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'Ormuz é o gargalo energético global, e novas rotas devem ir para a Ásia', diz analista (VÍDEOS)

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Departamento de Energia dos EUA não prevê aumento nos preços do petróleo devido a guerra com o Irã - Sputnik Brasil, 1920, 23.03.2026
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O fracasso da incursão israelo-estadunidense em depor o governo do Irã produziu impactos que vão além do campo militar. O prolongamento do impasse e as incertezas no fluxo energético pelo golfo abrem espaço para rearranjos no mercado global de energia. Nesse cenário, Rússia e China ampliam sua atuação no setor de energia com países asiáticos.
Enquanto os Estados Unidos seguem envolvidos nas hostilidades do Oriente Médio, Teerã mantém restrições para passagem de petroleiros pelo estreito de Ormuz, inclusive tributando os navios autorizados a fazer a travessia com yuan ao invés do dólar.
O cenário, além de caótico, também contribui para a ascensão de novos polos energéticos asiáticos, conforme explica Guilherme da Conceição, doutorando em relações internacionais e pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE).

"O estreito de Ormuz é o principal gargalo do sistema energético global no curto prazo. Na minha avaliação, esse eixo vem se deslocando para a Ásia por alguns motivos dentre os quais: o aumento da demanda, especialmente na Índia e China e devido a novas parcerias como os fluxos entre a Rússia e Ásia com projetos de infraestrutura pensados para esse fim com gasodutos terrestres e até rotas pelo Ártico", disse.

Nesse contexto, a capacidade de Washington de garantir a segurança do fluxo energético da região é colocada em xeque a partir desse conflito com o Irã, que provocou impactos significativos mundialmente, conforme aponta Carlos Renato Ungaretti, doutorando em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI-UFRGS).

"Ao que parece, os Estados Unidos não acreditavam que o Irã tivesse essa capacidade de resposta e de retaliação e o que se observa, então, é uma gradual erosão, digamos assim, das suas capacidades em garantir a segurança das rotas energéticas globais, o que tradicionalmente sustentava sua hegemonia na geopolítica de energia e nos mercados energéticos de uma maneira geral", comenta.

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Rússia e China na vanguarda da transição energética

No panorama de instabilidade e mudanças atual, outros atores surgem como plataformas que podem reconfigurar novos caminhos e possibilidades no mercado energético. Na atualidade, para Conceição, Moscou e Pequim vêm construindo estruturas multilaterais visando à nova dinâmica do sistema de energia no cenário internacional.

"Desde o início desse século, mas sobretudo ali a partir de meados dos anos 2010, Rússia e China vêm construindo estruturas multilaterais para esse fim. A própria Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), que nasce com o objetivo de combater o terrorismo e o separatismo, passou também a operar na pauta da diversificação de parcerias no setor energético", pontuou.

Nesse sentido, Ungaretti destaca que a percepção de segurança energética e a instabilidade recorrente no Oriente Médio já vinha sendo uma prioridade tanto para os russos quanto aos chineses que buscaram investir em uma autonomia tanto na diversificação a nível estrutural e de parceiros quanto em uma cooperação sino-russa.

"A China tem vulnerabilidades energéticas, sobretudo em relação às importações de combustíveis do Oriente Médio e busca infraestruturas como gasodutos e oleodutos para contornar esses problemas. Já a Rússia também diversifica seus parceiros e é uma parceira-chave aos planos chineses por ter projetos como o Power of Siberia [Força da Sibéria] que vai ampliar o gás russo para a economia chinesa", discorre.

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Casa Branca e a 'política externa esquizofrênica'

Ao tentar cercar e influenciar na política interna dos Estados que mantêm parcerias comerciais com a China, os EUA acabam tomando decisões que não alcançam o resultado originalmente planejado e ainda acabam sendo prejudiciais a si, como analisa Conceição.

"A política externa da Casa Branca está um pouco esquizofrênica, termo que creio que seja apropriado nesse momento. Os EUA, ao cercarem a China a partir de seus parceiros, acabam resolvendo seu próprio problema. Apesar de ainda serem protagonistas no mercado energético, essas ações aceleram uma tendência de fragmentação da centralidade norte-americana no setor e no sistema internacional", observa.

Esse tipo de ação truculenta promovida pelo governo dos EUA também cria outro efeito colateral para as políticas formuladas no Salão Oval. Além da imagem internacional manchada, esse tipo de política agressiva acaba sendo benéfico para a China, tida pela atual administração da Casa Branca como principal rival, como disserta Ungaretti.

"Quando os Estados Unidos se desgastam cada vez mais na região e passam a ser considerados uma fonte de conflitos e de instabilidade, a China emerge como uma fonte de estabilidade como mercado para exportação, e isso reforça novamente a sua projeção, não somente no Oriente Médio, mas nas relações internacionais como um todo", conclui.

Em um mundo cada vez mais globalizado, com tecnologias avançadas capazes de interferir em infraestruturas críticas, a questão energética se torna crucial para qualquer país e, com isso a corrida por soberania energética, além de ter o potencial de promover novas rotas, também deixa o sistema-mundo ainda mais recrudescido.
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