Entregar Avibras ao capital estrangeiro seria 'crime lesa-pátria', diz sindicato ao celebrar retomada
A Avibras Aeroco, nome adotado pela antiga Avibras Indústria Aeroespacial, sediada em Jacareí (SP), retomou suas atividades nesta segunda-feira (4), encerrando greve de 1.280 dias iniciada em setembro de 2022 por atraso no pagamento de salários, considerada uma das mais longas greves já realizadas no país.
SputnikA retomada ocorre
sob nova estrutura empresarial, prometendo foco em
governança,
sustentabilidade financeira e
ampliação da presença no mercado internacional, liderada pelo engenheiro
Sami Hassuani, com mais de quatro décadas de atuação nos setores de defesa e aeroespacial.
Claudio Motta, responsável pelo RH da empresa há 35 anos, não escondeu a emoção. "É uma alegria inenarrável, é aquilo que a gente tá vivendo aqui hoje", disse. Ele descreveu o período de paralisação como marcado por momentos de "um pouco de achar que não tinha mais esperança" e relatou que um pequeno grupo de funcionários se manteve na empresa durante todo o período para preservar sua estrutura. "A gente achava que, poxa, não vai dar, e agora deu", afirmou.
Para Motta, a retomada é muito significativa para quem construiu a vida dentro da fábrica.
"Uma alegria muito grande das pessoas que fizeram a vida aqui, que fazem a vida aqui, que acreditam nessa empresa e que sabem a importância que essa empresa tem, tanto para a soberania nacional quanto para os outros países também."
"Chegou com força, porque nós temos produtos, nós temos pessoas, nós temos competências." Seu objetivo, disse, é "trazer a perpetuidade a essa empresa", meta que sempre norteou o grupo que resistiu durante a crise.
Do lado do chão de fábrica, o eletricista Eduardo Rosa, com seis anos de Avibras, resumiu o sentimento de quem viveu de perto os 1.280 dias de mobilização. "O sentimento é de muita glória, porque a gente não tinha essa expectativa uns dois anos atrás. Não tinha expectativa nenhuma de volta. Pelo contrário, de fechamento", disse ele, que participou ativamente dos piquetes e das viagens a Brasília, ao Rio de Janeiro e a São Paulo.
"Foi uma alegria imensa, porque nunca pensava em voltar e entrar no portão da fábrica junto com a quantidade de pessoas que já estavam aqui", relatou ao descrever o momento em que cruzou o portão nesta manhã.
Eduardo também admitiu que chegou a temer que a empresa fosse vendida a grupos estrangeiros.
"Há dois anos a gente achava que nem abria as portas. Eu tinha quase certeza que ia fechar", disse. Para ele, manter a Avibras em mãos brasileiras é uma questão inegociável. "Perder uma empresa nesse naipe, nesse patamar, nesse monstro do tamanho que a Avibras é, é uma perda muito grande. É uma empresa brasileira, aeroespacial, tem que ficar aqui no Brasil. Não tem que sair para outro país, não."
Welder Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, filiado à CSP-Conlutas, celebrou a retomada, mas fez um balanço crítico dos últimos quatro anos.
"O sentimento de ver os operários retornando à fábrica é de que valeu a pena a gente ter feito a luta, por mais que tenha sido cansativa, por mais que tenha sido desgastante, principalmente quando é uma situação em que os trabalhadores estão com salários atrasados", afirmou.
Ele disse que o sindicato foi o único a sustentar os trabalhadores durante todo o processo. "Infelizmente foi somente o sindicato, porque da classe política ninguém fez nada."
Sobre os salários atrasados, a proposta aprovada de pagamento da dívida trabalhista soma R$ 230 milhões, com parcelamento de 12 a 48 vezes conforme a faixa salarial de cada trabalhador, beneficiando 1,4 mil pessoas com valores a receber.
Gonçalves informou que 271 trabalhadores estão contratados neste mês de maio, com previsão de mais 240 a partir de junho, totalizando cerca de 500 operários na fábrica. "Com a fábrica funcionando, a gente vai pressionar para que pague o quanto antes essa dívida com os trabalhadores", disse.
"A luta dos trabalhadores da Avibras começou quando o [Jair] Bolsonaro era presidente e agora o Lula, praticamente no término do seu mandato, e até agora, por parte do governo Lula, só promessa e não cumpriu com nada", afirmou.
Para ele, o problema é estrutural, pois o governo federal historicamente compra armamentos de empresas estrangeiras em vez de contratar a Avibras, que vende principalmente para o Oriente Médio e Ásia. "Isso é uma vergonha, isso é um absurdo", disse.
O sindicalista defendeu que, dado o atual cenário geopolítico internacional, é necessário "fazer a cobrança, fazer uma grande pressão popular para que o governo federal faça investimentos na Avibras".
Um dos momentos mais delicados da crise, segundo Gonçalves, foi resistir às propostas de grupos estrangeiros interessados em adquirir a empresa, mesmo com trabalhadores há meses sem salário.
"A gente não tremeu a mão para falar, inclusive para os trabalhadores que estavam sem salários, que seria errado entregar a Avibras ao capital estrangeiro", relatou, citando as investidas da australiana DefendTex, da saudita Black Storm Military e da chinesa Norinco. "Esse foi um dos momentos mais difíceis que a gente enfrentou, porque o trabalhador com salário atrasado, ele não quer saber quem vai pagar. Ele quer é receber o que é justo, o que é legítimo."
Para o dirigente, entregar a empresa a qualquer um desses grupos "seria um crime lesa-pátria".
Gonçalves defendeu a
estatização da Avibras sob controle dos trabalhadores, mas admitiu que, caso isso não ocorra, é preferível que a
empresa permaneça em mãos privadas nacionais.
"
Se não vai estatizar, é melhor que fique nas mãos do capital privado nacional do que nas mãos do capital privado estrangeiro. É uma questão de soberania", disse. Ao lado
da Embraer, classificou a Avibras como uma das
empresas com maior capacidade de geração de tecnologia e conhecimento científico do país, e pediu que o tema não seja esquecido agora que a fábrica voltou a funcionar.
"Agora com a volta da Avibras, temos que aumentar a nossa pressão para cima do governo federal para que minimamente faça contratos com a empresa."
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