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Contra a parede, resultados de ofensiva no Irã serão determinantes para futuro do governo Trump

© AP Photo / Luis M. AlvarezO presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarcando do avião presidencial Air Force One, em março de 2026
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarcando do avião presidencial Air Force One, em março de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 25.03.2026
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Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas projetam a importância dos ataques de Teerã para as eleições de meio de mandato em novembro, nos EUA.
O segundo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos tem sido marcado até aqui pelas contundentes ações de política externa do republicano. O que começou com ações no campo econômico, com o tarifaço, se estendeu para o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e, mais recentemente, a guerra ao lado de Israel contra o Irã.
Neste ano, o presidente republicano terá um bom termômetro da aceitação do seu governo com as eleições de meio de mandato, que renovam todos os assentos da Câmara e um terço do Senado. Além de um teste de popularidade, as midterms também serão essenciais para ditar os dois anos seguintes do comando de Trump, que hoje tem o controle das duas Casas.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmam que os resultados da ofensiva no Irã terão impacto direto nas urnas no fim do ano, em um cenário no qual o presidente republicano já sofre grande pressão interna.
Luiz Felipe Osório, professor de relações internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), explica que Trump é expoente de uma ala de republicanos que até pouco tempo atrás não era sequer majoritária dentro do partido. O rompimento dessa barreira, atrelado às causas que o empresário defende, causa uma pressão constante em seu governo.

"Há uma série de interesses em jogo que vão fazendo com que ele tenha, muitas vezes, uma política imprevisível e, até certo ponto, errática no plano internacional, tomando movimentos muito bruscos e que, muitas vezes, não parecem ser os mais inteligentes, de um ponto de vista geopolítico."

Para Osório, Trump leva consigo para a Casa Branca "setores ressentidos" da população norte-americana, desde apoiadores do lado derrotado na guerra civil até pessoas que perderam seus postos de trabalho com o esvaziamento industrial do país. No entanto, algumas pautas do empresário também são valorizadas pelos democratas.

"Trump agrada esses setores dos senhores da guerra, desses falcões, e tenta trazer para si uma popularidade, assim como aconteceu, por exemplo, com o sequestro de Maduro, que foi o combate ao chavismo na Venezuela. Este é um tema que unifica republicanos e democratas e que, de alguma maneira, conseguiu um apoio da máquina que está em torno dele."

Carlos Eduardo Martins, professor associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutor em sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), destaca que os índices de aprovação do governo Trump caíram desde o início da guerra. O especialista também lembra que o republicano foi eleito pela segunda vez com a expectativa de diminuir os financiamentos de conflitos, como o que acontece na Ucrânia.

"Trump manejou a ideia de intervenções rápidas. No entanto, essa intervenção no Irã está se prolongando, está se revelando extremamente prejudicial para a economia mundial e, inclusive, para a economia norte-americana, tendo se expressado em baixas consistentes das bolsas de valores dos EUA."

Na avaliação de Martins, o presidente republicano foi imprudente ao não seguir as orientações do Pentágono para evitar um conflito com o Irã.

"Trump tende a subestimar, confia muito na sua capacidade de blefar e intimidar. Entretanto, o que ele enfrentou foi uma liderança política islâmica, que valoriza inclusive o martírio. Portanto, a morte não é uma fonte suficiente de ameaça para fazer valer a rendição."

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A glória aos vencedores, o ostracismo aos derrotados

Os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã não seguem uma guerra convencional com bombardeios constantes, tampouco soldados em solo estrangeiro. Em uma situação como esta, a avaliação de vitoriosos e derrotados em um confronto se torna mais subjetiva, assim como os reflexos dessas ações nas urnas.
Como exemplo de impacto de popularidade, Osório cita a Guerra das Malvinas. Em 1982, a ditadura argentina realizou uma operação para tentar expulsar os britânicos do arquipélago ao sul do Atlântico. A investida, no entanto, não terminou bem-sucedida para Buenos Aires, que acumulou 649 mortos e mais de 11 mil soldados presos.
Politicamente, a derrota acelerou o processo da queda dos militares que comandavam a Argentina, enquanto a primeira-ministra Margaret Thatcher, mesmo pressionada por suas medidas de austeridade, se manteve no poder no Reino Unido até 1990.
A derrota de Trump, todavia, pode se apresentar não no campo de batalha nem só para ele. O professor de relações internacionais da UFRRJ destaca que o aumento da inflação causado pelo bloqueio parcial no estreito de Ormuz, por exemplo, impacta uma série de outros países além dos Estados Unidos.

"Os governos atuais têm cada vez menos capacidade de intervir na economia, em função de todo o processo que vivemos de privatizações, de concessões, de esvaziamento das competências soberanas estatais. Então, sem essa possibilidade, os Estados não conseguem uma blindagem sobre esses efeitos externos, muitas vezes aleatórios do mercado internacional, e vão simplesmente sendo solapados e levados de roldão para o olho do furacão."

Martins, por sua vez, acredita que seria necessário a guerra se prolongar, a dívida norte-americana crescer e o conflito causar uma crise econômica nos Estados Unidos para que um impeachment, por exemplo, seja aberto contra Trump.

"Ele ainda tem o apoio muito significativo de um tipo de eleitor, que é o eleitor republicano. Trump tem, hoje, o apoio de 80% dos republicanos ainda, o que é uma média muito mais alta do apoio que tinha [Richard] Nixon quando começou o processo de impeachment que resultou no seu afastamento. Nixon tinha uma aprovação média em torno de 30% e uma aprovação entre os republicanos que havia caído para 50%, 60%."

Para que o impeachment de fato aconteça, explica Martins, é necessário que os democratas vençam 20 dos 22 assentos republicanos em disputa nas eleições do Senado deste ano. Ainda assim, basta uma fração desse número para que os democratas controlem a Casa e exerçam outros tipos de pressão no presidente.

"O impacto mais direto [de uma vitória democrata] é que Trump teria dificuldades em aprovar o orçamento para 2027. A pretensão que ele tem de estabelecer um orçamento militar de US$ 1,5 trilhão [cerca de R$ 7,8 trilhões] dificilmente poderia ser aprovada. Trump também vai ter dificuldades com o orçamento que ele quer estabelecer para organismos repressivos, como o ICE [Serviço de Imigração e Alfândega, em tradução livre], e vai ter dificuldades também para manejar esse aparato da forma absolutamente livre como ele vem estabelecendo."

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