Panorama internacional

'A Europa não tem condições de cooperar com os EUA e Israel contra o Irã', diz analista (VÍDEOS)

Apesar do ataque estadunidense-israelense contra o Irã ter acentuado a crise no Oriente Médio, alguns países europeus aprovaram a operação, como o Reino Unido, ao ceder bases militares aos norte-americanos, e a Alemanha, que apoiou a ofensiva por meio de seu chanceler Friedrich Merz. No entanto, a Europa não coopera de forma ativa como antes.
Sputnik
Experiências históricas recentes, como as guerras do Iraque (2003-2011) e do Afeganistão (2001-2021) e a intervenção militar na Líbia (2011), deixaram divisões profundas em nações europeias sobre aventuras militares fora de seu continente. Além disso, a União Europeia (UE) já destina recursos significativos à Ucrânia no conflito contra a Rússia.
Nesse contexto, a crise econômica e militar dos membros da UE a faz hesitar em se envolver em outro confronto armado de larga escala, como pontua Ricardo Cabral, editor do canal Geopolítica & História Militar e coautor do livro "Guerra na Ucrânia: análises e perspectivas".

"O momento não é muito favorável aos europeus. Eles estão em crise econômica, muito por conta dos preços da energia. Além disso, em termos militares, a Europa sabe que o seu armamento não está em condições de travar uma guerra de alta intensidade, pois há defasagem técnica, e ainda tem que manter a Ucrânia, um Estado corrupto que drena muitos dos seus recursos", disse.

O analista destaca que outra razão para os europeus manterem certa equidistância é o aumento da população islâmica nesses países, que também tem peso eleitoral e capacidade de influenciar resultados nas políticas domésticas.

"O contingente de muçulmanos que habita a Europa é muito grande, e eles são eleitores. Qualquer ataque dos europeus [ao Irã] fica suscetível a uma oposição interna. Além do segmento dos muçulmanos, qual cidadão europeu em sã consciência vai brigar pelos norte-americanos? Ainda mais em um cenário em que os EUA têm chances de não conseguir seus objetivos", comentou.

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Europa usa a retórica para não se comprometer

No atual cenário de hostilidades no Oriente Médio, os líderes europeus não demonstram um discurso uníssono, embora alguns se posicionem de forma retórica com discursos de concordância à iniciativa de Washington e Tel Aviv. Contudo, para Cabral, esse comportamento representa falta de coesão política europeia.

"O Reino Unido não está acompanhando os EUA, há muito tempo isso não acontecia. A Alemanha demonstra apoio, mas não tem poder para isso. A Espanha teve uma postura radical e contrariou a Casa Branca. Ou seja, a Europa está dividida, fragmentada, e por isso não pode agir de forma efetiva neste momento", analisou.

Outro entrave seria a advertência iraniana de que, se houver participação europeia nas ofensivas, haverá uma resposta dura. Com isso, os históricos aliados ocidentais dos Estados Unidos passam a ser observadores na região, apesar de também possuírem bases próximas ao epicentro da crise.

"As bases europeias correm risco se a Europa atacar o Irã, e é um risco que ela não quer correr, além de não querer perder dinheiro em mais um conflito. Além disso, os europeus nem tentam intermediar o conflito para não se indisporem com Donald Trump", enfatizou o especialista.

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Oportunismo europeu com desgaste dos EUA

O professor também faz uma projeção para a nova reconfiguração do Oriente Médio que poderá surgir após a resolução desse embate. Segundo ele, os Estados Unidos sairão desgastados, e isso pode afetar sua relação próxima com os países do Golfo. Dessa forma, a Europa pode aproveitar essa eventual brecha deixada pelo aliado para expandir suas relações comerciais.

"A Europa não tem condições de cooperar com EUA e Israel e está sendo oportunista. Vejo que observam Washington se desgastar militarmente e politicamente no Oriente Médio, provavelmente visando ocupar espaços nos países do entorno após essa guerra, porque haverá novas oportunidades de negócios que talvez fiquem limitadas aos norte-americanos", finalizou.

Nesse contexto, os países europeus enfrentam dificuldade de coesão política em nível continental devido aos interesses distintos dos governos das nações que compõem a UE, além de terem que conviver com seus problemas internos. Já as potências do bloco acabam aproveitando o jogo de cena para manter sua retórica alinhada com valores ocidentais, ao mesmo tempo que escamoteiam suas fragilidades militares.
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