A avaliação é do presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, que destacou uma posição relativamente mais favorável do país em comparação com outras economias. O dirigente participou nesta segunda-feira (30) do evento J. Safra Macro Day 2026, em São Paulo.
"É lógico que todo mundo preferia estar em uma situação sem todos esses potenciais riscos e choques que o mundo vem sofrendo nos últimos anos. Mas, quando eu comparo relativamente aos seus pares, o Brasil parece estar numa posição relativamente mais favorável."
Segundo Galípolo, essa vantagem está ligada a dois fatores principais: o fato de o país exportar mais petróleo do que importa e a política monetária mais restritiva adotada nos últimos ciclos, com a taxa Selic em patamar elevado.
"Comparativamente a outros bancos centrais, que estão mais próximos de uma taxa de juros neutra, acho que isso também nos coloca em uma posição mais favorável quando comparado com seus pares", afirmou.
Em sua fala, o presidente do BC também defendeu a atuação do Banco Central na manutenção da taxa de juros no Brasil. A Selic, taxa básica do país, ficou estacionada em 15% desde junho de 2025, o maior patamar desde 2006, e so foi alterada em março deste ano, quando caiu 0,25 pontos percentuais.
Esse cenário permitiu ao Banco Central acumular margem de manobra, acrescenta o presidente da entidade. Na prática, os juros altos funcionaram como espécie de proteção, abrindo espaço para ajustes graduais, mesmo diante do novo choque externo.
"Essa gordura que foi acumulada com uma posição mais conservadora ao longo das últimas reuniões do Copom [Comitê de Política Monetária] nos permitiu, mesmo diante de novos fatos, não alterar a conjuntura como um todo. Então a gente decidiu seguir com a nossa trajetória e iniciar o ciclo de calibragem da política monetária", disse Galípolo.
A estratégia, conforme Galípolo, é evitar reações abruptas, e o Banco Central deve continuar a avançar de forma gradual, acompanhando os desdobramentos do cenário internacional antes de definir os próximos passos.
"A gente é mais transatlântico do que jet ski, a gente não vai fazer movimentos bruscos nem extremados Por isso, a gordura permitiu ganhar tempo para ver, entender e aprender mais", afirmou.
Apesar da resiliência relativa, o diagnóstico do Banco Central para os próximos meses é de piora no quadro econômico. Diferentemente de outros ciclos, a atual alta do petróleo não está associada ao aumento da demanda global, mas a um choque de oferta, o que tende a gerar efeitos mais negativos.
Nesse cenário, a combinação esperada é de inflação mais alta e crescimento mais fraco. "Essa me parece ser uma elevação do preço do petróleo de natureza bastante distinta do passado. Ela não decorre de um ciclo de demanda, não decorre de uma elevação na demanda e, sim, de um choque de oferta", finalizou Galípolo.