Fracasso da guerra contra o Irã fragilizou parcerias dos EUA no Oriente Médio, avaliam analistas
A resiliência estratégica do governo iraniano frente aos ataques perpetrados pelos EUA e Israel tem "impactado de maneira significativa os principais formuladores de pensamento nos estudos estratégicos e de segurança, não apenas no Oriente Médio, mas em escala global".
SputnikA avaliação é do doutor em estudos estratégicos internacionais e pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre Relações Internacionais do Mundo Árabe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Nuprima/UFRGS) Issam Menem.
Em entrevista à Sputnik Brasil, ele comenta que o Irã, além de absorver e resistir a ataques, projetou poder e exerceu dissuasão sobre estruturas militares dos EUA e de Israel, distribuídas por toda a região.
Em meio à guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, nas últimas semanas, países como Catar, Bahrein, Emirados Árabes, Jordânia e Arábia Saudita sofreram uma série de ataques, devido à presença de bases norte-americanas em seus territórios.
"Ataques conduzidos por meio de drones e mísseis de cruzeiro atingiram diretamente diversas instalações militares, produzindo impactos concretos na rotina das monarquias do Golfo, que há décadas não experimentavam cenários de conflito direto."
Esse fenômeno produziu
impactos diretos não apenas na percepção de ameaça, mas também na intensificação do chamado "dilema do hospedeiro", pois os ataques do Irã a bases militares estadunidenses instaladas em países árabes mostraram as suscetibilidades e os aspectos negativos dessa escolha estratégica:
A noção de que a presença física de forças norte-americanas configuraria, de maneira automática, uma zona de negação eficaz contra adversários externos se revelou "profundamente fragilizada", comenta.
"Os eventos recentes indicam que a presença militar norte-americana, longe de funcionar exclusivamente como fator de dissuasão, pode também atuar como vetor de atração do conflito para o território de países árabes, produzindo assim um efeito inverso ao pretendido em termos de segurança regional."
Os efeitos desse abalo não se restringiram à dimensão militar, frisa Menem, com impactos sobre a economia desses países, centralizadas na exploração e exportação de hidrocarbonetos, especialmente petróleo e gás.
Os Estados do golfo Arábico já registraram prejuízos bilionários apenas no que se refere a danos à infraestrutura produtiva, incluindo portos e terminais de exportação. Somados a isso, ainda está a perda de receita decorrente da paralisação parcial ou total das atividades comerciais.
A instabilidade no estreito de Ormuz também comprometeu a confiabilidade desses países como fornecedores estáveis de energia no mercado internacional. "Importadores tendem, portanto, a reavaliar suas cadeias de suprimento, buscando alternativas em mercados considerados mais previsíveis do ponto de vista político e securitário".
Nesse cenário, o conflito suscitou debates internos nos países do Golfo sobre a natureza dos limites da parceria estratégica com os Estados Unidos.
"Tais questionamentos giram em torno de duas dimensões centrais: por um lado, até que ponto essa aliança contribui para a intensificação de rivalidades regionais, com o Irã e o Eixo da Resistência? Por outro, em que medida a presença militar estrangeira de fato assegura um ambiente livre de ameaças?"
Segundo ele, as movimentações políticas na região reativaram propostas alternativas para uma
arquitetura de segurança regional menos dependente de Washington, cuja presença frequentemente é acompanhada de
custos políticos significativos, "especialmente no que diz respeito ao alinhamento geopolítico e à intensificação de tensões regionais".
Entre as alternativas que estão sendo ventiladas pelas nações da região, ele destacou a possibilidade de consolidação de um braço militar mais robusto do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), bem como arranjos de defesa coletiva envolvendo países de maioria muçulmana, como Turquia, Paquistão e Arábia Saudita.
Na opinião do pesquisador, no longo prazo, as implicações
podem ser ainda mais severas, e demandarão investimentos bilionários na construção de
rotas logísticas alternativas ao estreito de Ormuz.
"Esses países poderão enfrentar uma erosão prolongada de sua principal fonte de receitas. Tal dinâmica tende a repercutir negativamente tanto na estabilidade política quanto no bem-estar socioeconômico das populações locais, cuja renda, em grande medida, está vinculada aos royalties provenientes da exploração de hidrocarbonetos", completou ele.
Também em entrevista à Sputnik Brasil, o professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Rodrigo Amaral observou que os ataques iranianos às bases abalou a promessa de proteção aos países com presença militar estadunidense.
"Uma das estratégias mais notórias do Irã era justamente mostrar como essa presença dos EUA não é tão firme assim", explicita. "Quando assistimos à saída de diversos militares norte-americanos de vários desses países, quando o Irã começa a atacar as bases militares, às vezes até de casas consulares, isso mostra essa fragilidade."
Também pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT/INEU), Amaral pondera que esses países, no entanto, estão plenamente integrados à lógica capitalista e possuem grandes investidores da elite financista ocidental.
"Esse é um outro nível de análise que não os faria repensar essa aliança, mas talvez a forma como essa aliança foi constituída."
Para o professor de Relações Internacionais na UFABC (Universidade Federal do ABC) Bruno Mendelski, os EUA entraram na guerra, sobretudo, pelo lobby de Israel nos Estados Unidos com desdobramentos prejudiciais para o governo de Donald Trump.
Ele também destacou que os ataques do Irã mostraram que esses países não são o oásis de estabilidade que buscaram mostrar nas últimas décadas e que os Estados Unidos mostrou que não são capazes de repelir ataques e defender os aliados:
"Esses ataques ilegais dos Estados Unidos e de Israel acabaram tendo efeito contrário, fortaleceram o regime. Veja, desde 1979 o Irã está dizendo que os Estados Unidos e Israel são o mal, que nos prejudicam etc. E o que os Estados Unidos e Israel fazem? Atacam, matam centenas de civis, assassinam as principais lideranças, isso dá força para o regime. E o Irã está sempre dobrando a aposta, porque ele já é um país isolado internacionalmente".
O analista avaliou que os Estados Unidos podem ser substituídos pela China, no médio ou longo prazo:
"A China já começou um ensaio de aproximação no Oriente Médio, tentando mediar a união dos principais grupos palestinos, o Hamas e o Fatah, também entre a própria Arábia Saudita e o Irã. E a China, sim, tem muito interesse na estabilidade naquela região e também no próprio mercado consumidor daqueles países", comentou ele.
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