Panorama internacional

Mais de 100 dias sem Maduro: comunidade internacional pouco fala e nada faz?

Ao acessar o site oficial do governo da Venezuela, uma aba principal, que preenche quase toda a tela do computador, faz a contagem progressiva dos dias que o então presidente Nicolás Maduro foi sequestrado pelos Estados Unidos e encarcerado em Nova York. Já são 101 dias desde o acontecido.
Sputnik
Pela contagem do governo bolivariano, no domingo (12), completaram-se 100 dias desde que Maduro foi sequestrado, em 3 de janeiro. O número simbólico foi mencionado nas redes sociais do deputado e filho de Maduro, Nicolás Maduro Guerra, que diariamente faz a contagem dos dias em que o pai foi sequestrado. Já nos perfis da presidente em exercício, Delcy Rodríguez, nenhuma menção foi encontrada nas publicações principais.
O cenário pode representar uma Venezuela que ainda busca entender o que aconteceu naquele fatídico 3 de janeiro, que deixou marcas históricas, conforme ressalta Carolina Pedroso, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.

"A vida continua, mas sob a sombra de um evento que foi muito traumático para a vida nacional, de forma geral."

Ao passo que a ação norte-americana foi descrita como uma operação cirúrgica pela mídia hegemônica, para o povo venezuelano, além do impacto do sequestro do chefe de Estado, implicou a morte de dezenas de pessoas. "A gente está falando em torno de 400 residências que foram atingidas pelos bombardeios e pessoas que até hoje estão aí com estresse pós-traumático de terem vivido aquela madrugada de forma muito intensa e muito direta".
Mais de 100 dias depois, a vida política do país é "adversa", descreve Pedroso, com a reaproximação de Washington, que reabriu a embaixada em Caracas e a aprovação de uma nova Lei de Hidrocarbonetos, focada em atrair investimentos estrangeiros.
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Em seu termos, a lei reduz impostos no setor e amplia autonomia de ação dos produtores privados, permitindo a transferência de ativos, a terceirização de serviços e a contestação de contratos em tribunais internacionais. Na prática, o espaço se abre para a atuação de petroleiras norte-americanas na Venezuela.

"O Estado venezuelano vai fazer o que, para muitos chavistas, promoveu um enorme retrocesso em relação ao que foi a Lei de Hidrocarbonetos de 2001", comenta. Nesse sentido, nos pouco mais de três meses, "tem sido difícil de ver decisões que estejam sendo tomadas realmente em prol da soberania nacional venezuelana."

Para Victor de Oliveira, professor de geopolítica do programa de pós-graduação Geopolítica do Mundo Contemporâneo, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), o governo de Rodríguez pode ser considerado bolivariano "em termos históricos, mas não em atuação".

"A Delcy parece estar numa lua de mel com o governo Trump e, no momento atual, a Venezuela consegue, mas ela é forçada, e aí a gente pode entrar na discussão até onde vai essa forçada a fornecer petróleo aos Estados Unidos. E, de certa forma, isso era o que o Trump queria, na realidade", avalia.

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O mundo em estado de normalização da barbárie

Os analistas ouvidos pela reportagem destacam o momento de fragilidade do direito internacional, quando os Estados Unidos passam por cima das decisões legais para estabelecer suas vontades.
"A gente precisa até mesmo repensar o que é o direito internacional, a que e quem ele serve", resume Oliveira em relação ao cenário.
Dessa forma, além da invasão que rompeu os trâmites legais para sequestrar Maduro e sua esposa, que também é parlamentar ― Cilia Flores ―, Washington impede que o líder venezuelano acesse recursos financeiros por conta das sanções contra Caracas para a própria defesa dele, enquanto exibe imagens públicas do presidente, visivelmente abatido.
Segundo Pedroso, há um "total imobilismo" da comunidade internacional frente aos acontecimentos, ao passo que Washington lança mão de seu modus operandi para a América Latina, "o elemento da humilhação".

"Exibir as imagens do Maduro naquele momento da captura, exibi-lo mancando e, agora, a forma como ele se apresenta na audiência, abatido, emagrecido, enfim, tudo isso faz parte dessa estratégia de humilhação e de ser um recado para as outras lideranças que tentarem qualquer caminho de insubmissão a essa hegemonia no sentido de: 'Olha o que pode esperar vocês aqui para frente'."

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Além disso, os EUA recuaram das declarações de envolvimento com o narcotráfico, atribuída incessantemente a Maduro durante as incursões norte-americanas no mar do Caribe após a prisão. Entretanto, o presidente venezuelano permanece preso, e a repercussão do contexto é timidamente veiculada pela mídia hegemônica.
Pedroso entende que está estabelecido, portanto, a "normalização do absurdo", que acontece em vários aspectos na cobertura da política internacional.
Um exemplo desse argumento, de acordo com Oliveira, é normalizar que o presidente da maior economia do mundo diga diretamente, sem deixar nada implícito ou nas entrelinhas, que vai dizimar uma população milenar, a do Irã.

Nesse aspecto, "a gente vai se acostumando com os absurdos e parece que a gente só se impressiona com um absurdo maior do que o anterior", diz a professora. Dessa forma, a Venezuela desaparece das manchetes, o que é preocupante, segundo Pedroso, uma vez que o que aconteceu lá "pode vir a acontecer em outros países, inclusive aqui".

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