A decisão dos Emirados Árabes Unidos de deixar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e a OPEP+ (mais países associados) não surpreendeu o especialista em energia global baseado em Londres, dr. Mamdouh G. Salameh, que afirma que o país já cogitava essa ruptura muito antes da guerra com o Irã.
Segundo ele, divergências com a Arábia Saudita sobre cotas de produção criaram um desgaste prolongado, especialmente após Riad rejeitar a demanda emiradense por uma cota de 5 milhões de barris por dia.
Salameh destaca que, desta vez, a motivação é política. "Fontes próximas à presidência dos Emirados afirmam que os países do Conselho de Cooperação do Golfo não lhes forneceram apoio durante a guerra com o Irã", disse. Ele acrescenta que o bombardeio iraniano ao terminal de Fujairah, que impediu o país de contornar o estreito de Ormuz, também pesou na decisão.
O especialista afirma que alguns analistas veem influência direta de Washington. "Há quem acredite que os Emirados podem ter tomado a decisão sob pressão do presidente [norte-americano Donald] Trump", observou, ressaltando que o alinhamento com os EUA não representa mais a vantagem estratégica de décadas anteriores.
Apesar da ruptura, Salameh avalia que o mercado global de petróleo não deve sentir efeitos relevantes. "Dificilmente impactará os preços do petróleo agora e no futuro, já que os Emirados continuarão a exportar os mesmos volumes, estejam dentro ou fora da OPEP", afirmou.
Para outros produtores, a saída dos Emirados não envia um sinal significativo. O economista explica que a maioria dos países-membros não tem capacidade de elevar sua produção além dos níveis atuais. "A maioria se beneficia por ser parte do ator mais influente do mercado global de petróleo", disse, citando a OPEP como peça central da estabilidade do setor.
Questionado sobre possíveis novas alianças, Salameh foi categórico: não há grandes oportunidades estratégicas abertas pela decisão. "O país se aproximará dos EUA, mas isso não é mais uma vantagem", afirmou, indicando que a mudança tende a ser mais simbólica do que prática.
Para o especialista, a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP representa mais um capítulo das tensões regionais e da reconfiguração política no golfo, mas não altera, ao menos por agora, o equilíbrio do mercado global de petróleo.