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Europa volta ao limite: guerra no Irã escancara dependência energética crítica do continente

© AP Photo / Emilio MorenattiOperadores trabalham na planta de regaseificação Enagás, a maior planta de gás natural liquefeito (GNL) da Europa. Barcelona, Espanha, 29 de março de 2022
Operadores trabalham na planta de regaseificação Enagás, a maior planta de gás natural liquefeito (GNL) da Europa. Barcelona, Espanha, 29 de março de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 18.03.2026
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Em meio à crise em cadeia provocada pelo fechamento do estreito de Ormuz, as reservas de gás da Europa caíram quase 30% nos últimos dias. O volume é o menor desde 2022, quando começaram as sanções contra a Rússia, até então principal fornecedora do insumo. A nova instabilidade global volta a expor a dependência energética do continente.
Um mês antes de Estados Unidos e Israel iniciarem a ofensiva militar contra o Irã, que levaria a uma guerra quase generalizada no Oriente Médio, a União Europeia (UE) aprovou a regra que prevê o fim total das importações de gás russo até 2027. Em 2025, cerca de 13% do consumo do bloco ainda vinha da Rússia. Para viabilizar a medida, o bloco recorreu a manobras para contornar a exigência de unanimidade diante da oposição de Hungria e Eslováquia, que prometeram judicializar a decisão.
Até 2022, com o início do conflito na Ucrânia, Moscou respondia por quase metade do fornecimento de gás à Europa, enviados por meio de gasodutos. Com as sanções impostas pelo próprio bloco, essa participação caiu ano a ano, sendo substituída principalmente por gás liquefeito importado (GLP) de Estados Unidos, Catar e Argélia, transportado por navios e com custo mais elevado.
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As recentes tensões no Oriente Médio, intensificadas por Washington e que culminaram no fechamento do estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% da energia fóssil consumida no mundo —, impactaram toda a cadeia global. Com as dificuldades de fornecimento, as reservas europeias recuaram 30%, atingindo o menor nível em quatro anos.
O analista de geopolítica energética e pesquisador de petróleo e gás da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luis Rutledge explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que a Europa apenas trocou o fornecedor russo por uma alternativa mais cara. "O bloco ficou mais dependente dos Estados Unidos do que era da Rússia, em um cenário em que antes havia maior previsibilidade diplomática", avalia.
Segundo o especialista, a região permanece vulnerável a choques externos que afetam diretamente sua segurança energética. "Como a UE não é autossuficiente em petróleo e gás, fica exposta aos movimentos do mercado global. A alta do barril, que chegou a ultrapassar US$ 120 (R$ 625), pressiona os custos e se espalha por toda a economia", afirma. Para ele, a nova política energética europeia falhou ao não desenvolver soluções internas de fornecimento.
Rutledge também destaca a dependência de derivados produzidos no golfo Pérsico: cerca de 20% do diesel e mais de 50% do querosene de aviação consumidos na Europa vêm da região. "Quando há turbulências, esses combustíveis sobem, elevando custos de transporte, alimentos e passagens, com efeito em cadeia", acrescenta.
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Reflexos na competitividade da economia europeia

A questão energética é um dos principais fatores por trás da perda de competitividade da economia europeia nos últimos anos, especialmente frente à China. A gravidade do cenário levou a Comissão Europeia a apontar, em relatório de 2024, a necessidade de investimentos anuais de 800 bilhões de euros (R$ 4,7 trilhões) para sustentar a atividade produtiva.
A situação da Alemanha ilustra esse quadro. A maior economia do bloco registrou, no fim do ano passado, o menor nível de produção industrial em duas décadas, além de queda de 11% nas encomendas apenas em janeiro de 2026.

"Os preços da energia seguem em alta, com impacto direto sobre a economia. A Europa é estruturalmente vulnerável nesse campo e dificilmente conseguirá, no longo prazo, substituir integralmente os combustíveis fósseis por fontes renováveis", afirma o especialista.

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Europa quer retomar investimentos em energia nuclear

Em meio à crise do petróleo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou recentemente como um erro estratégico a redução da energia nuclear na matriz do bloco após o acidente de Fukushima, em 2011. "Virar as costas para uma fonte confiável e de baixas emissões foi um erro", declarou durante cúpula na França na última semana.
Em 1990, a energia nuclear respondia por cerca de um terço do fornecimento europeu. Hoje, representa aproximadamente 15%, enquanto cresceram as importações de gás e petróleo. Para o professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Demétrius Pereira, as atuais instabilidades ajudam a explicar a retomada do debate.

"Na disputa por gás, a energia nuclear surge como alternativa intermediária. A França mantém uma matriz robusta nesse campo, enquanto a Alemanha seguiu o caminho oposto e agora volta a discutir sua retomada para reduzir a dependência externa", explica ao podcast Mundioka.

Segundo Pereira, a Europa tenta corrigir a dependência histórica enquanto acelera a transição energética que já estava em curso, mas ganhou urgência. "Não adianta reduzir a dependência do gás e ampliar o uso de petróleo ou carvão, que também são fósseis e não resolvem o problema estrutural", afirma.
Nesse cenário, fontes como solar e eólica ganham protagonismo, ao lado de alternativas como biocombustíveis. A aposta em inovação também avança, com destaque para o hidrogênio verde, visto como uma das principais promessas para o futuro energético do continente. Ainda assim, o especialista ressalta que a Europa se acomodou em um modelo que hoje se mostra cada vez mais vulnerável às disputas geopolíticas e às rupturas nas cadeias globais de suprimento.
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