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'Brasil tem autonomia limitada', diz analista sobre soberania do país em cabos submarinos (VÍDEOS)

© flickr.com / Divulgação / Marinha dos Estados Unidos / Adam WintersConstrutor instalando armadura de aço ao redor do cabo do fundo do mar em 100 pés de profundidade no Pacific Missile Range Facility (PMRF) Barking Sands, Kauai, Havaí, 14 de agosto de 2013
Construtor instalando armadura de aço ao redor do cabo do fundo do mar em 100 pés de profundidade no Pacific Missile Range Facility (PMRF) Barking Sands, Kauai, Havaí, 14 de agosto de 2013 - Sputnik Brasil, 1920, 10.03.2026
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A negociação para a construção de um cabo submarino com conexão direta entre o Chile e a China fez com que os EUA alegassem perigo à sua segurança e retaliassem o país andino, revogando o visto de seu ministro dos Transportes. Esse episódio ocorrido no entorno estratégico brasileiro reacende o debate sobre infraestruturas estratégicas e soberania.
A arquitetura de cabos submarinos representa quase a totalidade do tráfego intercontinental de informações e, com um mundo cada vez mais globalizado, esse tipo de estrutura de cabeamento se torna cada vez mais necessária tanto para a economia quanto para a segurança digital. Com isso, torna-se mais uma "arma" no tabuleiro geopolítico na disputa de influência e controle informacional da troca de dados.
Na América Latina, os EUA tentam impedir a diversificação de infraestrutura dessa magnitude, dando ênfase à sua Estratégia de Segurança Nacional, que prevê que a região faria parte de sua esfera de influência.
Nesse contexto, o Brasil, assim como outros países latino-americanos, não possui autonomia nessa área, como aponta Igor Estima Sardo, mestre em estudos estratégicos internacionais, doutorando em ciência política e pesquisador-associado do Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE).

"O Brasil é uma potência intermediária, mas tem uma autonomia limitada. Embora haja uma diversificação em infraestruturas críticas, elas ainda são insatisfatórias. No caso dos cabos submarinos, temos muitas ligações com países aliados dos EUA, como os da Europa. Com isso, o país tende sempre a acionar a diplomacia para tentar contornar pressões externas", explicou.

Nesse cenário, a interferência estadunidense também tenta conter a expansão da China, que já é o principal parceiro comercial de muitos países latino-americanos, entre os quais o Brasil. O crescimento de companhias chinesas nesse empreendimento incomoda a Casa Branca, como conta Thales Rodrigues, mestre em geografia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que produziu uma dissertação sobre o tema.

"Em minha pesquisa, abordei a disputa entre China e EUA em torno da rede global de cabos submarinos. Por décadas, o mercado foi dominado por empresas estadunidenses e de países aliados, como França e Japão. Nos últimos anos, os chineses entraram no negócio de cabos submarinos, o que gerou reações de Washington e acirrou a rivalidade geopolítica", disse.

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Com um cenário internacional cada vez mais recrudescido e hostil, inclusive na América do Sul, então considerada uma região de paz, que foi palco do sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pelos EUA no início do ano, as relações diplomáticas entre as nações das Américas e o governo Trump estão em um estágio de assimetria, onde os desejos de uma potência podem ser exercidos.
No âmbito dos cabos submarinos, o especialista Igor Estima Sardo acredita que a postura intransigente norte-americana e a realidade da indústria brasileira, de certa forma, inibem o aprimoramento brasileiro na soberania no ramo tecnológico mais complexo.

"A pressão exercida pelos EUA limita bastante o Brasil e outros países da América do Sul. Além disso, eu diria que o parque industrial brasileiro parou nos anos 1980 e, com o neoliberalismo da década seguinte, ficou ainda mais defasado. Com isso, o país ficou para trás e não consegue acompanhar a quarta revolução industrial, que está em curso com tecnologias complexas", pontuou.

Já para o geógrafo Thales Rodrigues, as características do território brasileiro o projetam no mercado de cabos submarinos por atender diversas demandas. Nesse panorama, o Planalto preza pelo pragmatismo para manter sua autonomia e boas relações com os norte-americanos e o gigante asiático.

"O Brasil possui importância regional por sua grande demanda de dados e por seus pontos de aterrissagem, como em Fortaleza, que recebe cabos de toda a costa atlântica das Américas, África e Europa. Entendo que a questão da soberania se assemelha à situação no Chile, oscilando a cada governo eleito. A atual posição do país entre China e EUA é uma tentativa de manter margem de autonomia nessas decisões", analisou.

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Cabos submarinos: vantagem geopolítica

Em paralelo, as forças militares e o poderio econômico exercidos em momentos de crise entre países podem culminar no campo de batalha ou na tentativa de promover desestabilização política. Contudo, tecnologias cruciais como a dos cabos submarinos representam um asset, ou seja, mais uma vantagem ofensiva, mesmo que essas infraestruturas sejam projetadas para serem neutras, como destaca o membro do ISAPE Igor Estima Sardo.

"Inicialmente, compreendo a infraestrutura, quando construída, como algo neutro em tempos de paz. No entanto, quando há escalada de hostilidades, pode ser utilizada como ferramenta de ataque de um estado contra o outro. Dessa forma, os cabos submarinos são ativos com potencial de serem atacados ou de sofrerem sabotagens", enfatizou.

Os impactos de uma eventual retaliação a um país ou região em infraestrutura crítica de cabos submarinos, além de ferir a soberania, podem provocar diversas consequências em setores que englobam inúmeros aspectos sociopolíticos. Portanto, a diversificação de rotas se faz necessária visando à segurança, como elucida o professor Thales Rodrigues.

"Sem uma base física para a internet, o país perde a capacidade de desenvolver uma economia digital, proteger dados estratégicos ou garantir segurança nas comunicações. Daí a importância de não ficar refém de uma única rota ou parceiro tecnológico. Quanto mais possibilidades, menor a dependência", concluiu.

A globalização, além de intensificar a integração entre povos, também simboliza a relação cada vez mais assimétrica entre os países considerados potências e aqueles que ainda estão em desenvolvimento. No sistema-mundo, a corrida tecnológica tem tanto impacto quanto a força militar. No campo informacional, o abismo pode ser ainda mais intensificado a ponto de uma potência como os EUA poder inibir o desenvolvimento de um estado por meio de retaliações e sanções econômicas.
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