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Análise: crise global do petróleo confere vantagem estratégica a biocombustíveis do Brasil
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Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas apontam que a alta nos preços do petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio abre oportunidades para o setor... 18.03.2026, Sputnik Brasil
2026-03-18T19:16-0300
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A escalada da guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã causou instabilidade no mercado global de petróleo. Ataques norte-americanos e israelenses contra instalações de petróleo iranianas e a resposta de Teerã, bloqueando o estreito de Ormuz, levaram o preço do barril do petróleo Brent, referência do mercado internacional, a superar a marca de US$ 100 (cerca de R$ 520).Lar de uma das mais vastas reservas do mundo, com 33 trilhões de metros cúbicos, o Irã é um dos maiores produtores globais de petróleo, tendo afirmado recentemente que o mundo deve se preparar para um petróleo acima de US$ 200 (cerca de R$ 1.044) por barril.Em cenários de oferta restrita, como o atual, fontes de energia alternativas ganham destaque, e uma das opções podem ser os biocombustíveis, setor no qual o Brasil tem protagonismo por ser um dos maiores produtores de etanol de cana e de milho, e de biodiesel à base de soja.O Brasil se posiciona de forma singular entre as grandes economias ao reunir condições estruturais para transformar esse choque externo em vantagem estratégica, segundo aponta à Sputnik Brasil Luis Rutledge, analista de geopolítica energética da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do conselho consultivo do Observatório do Mundo Islâmico (OMI) e membro do Centro de Estudos das Relações Internacionais (Ceres).E, conforme a produção agrícola do país se expande, amplia-se a disponibilidade de matérias-primas para biocombustíveis, como soja para biodiesel e cana-de-açúcar para etanol e resíduos orgânicos que podem ser convertidos em biogás e biometano.Essa interação entre agricultura e energia, aponta Rutledge, confere ao Brasil uma capacidade diferenciada de resposta, permitindo substituir parcialmente o diesel fóssil por alternativas renováveis produzidas internamente. Com isso, o país reduz sua exposição às oscilações do mercado internacional e melhora a previsibilidade de custos para setores estratégicos, como o agronegócio e o transporte.No entanto, para que esse potencial seja materializado, o país depende de outros fatores, estruturais e institucionais, como a ampliação da infraestrutura logística, a previsibilidade regulatória, a estabilidade das políticas de mistura de biocombustíveis e a expansão da capacidade industrial. Segundo Rutledge, sem esses elementos, há risco de o país capturar apenas parcialmente os benefícios de um cenário internacional adverso."Dessa forma, embora a guerra e a instabilidade global não sejam, em si, fatores positivos, elas podem funcionar como catalisadores para o fortalecimento da posição brasileira no mercado energético, desde que o país consiga alinhar sua política energética e agrícola a uma estratégia de longo prazo", observa o especialista.No caso do etanol, fonte de bioenergia na qual o Brasil tem posição relevante como exportador, Rutledge afirma que cenários de alta do petróleo ou de instabilidade geopolítica tendem a conferir ao setor competitividade no mercado internacional, ampliando seu papel tanto como alternativa energética quanto como instrumento de inserção econômica global.Ele acrescenta que a produção de etanol está integrada ao setor agrícola, o que permite ajustes relativamente dinâmicos conforme as condições de mercado, ampliando sua relevância como instrumento de segurança energética, fortalecendo a previsibilidade de custos para setores dependentes de combustíveis e reduzindo a exposição a choques externos.Para Luciano Losekann, professor e coordenador do Grupo de Energia e Regulação (Gener), da Universidade Federal Fluminense (UFF), o preço do petróleo tende a se manter em patamares elevados nos próximos meses com a guerra no Oriente Médio, o que de fato impulsiona o consumo de biocombustíveis, tanto internamente quanto internacionalmente. "A questão é o prazo para que esses efeitos ocorram."Ele cita o caso do etanol anidro, biocombustível obtido a partir de etanol desidratado. Atualmente, a percentagem autorizada pelo governo brasileiro de mistura de etanol anidro na gasolina é de 30%. Já no caso do diesel, a percentagem de biodiesel misturado é de 15%. O governo ainda estuda elevar para 35% a mistura de etanol anidro na gasolina. Losekann afirma que o ajuste é mais razoável para o etanol anidro do que para o biodiesel.Sobre a capacidade de o Brasil ampliar rapidamente a produção de etanol e biodiesel para aproveitar esse possível aumento de demanda, Losekann ressalta que o etanol hidratado é o etanol que é escolhido por proprietários de veículos flex, e o aumento do consumo está relacionado ao repasse do preço na gasolina para o mercado interno.No entanto, ele considera que, caso a situação atual se estenda, no longo prazo, "tende a favorecer os biocombustíveis e também o conjunto de renováveis".A crise atual pode acelerar a transição energética?Um dos objetivos do governo brasileiro é fazer do Brasil protagonista na transição energética. Para Rutledge, a guerra no Oriente Médio pode aproximar essa meta da realidade, uma vez que a interrupção nos mercados de energia causada pelo fechamento do estreito de Ormuz leva os países a refletir sobre uma saída mais rápida da dependência de combustíveis fósseis."O Brasil, em particular, possui uma posição de destaque no cenário global de energia limpa. Nossa matriz elétrica é totalmente renovável, algo impensável para a grande maioria dos países da União Europeia, por exemplo."Losekann, por sua vez, afirma que a transição energética vinha experimentando um movimento de redução ao redor do mundo, com países voltando atrás nas políticas de estímulo a fontes renováveis de energia. Porém a crise no Oriente Médio tende a reverter esse cenário.
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Análise: crise global do petróleo confere vantagem estratégica a biocombustíveis do Brasil
19:16 18.03.2026 (atualizado: 20:46 18.03.2026) Especiais
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas apontam que a alta nos preços do petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio abre oportunidades para o setor de bioenergia do Brasil, que tem posição de destaque global.
A
escalada da guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã
causou instabilidade no mercado global de petróleo. Ataques norte-americanos e israelenses contra instalações de petróleo iranianas e a resposta de Teerã, bloqueando o
estreito de Ormuz, levaram o preço do barril do petróleo Brent, referência do mercado internacional, a
superar a marca de US$ 100 (cerca de R$ 520).
Lar de uma das mais vastas reservas do mundo, com 33 trilhões de metros cúbicos, o Irã é um dos maiores produtores globais de petróleo, tendo afirmado recentemente que o mundo deve se preparar para um petróleo acima de US$ 200 (cerca de R$ 1.044) por barril.
Em cenários de oferta restrita, como o atual, fontes de energia alternativas ganham destaque, e uma das opções podem ser os biocombustíveis, setor no qual o Brasil tem protagonismo por ser um dos maiores produtores de etanol de cana e de milho, e de biodiesel à base de soja.
O Brasil se posiciona de forma singular entre as grandes economias ao reunir
condições estruturais para transformar esse choque externo em vantagem estratégica, segundo aponta à
Sputnik Brasil Luis Rutledge, analista de geopolítica energética da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do conselho consultivo do Observatório do Mundo Islâmico (OMI) e membro do Centro de Estudos das Relações Internacionais (Ceres).
"Diferentemente de países altamente dependentes da importação de combustíveis fósseis, o Brasil dispõe de uma base produtiva consolidada em bioenergia, fortemente integrada ao seu setor agropecuário, o que permite não apenas mitigar impactos internos, mas também capturar oportunidades no mercado internacional."
E, conforme a produção agrícola do país se expande, amplia-se a disponibilidade de matérias-primas para biocombustíveis, como soja para biodiesel e cana-de-açúcar para etanol e resíduos orgânicos que podem ser convertidos em biogás e biometano.
Essa interação entre agricultura e energia, aponta Rutledge, confere ao Brasil uma capacidade diferenciada de resposta, permitindo substituir parcialmente o diesel fóssil por alternativas renováveis produzidas internamente. Com isso, o país reduz sua exposição às oscilações do mercado internacional e melhora a previsibilidade de custos para setores estratégicos, como o agronegócio e o transporte.
"Paralelamente, o aumento dos preços do petróleo eleva a competitividade relativa dos biocombustíveis no cenário global, criando uma janela de oportunidade para o Brasil expandir suas exportações de etanol, biodiesel e, potencialmente, combustíveis sustentáveis de aviação [SAF, na sigla em inglês]."
No entanto, para que esse potencial seja materializado, o país depende de outros fatores, estruturais e institucionais, como a ampliação da infraestrutura logística, a previsibilidade regulatória, a estabilidade das políticas de mistura de biocombustíveis e a expansão da capacidade industrial. Segundo Rutledge, sem esses elementos, há risco de o país capturar apenas parcialmente os benefícios de um cenário internacional adverso.
"Dessa forma, embora a guerra e a instabilidade global não sejam, em si, fatores positivos, elas podem funcionar como catalisadores para o fortalecimento da posição brasileira no mercado energético, desde que o país consiga alinhar sua política energética e agrícola a uma estratégia de longo prazo", observa o especialista.
No caso do etanol, fonte de bioenergia na qual o Brasil tem posição relevante como exportador, Rutledge afirma que cenários de alta do petróleo ou de instabilidade geopolítica tendem a conferir ao setor competitividade no mercado internacional, ampliando seu papel tanto como alternativa energética quanto como instrumento de inserção econômica global.
"A produção de etanol da safra 2026/27 pode atenuar o impacto da alta do petróleo. A expansão da produção de etanol no Brasil tende a atenuar de forma relevante os impactos da alta do petróleo no mercado interno de combustíveis."
Ele acrescenta que a produção de etanol está integrada ao setor agrícola, o que permite ajustes relativamente dinâmicos conforme as condições de mercado, ampliando sua relevância como instrumento de segurança energética, fortalecendo a previsibilidade de custos para setores dependentes de combustíveis e reduzindo a exposição a choques externos.
Para Luciano Losekann, professor e coordenador do Grupo de Energia e Regulação (Gener), da Universidade Federal Fluminense (UFF), o preço do petróleo tende a se manter em patamares elevados nos próximos meses com a guerra no Oriente Médio, o que de fato impulsiona o consumo de biocombustíveis, tanto internamente quanto internacionalmente. "A questão é o prazo para que esses efeitos ocorram."
Ele cita o caso do etanol anidro, biocombustível obtido a partir de etanol desidratado. Atualmente, a percentagem autorizada pelo governo brasileiro de mistura de etanol anidro na gasolina é de 30%. Já no caso do diesel, a percentagem de biodiesel misturado é de 15%. O governo ainda estuda elevar para 35% a mistura de etanol anidro na gasolina. Losekann afirma que o ajuste é mais razoável para o etanol anidro do que para o biodiesel.
"Porque o biodiesel, mesmo com a situação de preços do diesel, ainda acaba sendo mais caro. Então, como já está o preço pressionado, isso pode ser uma política que não seja tão interessante."
Sobre a capacidade de o Brasil ampliar rapidamente a produção de etanol e biodiesel para aproveitar esse possível aumento de demanda, Losekann ressalta que o etanol hidratado é o etanol que é escolhido por proprietários de veículos flex, e o aumento do consumo está relacionado ao repasse do preço na gasolina para o mercado interno.
"Isso ainda não aconteceu. Na verdade, se a gente observar o que está acontecendo nos mercados, é que o preço do etanol hidratado tem acompanhado a elevação da própria gasolina, então acabou não tendo diferencial de consumo", explica o especialista.
No entanto, ele considera que,
caso a situação atual se estenda, no longo prazo,
"tende a favorecer os biocombustíveis e também o conjunto de renováveis".
A crise atual pode acelerar a transição energética?
Um dos objetivos do governo brasileiro é fazer do Brasil protagonista na transição energética. Para Rutledge, a guerra no Oriente Médio pode aproximar essa meta da realidade, uma vez que a interrupção nos mercados de energia causada pelo fechamento do estreito de Ormuz leva os países a refletir sobre uma saída mais rápida da dependência de combustíveis fósseis.
"O Brasil, em particular, possui uma posição de destaque no cenário global de energia limpa. Nossa matriz elétrica é totalmente renovável, algo impensável para a grande maioria dos países da União Europeia, por exemplo."
Losekann, por sua vez, afirma que a transição energética vinha experimentando um movimento de redução ao redor do mundo, com países voltando atrás nas políticas de estímulo a fontes renováveis de energia. Porém a crise no Oriente Médio tende a reverter esse cenário.
"Acho que a situação, não só de preços, mas também de segurança de abastecimento, faz com que os países voltem a estimular renováveis. E aí o cenário pode ser de um novo momento para a transição."
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