mais, intensificar essa cooperação."
"E agora ganha importância a questão dos semicondutores e da transformação digital", afirma Santos, lembrando que um dos motivos da viagem de Lula foi a sua participação na Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial, onde Lula defendeu uma regulação da IA que priorize o desenvolvimento, em vez de ganhos financeiros.
"Todo esse debate da transformação digital, de semicondutores, que é um insumo muito importante para tudo que é cadeia produtiva no mundo, a gente tem muito a ganhar com a cooperação intensa com os indianos."