No mês de março, a Agência Nacional de Aviação (Anac) abriu uma consulta pública para discutir a criação de uma licença específica para pilotos de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical — os chamados "carros voadores" ou eVTOL (Electric Vertical Takeoff and Landing, em inglês). Essas aeronaves serão usadas em viagens rápidas dentro de uma cidade ou entre cidades vizinhas, sendo outro meio de transporte em grandes cidades.
A princípio, a proposta é fazer uma emenda ao Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC) nº 61, o que estabeleceria os requisitos para licenças, habilitações e certificados de profissionais da aviação civil. A Anac pensa em um modelo de transição para pilotos já licenciados para operar aviões ou helicópteros, a fim de acumular experiência operacional e evidências regulatórias.
A Sputnik Brasil fez uma lista dos três eVTOLs brasileiros existentes, além de contar sobre suas capacidades, altura, peso e a velocidade máxima de cada aeronave.
Eve Air Mobility
A Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer dedicada ao desenvolvimento de soluções de mobilidade aérea urbana, realizou com sucesso o primeiro voo de seu protótipo de eVTOL em 2025, em uma unidade da empresa localizada em Gavião Peixoto, no interior paulista. O projeto da Eve é atualmente o mais avançado do Brasil no segmento de "carros voadores" e um dos mais promissores no cenário global, combinando a experiência industrial da Embraer com novas tecnologias de propulsão elétrica e controle digital de voo.
Em 2026, outro teste aconteceu com o modelo da Eve em Gavião Peixoto após a apresentação do primeiro caça Gripen fabricado pela Embraer. O voo durou cerca de três minutos, acompanhado pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. A expectativa é de que o carro voador decole em 2027, sendo fabricado em Taubaté, São Paulo.
A Eve Air Mobility pode apresentar seu "carro voador" após a apresentação do caça Gripen em Gavião Peixoto, em São Paulo
© Ricardo Stuckert / Palácio do Planalto
O eVTOL da Eve foi concebido com uma configuração do tipo "lift + cruise", que usa múltiplos rotores elétricos para decolagem e pouso vertical, além de asas fixas e hélices dedicadas ao voo de cruzeiro, aumentando a eficiência energética durante o deslocamento.
A aeronave foi projetada para transportar até cinco ocupantes — quatro passageiros e um piloto — com autonomia aproximada de 100 quilômetros e velocidade estimada entre 200 e 300 quilômetros/hora — solução ideal para conexões entre aeroportos e centros financeiros. Outro ponto relevante é o foco na redução de ruído, com níveis significativamente inferiores aos de helicópteros convencionais.
Embora dados completos, como peso máximo de decolagem e altitude operacional, ainda não tenham sido oficialmente detalhados, aeronaves dessa categoria costumam operar em altitudes urbanas de alguns milhares de metros, com foco em rotas curtas e alta frequência de voos.
Skyros
Um dos modelos produzidos no instituto sul-mato-grossense Dakila Pesquisas, em conjunto com a empresa de tecnologia aeronáutica paulista, Vertical Connect, o Skyros é um eVTOL agrícola projetado para a pulverização de precisão em lavouras de médio e grande porte. A aeronave, autônoma e com propulsão elétrica, está em fase de testes há cerca de sete meses.
O Skyros tem capacidade de carga de 400 litros, autonomia de aproximadamente 60 minutos de voo e velocidade máxima de 130 quilômetros/hora. Ademais, possui oito motores elétricos, oitos hélices e um sistema conhecido como DEP (Distributed Electric Propulsion, em inglês), que distribui a propulsão pela aeronave, aumentando dessa forma sua estabilidade durante o voo.
Modelo Skyros, eVTOL da Vertical Connect com foco em agricultura
© Divulgação
O eVTOL mede cerca de 5 metros de comprimento, 4,8 metros de largura e 1,4 metro de altura, com peso variando entre o peso vazio (300 quilos) e o peso de decolagem (700 quilos). Ainda deve ser apresentado ao público na Expogrande, uma feira agropecuária anual de Campo Grande (MS).
Como é um eVTOL não tripulado, o Skyros enfrenta menos barreiras regulatórias e, por isso, tem expectativa de entrar no mercado antes de outros eVTOLs da Vertical Connect.
Elysios
Outro projeto brasileiro em desenvolvimento da Vertical Connect é o Elysios, voltado para soluções de mobilidade aérea leve, com foco tanto no transporte de passageiros quanto de pequenas cargas.
Diferentemente de propostas mais robustas como a da Eve Air Mobility, o Elysios se posiciona como uma aeronave mais compacta e versátil, projetada inicialmente para transportar quatro passageiros, além de bagagem pessoal, o que o torna adequado para deslocamentos rápidos em curtas distâncias ou aplicações específicas, como conexões regionais e serviços sob demanda. Sua versão menor, o Aeros, possui espaço para dois lugares.
Modelo Elysios, eVTOL da Vertical Connect para transportes urbanos com capacidade de quatro passageiros
© Divulgação
Um dos aspectos mais interessantes do desenvolvimento do Elysios é que, apesar de sua concepção original tripulada, os testes atuais têm priorizado versões não tripuladas da aeronave. Essa estratégia acompanha uma tendência global no setor de eVTOLs, que busca avançar gradualmente rumo à autonomia total, reduzindo custos operacionais e aumentando a escalabilidade dos serviços.
Nesse contexto, o Elysios pode atuar não apenas como "carro voador" para passageiros, mas também como uma plataforma logística aérea, voltada para entregas rápidas em centros urbanos ou regiões de difícil acesso.
Assim como outros eVTOLs, o Elysios foi projetado para realizar decolagens e pousos verticais, eliminando a necessidade de pistas convencionais e permitindo operações em espaços reduzidos, como helipontos. Essa característica é central para a proposta de mobilidade aérea urbana, pois amplia significativamente as possibilidades de integração com a infraestrutura das cidades.
Embora informações detalhadas sobre desempenho — como velocidade máxima, autonomia e altitude operacional — ainda sejam limitadas, o Elysios se enquadra na categoria de eVTOLs leves, que geralmente operam em baixas altitudes, com alcance reduzido e foco em eficiência energética.