Panorama internacional

Quem está no comando: EUA ou Israel?

Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil discutem até que ponto os interesses de Israel influenciam a política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio, o que poderia custar a Donald Trump continuar o conflito e a influência ideológica de grupos pró-Israel.
Sputnik
No dia 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos, em conjunto com Israel, lançaram um ataque contra o Irã. Um dos primeiros alvos foi a escola primária Shajareh Tayyiba, localizada na cidade iraniana de Minab. Um míssil Tomahawk atingiu o edifício, matando 168 crianças e 14 professores. A escola ficava ao lado de uma base do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC, na sigla em inglês).
Contudo, qual foi o real motivo para o ataque conjunto entre Washington e Tel Aviv? A justificativa permanece pouco clara. A Casa Branca afirmou que a operação visava encerrar o programa nuclear iraniano — que, segundo autoridades norte-americanas, já teria sido "obliterado" no ano passado — ou pressionar por uma mudança de regime em Teerã.
Ainda assim, outra interpretação ganhou força após um comentário do secretário de Estado Marco Rubio, sugerindo que a ofensiva ocorreu diante da possibilidade de Israel realizar um ataque preventivo contra a República Islâmica.
As ações dos Estados Unidos nesse conflito, repudiadas por setores da oposição, também vêm sendo questionadas dentro da própria base do presidente Donald Trump. Apenas cerca de um terço dos norte-americanos apoiam as operações.
Além disso, vozes influentes do campo republicano, como a deputada Marjorie Taylor Greene e o comentarista Tucker Carlson, acusam Trump de conduzir uma guerra que atenderia mais aos interesses de Israel do que aos dos Estados Unidos. Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: até que ponto Washington estaria agindo sob a influência de Tel Aviv?
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'Uma região desestabilizada'

Enquanto não há motivos claros para os EUA participarem do conflito, Israel, por outro lado, tem alto interesse. O país ampliou significativamente seu território após alguns dos principais conflitos, especialmente em 1948 e 1967, na Guerra Árabe-Israelense, logo após a proclamação do Estado de Israel, e na Guerra dos Seis Dias, que envolveu Síria, Egito, Jordânia e Iraque.
Atualmente, o país tem cerca de 22 mil km² (mais ou menos do tamanho do estado brasileiro de Sergipe) e recebe apoio militar, econômico e político dos EUA, além de ter relações importantes com países europeus e países árabes — estes pelos Acordos de Abraão. É a única potência nuclear no Oriente Médio e tem o Irã como seu único rival regional.

"Para Israel, uma região desestabilizada é muito mais favorável para seu avanço imperialista, não só na Palestina, mas também em partes do Líbano e na Síria", afirma Isabela Agostinelli, professora de relações internacionais da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap) e pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Conflitos Internacionais (Geci) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu).

Segundo a especialista, a posição dos Estados Unidos nessa dinâmica também passa por contradições na política externa do presidente Donald Trump. Durante campanha ele prometeu encerrar as chamadas "guerras intermináveis" no Oriente Médio, mas, na prática, sua atuação tem oscilado entre pressão militar e tentativas de negociação.
No início do ano, Trump chegou a sinalizar que uma intervenção no Irã poderia ocorrer, aproveitando o cenário de protestos internos no país. Ao mesmo tempo, Washington mantinha negociações indiretas com Teerã para um novo acordo nuclear mediadas por Omã, que chegaram a registrar avanços diplomáticos nas semanas anteriores à escalada militar.
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Para Agostinelli, essa ambiguidade torna difícil identificar uma lógica clara por trás das decisões da Casa Branca. "O que o Trump diz e o que ele faz muitas vezes estão em lados opostos, o que dificulta entender qual é a racionalidade estratégica de suas ações", afirma.
Uma das hipóteses levantadas por analistas é que a iminência de um novo acordo nuclear com o Irã não seria do interesse de Israel — assim como ocorreu em 2015, quando Tel Aviv se posicionou contra o acordo firmado entre Teerã e as potências internacionais durante o governo de Barack Obama.
Nesse cenário, a especialista avalia que existem interesses que às vezes convergem e às vezes entram em choque entre Washington e Tel Aviv. Enquanto Trump tende a buscar uma resolução rápida — que poderia envolver a queda do regime iraniano e a instalação de uma liderança mais alinhada aos Estados Unidos —, o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu teria como objetivo manter a pressão e o desequilíbrio regional como forma de conter adversários e ampliar sua margem de ação estratégica.
A pesquisadora também ressalta que a relação entre os dois países envolve fatores internos da política norte-americana, incluindo a influência do lobby pró-Israel em Washington. Ainda assim, ela destaca que, no limite, as decisões estratégicas continuam a ser tomadas pelo próprio governo dos Estados Unidos.

"A grande questão que permanece é entender quem de fato conduz essa relação especial entre Israel e Estados Unidos e quais interesses estão sendo priorizados em cada momento."

Rodolfo Queiroz Laterza, mestre em segurança pública, especialista em sistemas de segurança e defesa, pesquisador de geopolítica e conflitos, vê nesse cenário a expressão de uma convergência estratégica entre interesses políticos internos dos Estados Unidos e as prioridades de segurança do governo israelense. Segundo ele, a forte atuação de grupos de pressão pró-Israel no Congresso ajuda a moldar o ambiente político em Washington, criando condições para a manutenção de elevados níveis de apoio militar e diplomático a Israel, mesmo em contextos de crescente controvérsia internacional.

"Há uma rede consolidada de think tanks, organizações de lobby e atores políticos que atuam para manter o tema da segurança de Israel como prioridade estratégica nos Estados Unidos."

Nesse contexto, a cooperação militar e de inteligência entre os dois países se aprofunda e tende a orientar decisões que envolvem conflitos regionais e a contenção de adversários considerados estratégicos, como o Irã.
O analista avalia ainda que, em momentos de escalada de tensão no Oriente Médio, esse alinhamento pode levar a posições mais duras por parte de Washington, sobretudo quando há pressão política doméstica para demonstrar apoio a Israel. Ao mesmo tempo, ele destaca que o cálculo estratégico dos Estados Unidos também envolve fatores mais amplos, como a disputa por influência regional, a segurança energética e o equilíbrio de poder entre os principais atores do Oriente Médio, entre eles Israel, Irã e Arábia Saudita.
Na avaliação de Agostinelli, as monarquias árabes, embora tenham buscado se beneficiar dessa competição entre potências regionais, poderão repensar sua aliança com os EUA por conta do conflito. Após o início da guerra, o Irã retaliou atacando bases norte-americanas situadas em países árabes, como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar, gerando a sensação de insegurança nessas nações.
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Sobretudo, a disrupção no turismo e no funcionamento de aeroportos, especialmente no Catar e nos Emirados Árabes Unidos, impacta diretamente a economia desses países, citado como "altamente custoso".
Enquanto a Casa Branca acredita que o conflito possa durar de quatro a cinco semanas, Israel estima que possa durar mais de um ano. Laterza acredita que o governo israelense tem a melhor estimativa.
"O conflito pode diminuir de intensidade, mas possivelmente deve se manter", diz o analista, explicando que o Irã não aceitaria um cessar-fogo após o fracasso das negociações diversas que se propôs com os EUA e o Ocidente. Negociações que não apenas se romperam, como frisa, mas foram usadas para ganhar mais tempo para atacar o país. O especialista vê também que os ataques uniram setores críticos da população, mantendo uma coesão no país, ainda que no curto ou médio prazo.

Realidade estratégica

Caso se estenda, a guerra no Irã pode custar mais caro do que Trump inicialmente previu. Em um ano de eleições que podem definir o apoio do Congresso Nacional estadunidense à agenda hegemônica, o republicano pode não ter o mesmo sucesso que teve na invasão da Venezuela em janeiro ou a vitória rápida que os EUA tiveram na guerra do Iraque, hoje vista como uma derrota do então governo de George Bush, pelos resultados alcançados com anos de ocupação.
Enquanto as primeiras estimativas para o Iraque eram custos de U$ 50–200 bilhões, o custo total foi de US$ 2 trilhões (cerca de R$ 10,5 trilhões), segundo uma estimativa da Universidade de Brown, em Rhode Island.
Como explica Laterza, o Irã conta com uma profundidade estratégica maior do que o Iraque, recebendo ainda apoio de inteligência e logística de outras potências. Além disso, melhor capacidade de combate contra outros países e um complexo industrial autossuficiente com foco no desenvolvimento e na produção de sistemas de armas voltados para métodos de condução de guerra assimétrica.
Ou seja, drones de variadas modalidades, lanchas portadoras de explosivos e mísseis balísticos, cujo custo é inferior aos sistemas de armas convencionais usuais. Caso haja uma operação terrestre norte-americana, teria de levar em conta enormes riscos e custos logísticos, segundo o analista. "Exigiria uma operação de desembarque altamente perigosa diante dos possíveis ataques de mísseis antinavio e drones iranianos."
Laterza conclui que essas operações focariam em portos e ilhas relacionados à produção petrolífera iraniana, a fim de assegurar o estreito de Ormuz. Isso porque a geografia do Irã combina cadeias montanhosas gigantes, desertos vastos e poucos corredores naturais de avanço militar.
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Visão ideológica e apoio brasileiro

Agostinelli pontua que a ala isolacionista do movimento Make America Great Again (MAGA) quer a diminuição da presença militar excessiva dos EUA no Oriente Médio. "Quando Trump se engaja diretamente numa guerra sem sentido e objetivo claro, parte de sua base de apoio se ressente com essa decisão", conclui, vendo que a guerra em si pode custar nas eleições no final do ano.
Embora haja uma ala ideológica que defenda o conflito — com o embaixador dos EUA para Israel, Mike Huckabee, promovendo a ideia de "Grande Israel" —, a professora avalia ser apenas uma narrativa para legitimar, no campo moral, ações imperialistas de Israel e dos Estados Unidos.

"Os interesses continuam sendo materiais, territoriais e expansionistas. Trata-se apenas de um véu ideológico que tenta encobrir essas violências perpetradas por Israel e EUA."

Embora o apoio a Israel tenha diminuído entre norte-americanos desde a guerra em Gaza, o mesmo não parece ocorrer no Brasil, onde manifestações de apoio ganharam inclusive força entre figuras políticas da direita brasileira.
"Há uma grande influência midiática a respeito das visões estereotipadas do Oriente Médio aqui no Brasil. Há uma tendência, por exemplo, de enquadrar o Irã como a 'República dos Aiatolás', o que acaba retirando qualquer resquício de racionalidade, tratando aquele país e seus líderes como fanáticos religiosos e loucos sedentos por guerra", afirma Agostinelli.
O mesmo fenômeno ocorreria, segundo a sua avaliação, na forma como organizações palestinas são retratadas no debate público. "O mesmo acontece com os enquadramentos discursivos a respeito do Hamas. Temos, sim, uma influência ideológica pró-Israel no Brasil que é fomentada também pelo fenômeno do sionismo cristão, muito vinculado à direita e à extrema-direita, que veem Israel como o bastião da civilização no Oriente Médio."
De acordo com a leitura feita, essa visão se reflete inclusive na escolha de especialistas e comentaristas convidados pela grande mídia, o que acaba privilegiando determinadas narrativas sobre o conflito.

"Há, ainda, o fator das relações comerciais baseadas na chamada diplomacia de armas de Israel, não só no Brasil, mas na América Latina em geral."

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