Panorama internacional

EUA mantêm relação pragmática, mas não aliada, com Lula após crise com a PF, diz analista (VÍDEOS)

A expulsão do delegado Marcelo Ivo de Carvalho, então adido da Polícia Federal em Miami, substituído pela delegada Tatiana Alves Torres posteriormente, gerou outro desgaste entre os países e, segundo especialistas em EUA ouvidos pela Sputnik Brasil, a medida representa uma sinalização política da Casa Branca em meio ao ciclo eleitoral brasileiro.
Sputnik
A cassação das credenciais do delegado brasileiro pelo governo dos EUA ocorreu logo após a soltura de Alexandre Ramagem. O ex-deputado, preso pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos), é aliado da família Bolsonaro e considerado foragido pela Justiça brasileira.
O episódio evidencia o alinhamento político entre o grupo bolsonarista e a ala republicana na Casa Branca, tensionando a relação com o governo Lula, tendo a eleição presidencial brasileira como pano de fundo, conforme explica Roberto Moll Neto, professor de história da América da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Eu acho que [os EUA] passam uma sinalização ao governo Lula muito clara, de que podemos ser pragmáticos até a eleição e até a disputa eleitoral podemos ter uma convivência razoável, mas não sou seu aliado. As forças aliadas do governo Trump são outras", disse.

Em sua análise, Moll acredita que essa postura ríspida por parte de Washington não deve ter surpreendido o Palácio do Planalto e que esse tipo de atitude acaba não fazendo muita diferença no cômputo geral.

"Esse tipo de mensagem [simbólica dos EUA ao retirar as credenciais do delegado da PF], o governo Lula já sabe e isso não faz muita diferença e eu não acho que o governo foi pego de surpresa", comenta.

O pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), Williams Gonçalves, aponta que a crise diplomática envolvendo a PF e a manutenção de Ramagem em solo norte-americano também é um sinal de que os EUA acenam para grupos opositores ao governo Lula.

"Essa troca de serviço [cooperação policial internacional] sempre foi politizada em desfavor nosso. Os EUA não estão aqui para prender traficantes, e sim controlar todo o processo. Esse episódio, no meu entendimento, foi uma sinalização clara para grupos de direita no Brasil", observa.

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Lula mais enfático e Trump mais 'calado'

Durante seu giro pela Europa, com passagens por Barcelona, Hannover e Lisboa, o presidente Lula subiu o tom contra Donald Trump. No entanto, o líder republicano evitou o contra-ataque, silenciando inclusive diante das críticas de Lula sobre a expulsão do adido da PF. Segundo Moll, essa cautela visa evitar o desgaste público com o Brasil, especialmente em um cenário de tensões globais como a guerra no Irã, onde Trump prefere não abrir novas frentes de conflito.

"O Brasil não é um sparring tão grande e esse caso não seria suficiente para ele abafar outras crises e, sim, abriria mais um flanco de problemas [a Trump] além da guerra contra o Irã. Também há o fato de que toda vez que ele foi para o enfrentamento contra Lula e Claudia Sheinbaum do México, ele se saiu pior", destaca.

Já para Gonçalves, essa postura do presidente norte-americano também indica uma forma de não constranger núcleos da direita brasileiros que fazem oposição a Lula, uma vez que suas declarações poderiam ter um tom de ser contra o país e não apenas o governo, e isso poderia unir a esquerda.

"Se Trump continuasse a dar aquelas declarações explosivas e aplicar penalidades tarifárias, isso reuniria a esquerda e a situação ficaria para a direita e para os pró-americanos. Mas os EUA não vão deixar de participar da campanha [eleitoral]", discorre.

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Brasil autônomo incomoda os EUA

Nesse sentido, outro ponto que incomoda os EUA na visão analítica de Gonçalves é que qualquer tentativa de projeto autônomo brasileiro faz com que o país sofra retaliações ou pressões. Dessa forma, intensifica-se o desequilíbrio da relação entre os Estados.

"O Brasil é muito importante e seria o único país [da região] a reunir condições de desenvolver como os chineses por ter território, população, mercado e recursos naturais. Os EUA sempre tentam cercear esse processo. Ou seja, para eles, um Brasil bom é um Brasil submisso", conclui.

As relações históricas entre Brasil e EUA passaram por diversas fases de alinhamento e afastamento. No atual momento, em que a política externa norte-americana busca intensificar sua influência e presença na América Latina via governos aliados, a eleição brasileira consolida-se também como um dos principais pontos focais de Washington.
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