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'Alcântara não está reservada aos EUA': Brasil aposta na diversificação espacial, dizem analistas

© AP Photo / Eraldo PeresMilitares da Força Aérea Brasileira caminham após uma visita à torre de lançamento do Centro de Lançamento de Satélites da base militar de Alcântara, no estado do Maranhão. Brasil, 14 de setembro de 2018
Militares da Força Aérea Brasileira caminham após uma visita à torre de lançamento do Centro de Lançamento de Satélites da base militar de Alcântara, no estado do Maranhão. Brasil, 14 de setembro de 2018 - Sputnik Brasil, 1920, 02.03.2026
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Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil afirmam que cooperações com outros países podem gerar o know-how e novas tecnologias para exploração espacial brasileira, mas pontuam que deve ver haver maior integração entre setores de defesa, indústria e privado para chegar lá.
Durante sua visita de Estado na Coreia do Sul, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que o Brasil quer ampliar seu acordo com a empresa aeroespacial sul-coreana Innospace para futuros lançamentos no Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA), no Maranhão.
Apesar de uma anomalia em seu último lançamento em dezembro de 2025, o presidente brasileiro expressou que estaria disposto a tentar novamente, dizendo que o diálogo entre os dois países é "crucial para aprofundar essa colaboração inclusive no compartilhamento de dados de satélite em projetos de exploração lunar".
Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão. Brasil, 1º de outubro de 2019 - Sputnik Brasil, 1920, 08.10.2024
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Com a Innospace já com planos de retomar lançamentos comerciais no primeiro semestre de 2026, o Brasil aposta na diversificação de parceiros estrangeiros para o desenvolvimento do setor de exploração espacial. Alcântara é conhecida por sua vantagem geográfica próximo a Linha do Equador, o que reduz o uso de combustível e aumenta eficácia em missões.
Além disso, os termos do acordo firmado entre Brasil e Estados Unidos — conhecido como Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) — influenciam diretamente a possibilidade do Brasil ampliar parcerias com outros países porque estabelecem regras específicas sobre o uso de tecnologias norte-americanas.
O AST prevê proteção de tecnologias sensíveis, restrições burocráticas em operações, além de protocolos adicionais de segurança, o que reforçam uma dependência estratégica a Washington. Em troca, o acordo permite ao Brasil atrair lançamentos estrangeiros e acumular experiência operacional.
Para Annibal Hetem, professor de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC (UFABC) vê que a entrada de novos operadores, como é o caso da Innospace, tende a acelerar o aprendizado operacional do Brasil, especialmente em integração de campanhas, segurança de voo e processos logísticos.
Contudo, isso não implica a transferência automática de tecnologias estratégicas, dizendo que acordos como Brasil-Coreia do Sul envolvem controle de exportação e cláusulas de propriedade intelectual que costumam limitar o acesso a dados e conhecimentos técnicos.

"Se a operação vier completamente 'pronta' do exterior, a participação brasileira pode se restringir a funções periféricas. [...] Para que haja desenvolvimento industrial consistente, é necessário prever contratos com conteúdo local mínimo, programas formais de capacitação e metas de nacionalização progressiva."

Outro especialista no tema, Antônio Gil Vicente de Brum, professor de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC, vê que as vantagens naturais de Alcântara – como sua localização próxima da Linha do Equador – ajudam o centro de lançamentos se tornar um hub global no futuro próximo. Contudo, gargalos estruturais como as condições da infraestrutura disponível ainda precisam ser superados.
"Grandes investimentos são necessários para que a base possa atingir a condição de centro global de lançamentos", afirma Vicente.
"Contratos novos, como o que se deseja firmar com a Innospace da Coreia do Sul, poderiam ajudar muito nisso, no sentido da geração de recursos por renovação, modernização e outras melhorias na base e entornos." Complementando o professor, Hetem diz que seria necessário integração entre defesa, indústria e setor privado para chegar a esse objetivo.
O professor ressalta que Alcântara é apenas uma parte do programa espacial brasileiro e que os compromissos internacionais são fundamentais para a credibilidade do país. "Essa é uma diretriz fundamental adotada pelo governo brasileiro que lhe permite, aliás, confiabilidade para assinatura de tais acordos".
"Em outros setores das atividades espaciais, a soberania é fortalecida com o estabelecimento de parcerias em áreas estratégicas para o Brasil, como o desenvolvimento e operação de satélites de sensoriamento remoto para monitoramento do vasto território nacional, fronteiras e costas, caso do programa CBERS com a China, além do monitoramento da floresta Amazônica."
Para Pedro Martins, professor e doutorando em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a cooperação brasileira com outros países não representa um rompimento com o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) — já que a própria parceria com a Coreia do Sul só foi possível após sua assinatura —, mas sim um movimento gradual de redução da dependência em relação aos Estados Unidos.
"Não é um rompimento, mas um afastamento. Isso fica muito claro no acordo com a Coreia do Sul."
Brasil e Coreia do Sul compartilham trajetórias históricas semelhantes de desenvolvimento acelerado e redemocratização, o que favorece a aproximação estratégica entre os dois países.
"A Coreia do Sul ainda é um aliado dos EUA, mas também vem revendo aspectos dessa parceria, especialmente após dificuldades recentes no relacionamento com Washington. Tanto o Brasil quanto a Coreia veem um no outro uma forma de ganhar mais autonomia e espaço internacional".
Martins ressalta, contudo, que esse movimento não configura uma ruptura definitiva. "É um afastamento, mas não chega a ser um rompimento. No caso brasileiro, esse esforço só é viabilizado justamente pelo AST em Alcântara, e a Coreia do Sul também não deixou de ser aliada dos Estados Unidos."

"O que existe é um diagnóstico comum de que os EUA nem sempre são um parceiro totalmente confiável."

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