- Sputnik Brasil, 1920
Notícias do Brasil
Notícias sobre política, economia e sociedade do Brasil. Entrevistas e análises de especialistas sobre assuntos que importam ao país.

'Petróleo do século XXI': qual a estratégia do Brasil para o uso das terras raras?

© Foto / Divulgação / Agência Nacional de MineraçãoFábrica em Goiás é a primeira do Brasil que processa terras raras para ímãs
Fábrica em Goiás é a primeira do Brasil que processa terras raras para ímãs - Sputnik Brasil, 1920, 27.01.2026
Nos siga no
Especiais
Segundo especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil, sem política industrial e diplomacia ativa, o país corre o risco de repetir ciclos históricos de exploração.
Diante da intensificação da corrida global por minerais críticos, impulsionada pela transição energética e pela reconfiguração das cadeias industriais, a União Europeia tem buscado parcerias estratégicas para reduzir sua dependência externa e garantir o acesso a insumos como níquel, cobre e terras raras.
Nesse contexto, o Brasil ganha centralidade: o país concentra cerca de 23% das reservas mundiais de terras raras, ficando atrás apenas da China, além de deter ampla disponibilidade de outros minerais essenciais à indústria contemporânea. Essas riquezas, frequentemente chamadas de "petróleo do século XXI", tornaram-se um ativo geopolítico disputado pelas principais potências globais.
Apesar desse potencial, o Brasil ainda ocupa uma posição modesta nas cadeias globais de valor, atuando majoritariamente como fornecedor de matéria-prima e com baixa participação nas etapas de maior valor agregado, como o processamento e a manufatura de componentes tecnológicos. A dependência internacional do refino e da produção de ímãs — hoje fortemente concentrados na China — expõe os limites desse modelo e reforça a necessidade de uma estratégia nacional mais ambiciosa para o setor.
É nesse cenário que o governo brasileiro lança a Estratégia Nacional de Terras Raras (ENTR) e avança na implantação da primeira unidade de processamento voltada à produção de ímãs permanentes. A iniciativa sinaliza uma tentativa de romper com padrões históricos de exploração mineral e levanta questões centrais para o futuro do país: como estruturar parcerias internacionais que assegurem transferência tecnológica, como agregar valor internamente a esses recursos estratégicos e como transformar riqueza geológica em soberania industrial e tecnológica.
Mina em Minacu, no estado de Goiás, produz elementos de terras raras essenciais para a produção de ímãs. Brasil, 28 de julho de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 16.01.2026
Notícias do Brasil
Análise: Brasil envia recado a grandes potências ao autorizar pesquisas de terras raras na fronteira
À Sputnik Brasil, Ana Cláudia Ruy Cardia, diretora executiva da Coerentia Sustainable Solutions, consultoria estratégica em Sustentabilidade e ESG, diz que a melhor maneira de o Brasil lidar com a cobiça das grandes potências sobre a sua riqueza seria fortalecer a aplicação prática da ENTR.
Cardia explica que a política, aprovada em 2025, tem como foco impulsionar o desenvolvimento tecnológico, estimular a inovação e ampliar a agregação de valor aos minerais estratégicos que hoje são, em sua maioria, extraídos no Brasil e exportados in natura para países como China e Estados Unidos.
"Temos hoje uma das maiores reservas minerais do mundo (ainda sem conhecimento total do potencial existente) e a capacidade de desenvolvimento de expertise orientada à inovação", sublinha a especialista.
"O objetivo central é reforçar o investimento para pesquisa e desenvolvimento de processamento desses materiais. A forma de construir essa história é por meio de uma atuação governamental que garanta o reforço da soberania e o não rendimento aos interesses das potências ocidentais que querem tão-somente explorar nossos recursos."
"Ademais, é relevante a compreensão de que para que se atinja a capacidade de inovação devem ser realizados investimentos de longo prazo."
Além da ENTR, Cardia ressalta a importância da Política Nacional de Minerais Críticos (PNMCE), que visa a cadeia produtiva de minerais essenciais para a transição energética e tecnológica, na estratégia brasileira para o desenvolvimento desse setor.
"É importante que o país também se mantenha atento às tendências e movimentações internacionais para não se submeter ou se prejudicar a partir de posicionamentos externos que eventualmente prejudiquem os projetos de inovação para o país."
Por se tratar de um processo que exige investimentos de longo prazo, é fundamental, segundo a head de ESG, que o Brasil realize aportes financeiros mais robustos, especialmente por meio da articulação com órgãos e agências de fomento à pesquisa e à inovação, em diálogo permanente também com a iniciativa privada.
"O cuidado para lidar com a pauta – estratégica aos interesses nacionais – também é essencial, especialmente considerando que teremos naturalmente de depender de entes estrangeiros para a evolução da agenda de inovação para processamento de minerais críticos no Brasil."
Uma preocupação, porém, também é como lidar com as grandes potências em meio a ameaças militares, especialmente dos Estados Unidos quando invadiram a Venezuela no início de 2026 e seus repetidos avanços para adquirir a Groenlândia da Dinamarca. Ambos países com recursos naturais valorizados no cenário geopolítico.
Brasil é o terceiro país com o maior número de terras raras no mundo, ficando atrás de China e Vietnã - Sputnik Brasil, 1920, 26.12.2025
Notícias do Brasil
Terras raras não podem ser o novo pau-brasil, afirma analista
Como aponta Flávia Loss, doutora em relações internacionais pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do Instituto Mauá de Tecnologia, o Brasil precisa reforçar sua atuação diplomática e adotar um discurso consistente de defesa da soberania, não apenas nacional, mas também regional, de modo a articular posições com outros países da América Latina e evitar que a região seja coagida a ceder ativos estratégicos para potências estrangeiras.
"O segundo ponto é que precisamos mudar a maneira como enxergamos os recursos naturais no Brasil, assim como no restante da América Latina", pontua Loss. "Ou seja, pensar nesses recursos não só como uma mera extração dessas commodities, mas como convertê-las em produto com valor agregado, desenvolvimento tecnológico".
A doutora ressalta que a estratégia brasileira, porém, tem que levar em conta o peso que isso trará para o meio ambiente, não pensar de maneira apenas extrativista. Infelizmente, ela não vê isso sendo abordado nas discussões sobre a extração de terras raras. O que, acima de tudo, deveria estar sendo discutido na sociedade brasileira e em outros países latino-americanos, destaca Loss.

"Se você não sabe ou tem pouca tecnologia, pouca vontade de explorar de forma sustentável algum recurso natural, o país fica aberto para que outros cobicem sua riqueza."

Para a especialista, o debate sobre terras raras precisa de uma atualização para não cair no simples extrativismo da era colonial ou no discurso desenvolvimentista da década de 1960. Mas ela confessa que isso não é tarefa normal.
"Não é nada fácil, nem do ponto de vista do meio ambiente ou da política internacional. Seria importante que a gente pensasse em meios de desenvolvimento próprio, um incentivo estatal para isso, e pensasse em parcerias com países que podem ser menos danosos para nossa soberania".
"Fazer acordos que sejam mais equitativos, contratos que sejam mais draconianos e que obriguem as empresas estrangeiras a respeitar a lei brasileira", diz Loss, lembrando da forte insegurança jurídica que o país sofre e como esse ponto é pouco tratado por economistas brasileiros e em veículos de comunicação. Ela sugere também que o Brasil pode pensar em parcerias mutualmente benéficas dentro do BRICS, que visem o desenvolvimento dos países membros.
Sem dúvida, o Brasil precisa agilizar esse processo de desenvolvimento da indústria de terras raras, segundo a doutora. Contudo, a falta de consenso interno da sociedade sobre o que fazer com essas riquezas, em como administrá-las e explorá-las de maneira sustentável impede qualquer desenvolvimento nesse debate. "Na falta desse consenso, as elites de fora, as grandes empresas multinacionais, aproveitam isso".
O país pode, ainda, se inspirar em experiências de outros integrantes do grupo, como a China, que, segundo a professora, demonstra maior eficácia na conversão dos investimentos em universidades e pesquisa em desenvolvimento tecnológico e fortalecimento industrial. Ainda assim, ressalta que o tema exige coordenação e condução em nível federal, com papel central do Ministério de Minas e Energia, responsável por articular políticas, investimentos e diretrizes estratégicas para o setor.
Logo da emissora Sputnik - Sputnik Brasil
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.

Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).

Feed de notícias
0
Para participar da discussão
inicie sessão ou cadastre-se
loader
Bate-papos
Заголовок открываемого материала