Brasil não pode ficar à mercê de visões pessoais sobre energia nuclear, diz deputado à Sputnik
No Nuclear Summit, promovido pela ABDAN, deputado Julio Lopes afirma que candidatos às eleições de 2026 devem se posicionar sobre o tema; autoridades do setor destacam que o Brasil tem condições de ser um ator global extremamente importante.
SputnikA crise global no preço do petróleo causada pela
tensão no Oriente Médio prova que a demanda por energia será o centro da geopolítica global nos próximos anos,
tornando essencial o amadurecimento da energia nuclear.
É o que apontaram deputados e autoridades do setor no evento Nuclear Summit, promovido pela Associação Brasileira para Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), no Rio de Janeiro (RJ), a partir desta segunda-feira (23). O evento aborda temas centrais da agenda nuclear, como regulação, logística, inovação tecnológica, segurança e novas aplicações da energia nuclear.
Presente no evento, o deputado federal Julio Lopes (PP-RJ) cobrou de candidatos à Presidência da República e ao Senado nas eleições deste ano posicionamentos em torno da energia nuclear. Em discurso no evento, ele demonstrou temor em relação ao fato de Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia do governo Jair Bolsonaro (2019–2023), estar sendo cotado como ministro da Economia do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Adolfo Sachsida ocupou o ministério entre maio de 2022 e janeiro de 2023, sucedendo Bento Albuquerque, que liderou a pasta entre janeiro de 2019 e maio de 2022. Segundo Lopes, Sachsida foi o responsável por desestruturar o que Bento deixou organizado no setor nuclear. Ele afirma que Sachsida tem uma "visão pessoal" que não é favorável à energia nuclear.
"Isso é muito preocupante a nós, porque o cidadão poderá impregnar a sua vontade pessoal ou a sua visão pessoal, porque, como a gente não tem uma visão estratégica do governo em relação a isso, a gente fica à mercê dessas visões pessoais. E foi por isso que ele, em tão pouco tempo, tendo ficado no ministério apenas seis meses, fez um estrago tão grande."
Em entrevista à Sputnik Brasil no evento, Lopes afirmou que o posicionamento dos candidatos é importante principalmente após o recente Leilão de Reserva de Capacidade de 2026, realizado pela Petrobras, que demonstrou a opção, novamente, por usinas termelétricas movidas a diesel, óleo combustível e biodiesel, uma energia que ele classificou como sendo mais cara e com mais custo de espaço que a nuclear — "fazendo um investimento alternativo, sem terminar a [usina nuclear] Angra 3".
"Então eu estou aqui me posicionando porque nós precisamos muito de uma fala junto aos candidatos à Presidência da República e aos demais [cargos], para posicionarmos a importância estratégica da energia nuclear a um preço correto, para termos energia de grande qualidade e potencialidade no Brasil."
O deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) afirmou em discurso no evento que os desdobramentos sérios no Oriente Médio destacam a
necessidade de avanço no setor e
celebrou que o tema tenha sido abordado na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30).
"Pela primeira vez, depois de vários outros eventos semelhantes em que o mundo se encontrava, nós vimos uma presença da energia nuclear muito acentuada na COP30; se expressou em painéis que ocorreram lá. E todo o processo de demonização — que ainda há um fantasma a ser enfrentado —, acho que é superado de uma forma crescente do ponto de vista de uma visão internacional."
O presidente da ABDAN, Celso Cunha, afirmou à reportagem que o Brasil reúne as condições básicas para o desenvolvimento nuclear.
"Nós temos o minério. Só estudamos um terço do território nacional, é a sexta maior reserva do mundo. Nós dominamos todo o ciclo do combustível e precisamos botar tudo em escala industrial em grandes volumes."
Ele acrescentou que,
quando um país produz o combustível, garante lugar na geopolítica do fornecimento, passando a ser
"um ator extremamente importante dentro desse cenário".
"O Brasil, nesse cenário, principalmente da produção do combustível e do suprimento do urânio, ele joga um papel fundamental. Em relação à nossa matriz, é fundamental que a gente continue avançando."
O almirante de esquadra Petronio Aguiar, secretário Naval de Segurança Nuclear e Qualidade (SecNSNQ), disse não restar dúvida que a energia nuclear é uma fonte de energia bastante segura, resiliente, com grande densidade de energia e que certamente vai contribuir com a matriz energética brasileira.
Ele destacou à reportagem que a matriz energética do Brasil é bastante limpa, já, mas poderia ser ainda mais robusta com um uso maior da energia nuclear.
"Isso é muito bom. Só que, para a gente ter um sistema mais robusto e ter mais segurança energética, um fato muito importante no mundo de hoje, seria muito bom contar com a energia nuclear nessa matriz, com a sua resiliência e a sua produtividade, que é essencial para o desenvolvimento brasileiro."
O Nuclear Summit tem duração de dois dias e ocorre na Casa Firjan. A edição atual é a terceira do evento, que visa ser um marco na agenda da indústria nuclear brasileira.
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