Conta da destruição no Oriente Médio será paga 'por todos nós', diz especialista
Agência da ONU alertou, no final de março, que economias do Oriente Médio poderiam perder até 6% do PIB devido ao conflito de Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciado em 28 de fevereiro.
SputnikAs estimativas do
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) eram de que os países da região, juntos, poderiam perder de US$ 120 bilhões (R$ 626,2 bilhões) a US$ 194 bilhões (R$ 1,02 trilhão), superando o crescimento acumulado do PIB regional de 2025.
Além disso, o órgão previu a perda de 3,6 milhões de empregos e o empobrecimento de mais de 4 milhões de pessoas. O conflito dura quase dois meses, em meio a um cessar-fogo frágil, que já causou destruição em vários países do golfo Pérsico e vizinhos.
No programa desta quinta-feira (16), o podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, conversou com estudiosos do Oriente Médio para entender quem vai pagar essa conta.
Na opinião de
Wiliander Salomão, professor de direito internacional na Universidade de Itaúna (Uit) e vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da Ordem dos Advogados do Brasil em Minas Gerais (OAB-MG), a resposta é clara:
o mundo todo pagará a conta.O conflito atual impõe um desafio nunca antes vivenciado pelo golfo Pérsico, pondera.
"Todos nós seremos afetados: os países que dependem da indústria petrolífera e seus derivados, […] a própria população, as empresas, os investidores e o próprio governo, porque isso vai ser uma cadeia de acontecimentos."
Esta também é a opinião do cientista político Ali Ramos, pós-graduado em filosofia e estudioso de Ásia, geopolítica, teoria militar e defesa. Para ele, o pacto regional no Golfo, em que os EUA fornecem segurança, defesa e liberdade de navegação, "foi para o espaço" com as agressões contra o Irã.
Segundo ele, que também é articulista do portal História Islâmica e idealizador do canal Vento Leste, o Bahrein foi o país mais prejudicado pela guerra, devido à sua matriz econômica muito dependente de repasses, por ser um hub logístico, de escoamento de ativos financeiros entre o Oriente e o Ocidente.
"Não tem tanta riqueza quanto o Catar, os Emirados Árabes Unidos ou a Arábia Saudita para repor. E, coincidentemente, é o país mais próximo do Irã, com sua base xiita."
Já Salomão chama a atenção para os impactos dos ataques no Irã e em Israel. Segundo a mídia israelense, o país perdeu US$ 15 bilhões (RS 74 bilhões) com reposição de mísseis e outros gastos. Já o Irã estima prejuízos de US$ 270 bilhões (cerca de R$ 1,3 trilhão). Ainda assim, diz o especialista, Israel pode ter levado a pior.
"Não podemos esquecer que o Irã é um país que tem 1,6 milhão de quilômetros quadrados. É do tamanho do Amazonas, quatro vezes maior que o Iraque […]. O impacto não foi tão grande assim […]. Os danos a Israel, pela sua falta de profundidade estratégica, são até maiores, mais difíceis de repor", opinou o analista.
O que dificulta a recuperação iraniana, salienta, é sua economia frágil, cerceada por sanções. Enquanto isso, embora prejudicados, Arábia Saudita e Emirados Árabes têm fundos soberanos bilionários, o que facilitaria uma reconstrução rápida.
Já a reconstrução dos campos de petróleo deve demandar entre dois e três anos, frisou.
"Até lá, a gente vai ver o mundo mergulhado nessa crise energética, ou isso vai acentuar a procura por alternativas de energia mais limpa e o mundo vai ser meio que obrigado a abrir mão do petróleo e do gás."
No
caso de EUA, Israel e Irã, o entrevistado observou que a guerra também retira investimentos em áreas estratégicas, como educação e saúde, para serem realocados à guerra.
"O dinheiro literalmente vai se reduzindo, e esses países vão ter que ter mais aportes e vão depender do próprio Congresso, e é claro que isso já vai afetar a população desses países — isso sem falar do aumento de preços, do aumento de tudo."
Enquanto a maioria paga a conta, uma minoria lucra…
Se, por um lado, as nações do planeta terão de arcar com os prejuízos derivados do conflito, alguns setores da economia estão lucrando como nunca, afirmou Salomão.
"Os produtores de armas é que estão lucrando, as grandes indústrias armamentistas são as que mais lucram", e devem ganhar presença mais acentuada nesses governos. "Elas vão ter um poder maior, e os governos, mais do que nunca, vão precisar da atuação delas e da parceria delas para poder contornar tudo isso. Então vai virar um grande lobby."
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