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Lava Jato 2.0?: cobertura da grande mídia do caso Master criminaliza a política, avalia especialista

À Sputnik Brasil, cientista político alerta que a mídia tradicional está repetindo a estratégia adotada no escândalo de 2016, colocando "todos os políticos no mesmo saco", sem levar em conta nuances e graus de acusação, o que coloca em risco a democracia brasileira.
Sputnik
A eclosão do caso Master abalou a política brasileira. Noticiado à exaustão pela mídia tradicional, com análises que colocam em dúvida a confiança no Supremo Tribunal Federal (STF), o caso ameaça bagunçar o xadrez político nacional em um momento em que o Brasil lida com tentativas de interferências externas, sobretudo por parte dos EUA, e com um cenário já volátil pelas eleições gerais marcadas para outubro.
Em entrevista à Sputnik Brasil, o pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa e professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) Fábio Kerche, um dos autores do livro "A política no banco dos réus: a Operação Lava Jato e a erosão da democracia", aponta que há tentativa de uma parcela da mídia de fazer do caso uma "Lava Jato 2.0", repetindo em suas coberturas os mesmos padrões equivocados e danosos à democracia adotados no escândalo deflagrado em 2016.
Kerche explica que o tribunal, que teve as atribuições ampliadas na Constituição de 1988, ganhou protagonismo nos últimos anos no combate aos escândalos de corrupção, como o Mensalão e a Lava Jato, durante a pandemia, quando funcionou como "espécie de freio aos arroubos autoritários do bolsonarismo", além de ter sido fundamental para sustentar a democracia na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Porém, ele aponta que "o protagonismo tem o seu preço".

"Como está muito em evidência, quando vem qualquer tipo de denúncia ou questionamento em relação ao STF, isso ganha uma importância muito grande, talvez maior do que seria no passado. O STF era, vamos dizer assim, mais discreto. Então tem um impacto político", afirma.

O preocupante no atual questionamento do STF, segundo o cientista político, é a maneira excessiva como ocorre, de forma precipitada, criminalizando e tentando deslegitimar o tribunal.
"A crítica deve ser feita. Ninguém está acima da crítica. Todo mundo deve prestar contas, mas eu me preocupo um pouco, às vezes, vamos dizer assim, com a falta de calibragem dessa crítica, porque ela pode se exceder e ser mais do que uma crítica a um ministro, ao comportamento de alguns ministros, e acabar atingindo a instituição como um todo, instituição essa que é fundamental para a democracia brasileira."
No entanto, a estratégia da mídia tradicional, "claramente a mesma estratégia da Lava Jato", dilui as acusações e "coloca todos os políticos no mesmo saco", criminalizando a política como um todo, transformando imediatamente qualquer nome levantado nas investigações como culpado, sem levar em conta nuances e graus de acusação, avalia.
Kerche acrescenta que o caso Master "não é um escândalo que atinge a todo mundo", e que, embora ainda possam surgir fatos novos, o que se tem é uma relação muito forte do dono do banco, Daniel Vorcaro, com partidos ou, pelo menos, com personagens, com atores políticos, ligados a partidos do centrão e da direita.

"O grupo do Vorcaro financiou de maneira expressiva, por exemplo, a campanha do [Jair] Bolsonaro e do Tarcísio de Freitas. E não se tem notícia, pelo menos até agora, de um financiamento de campanha para a esquerda. Isso revela alguma coisa. A gente tem que colocar em nuances", afirma.

Essa cobertura seletiva e sem nuances ocorre porque "a imprensa não é neutra" e possui uma visão mais alinhada à direita liberal, o que Kerche aponta não ser um problema, pois ocorre em veículos de todo o mundo. A questão, segundo ele, é que, no Brasil, a mídia se "vende como plural", o que não corresponde à realidade.
"E não é. Ela tem uma leitura, tem visões, tem um parti pris, tem concepções de mundo que, vamos dizer assim, contaminam a cobertura. E esse é mais um caso, um exemplo. Na Lava Jato a gente assistiu isso, mas agora parte da imprensa repete uma cobertura muito semelhante, uma estratégia de cobertura muito semelhante do que se fez com a Lava Jato", observa.
O especialista aponta que, apesar da cobertura massiva, o caso Master não atingiu a opinião pública da mesma forma que a Lava Jato nem teve o mesmo impacto.

"Nem todo escândalo de corrupção atinge a opinião pública da mesma forma. Então, o caso Master, pelo menos o que as pesquisas estão indicando até agora, ainda está [sendo] um caso muito mais restrito aos atores políticos e à chamada grande imprensa do que propriamente um assunto que está na boca do povo."

Na avaliação de Kerche, a democracia no Brasil não está tão consolidada quanto se imaginava, como ficou exposto na tentativa de golpe em 2022, orquestrada nos mesmos moldes do que se fazia na América Latina nos anos 1960 e 1970. Por isso, segundo ele, é preciso se manter atento a crises envolvendo corrupções, como a do Master.
O professor afirma ainda que o escândalo, na verdade, deveria ser celebrado por demonstrar que as instituições, como o Banco Central e a Polícia Federal, estão funcionando.
"Isso deveria ser celebrado. É sinal de que as nossas instituições, a nossa democracia está funcionando. Mas o que transforma? É um paradoxo. Quanto mais você combate a corrupção, mais parece que a corrupção é um grave problema e mais recai sobre o governo. Esse governo deveria ser aplaudido, não criticado, ele combateu a corrupção. Então, nesse ponto, essa estratégia de criminalizar a política como um todo é muito ruim."
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