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Lideranças regionais estão 'dando as cartas', dizem especialistas após corte na produção de petróleo

© Michael ProbstBombas de gasolina em Frankfurt, na Alemanha
Bombas de gasolina em Frankfurt, na Alemanha - Sputnik Brasil, 1920, 05.10.2022
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas destacam que decisão da OPEP+ visa se antecipar a uma eventual queda na demanda por petróleo em 2023 e que, na falta de um polo de poder, lideranças regionais querem "dar as cartas".
A Organização dos Países Exportadores de Petróleo e seus aliados (OPEP+) anunciou nesta quarta-feira (5) que vai reduzir a produção de petróleo em 2 milhões de barris por dia. A medida tem como objetivo elevar os preços da commodity, que caíram em razão da desaceleração da economia global.
A decisão foi tomada a contragosto do governo dos Estados Unidos, que vinha pressionando a organização a não reduzir a produção. Logo após o anúncio, a Casa Branca reagiu, divulgando um comunicado no qual afirmou que o governo Biden trabalhará, no âmbito do Congresso americano, para reduzir a influência da OPEP nos preços globais da energia.
"À luz da ação de hoje, o governo Biden também consultará o Congresso sobre ferramentas e autoridades adicionais para reduzir o controle da OPEP sobre os preços da energia", diz o comunicado.
Para saber como a decisão da OPEP+ afeta países europeus, que já atravessam uma crise energética, o que ela sinaliza em relação à influência e à política externa dos EUA e que impactos ela pode ter no Brasil, a Sputnik Brasil conversou com Vinícius Rodrigues Vieira, doutor em relações internacionais pelo Nuffield College, da Universidade de Oxford, e professor de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), e com Edmar Almeida, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Instituto de Energia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, se reúne com o presidente norte-americano, Joe Biden, no palácio de Al-Salam, em Gidá, segunda maior cidade do reino, 15 de julho de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 03.08.2022
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Para Vinícius Rodrigues Vieira, a decisão da OPEP+ representa "uma derrota de Biden, não por incompetência, mas por conta de um mundo cada vez mais multipolar". Ele aponta que, nesse contexto, potências regionais, como Arábia Saudita e Venezuela, também "querem dar as cartas". Ele ressalta que o fenômeno atual é similar ao que o mundo vivenciou nos anos 1970.

"Nos anos 1970, o Ocidente também estava enfrentando crise de energia, estagflação. E aquilo que hoje chamamos de Sul global, que antes era o mundo em desenvolvimento, o mundo semiperiférico, com países semi-industrializados com grande influência regional, como é o caso da Arábia Saudita, procurou fazer lances mais ousados no contexto da Guerra Fria", explica Vieira.

Ele acrescenta que a decisão da OPEP+ é uma tentativa de "potências regionais de galgar mais espaço em meio a um cenário global de instabilidade geopolítica por conta da ausência de um polo claro de poder", com "disputas entre Oriente e Ocidente, com Rússia e China de um lado, EUA e União Europeia do outro".
Ele ressalta que a decisão da OPEP+ em um cenário em que há maior escassez de petróleo impacta diretamente o Brasil, desencadeando o aumento nos preços dos combustíveis. Ele diz não ter dúvidas de que, encerrando-se o período eleitoral, haverá aumento nos preços dos combustíveis.

"Claramente [o presidente Jair] Bolsonaro baixou os preços visando sua própria reeleição. Se ele se reeleger, pode voltar a subir os preços e subir ainda mais em um período de eventual transição para um eventual governo [de Luiz Inácio] Lula [da Silva]. São esses os dois cenários. O preço do combustível tende a aumentar no Brasil, e mais elevado o combustível em uma situação de crise, mais inflação. Portanto não vejo o governo tendo capacidade de amortecer essa decisão [da OPEP+]", destaca Vieira.

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Vieira afirma que o mesmo tende a ocorrer com países europeus, que, segundo ele, "vivem uma crise de inflação que só tende a aumentar". Ele aponta que esse cenário somente seria evitado se os países europeus tivessem "condições de subsidiar os combustíveis, o que é pouco provável".

"Subsídios maiores, que já estão sendo ofertados, implicariam em mais emissão de dívida, que, por sua vez, é apenas um método de adiar a crise e gerar mais instabilidade em mercados que estão combalidos", conclui Vieira.

Edmar Almeida, por sua vez, destaca que o corte surpreendeu o mercado, que não esperava que fosse tão elevado. "Eles [membros da OPEP+] tinham feito um corte de 100 mil barris na última reunião e agora decidiram aprofundar esse corte", diz Almeida.
Segundo ele, a decisão teve como base a "desaceleração das economias da Europa, dos EUA e da própria China, que neste ano terá um crescimento bem menor por causa da política de COVID-19 adotada no país".
"Há um receio de que a demanda de petróleo não cresça em 2023 como planejado ou como esperado até recentemente", destaca Almeida.
Ele acrescenta que esse cenário é muito influenciado pela "crise energética que está acontecendo na Europa em consequência do conflito na Ucrânia".
"Há um processo inflacionário muito grande no mundo, em grande parte motivado pelos impactos desse conflito nas commodities agrícolas e, principalmente, no gás e no petróleo", destaca Almeida.
Ele finaliza afirmando ser difícil estimar os impactos da decisão, mas que "certamente ela vai manter os preços nos patamares atuais, sustentando o preço elevado, que é o objetivo da OPEP+".
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