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Como a baía dos Porcos ainda define conflito entre EUA e Cuba 65 anos depois da invasão fracassada
Como a baía dos Porcos ainda define conflito entre EUA e Cuba 65 anos depois da invasão fracassada
Sputnik Brasil
Símbolo da resistência cubana, a fracassada tentativa de invasão militar da baía dos Porcos, patrocinada pelos EUA, em abril de 1961, foi um dos maiores... 17.04.2026, Sputnik Brasil
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A ilha caribenha continua sendo objeto de desejo dos EUA e vítima de boicotes e ameaças 65 anos depois do episódio.As mais recentes sanções que endureceram o bloqueio econômico histórico contra Cuba perduram há dois meses, desde que o governo de Donald Trump pressionou empresas e governos de outros países a não comercializar com Havana, sob pena de retaliações.O Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, desta sexta-feira (17) relembrou a data com especialistas que avaliaram o desenrolar do episódio até os dias de hoje.A professora Miriam Gomes Saraiva, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), lembrou que a Revolução Cubana, em 1959, deixou um gosto amargo ainda presente no imaginário do governo dos EUA, que tinha a ilha como extensão de seu território:Na época, os EUA treinaram e financiaram dissidentes cubanos que haviam saído da ilha.Para o diretor da Associação Cultural José Martí do Rio de Janeiro (ACJM-RJ), Eduardo Mergulhão, um dos motivos para o fracasso foi o fato de o governo estadunidense ter subestimado o poder e a unidade popular após a revolução.Sob a presidência de John Kennedy (1961–1963), a participação do órgão de inteligência, a CIA, na ação da baía dos Porcos foi ocultada propositalmente, esclareceu Mergulhão. A ideia era construir uma situação que aparentasse que os contrarrevolucionários estavam à frente.E a máscara caiu, afirmou Mergulhão, depois do fracasso da operação, que durou poucos dias e teve como consequência a morte de quatro pilotos estadunidenses.Ele lembrou que, um dia depois do fracasso da operação, o presidente cubano, Fidel Castro, declarou formalmente a ilha uma nação socialista.Ambos os entrevistados citaram que o fracasso impulsionou um apoio mais enfático da União Soviética ao governo cubano."Quando a União Soviética manda mísseis para Cuba, que acabam sendo negociados, mas não instalados, uma das negociações para que os mísseis não fossem instalados era que os Estados Unidos não invadissem Cuba."Mergulhão também frisou a importância da União Soviética para a manutenção do regime revolucionário cubano, não apenas do ponto de vista da segurança nacional, como também da soberania econômica:De lá para cá…Depois disso, além dos apoios a golpes de Estado e regimes ditatoriais, os EUA empreenderam na região três ações mais diretas pela contrarrevolução, na década de 1980: uma para derrubar o governo da Nicarágua; a invasão em Granada, no Caribe; e a invasão e o sequestro do general Manuel Noriega no Panamá.Esse tipo de estratégia de intervenção voltou a ocorrer em janeiro deste ano, com a invasão direta das Forças Armadas dos EUA na Venezuela e o sequestro do presidente do país sul-americano, Nicolás Maduro, que está preso nos EUA.Diferentemente dos democratas, que, durante os governos Barack Obama e Joe Biden, afrouxaram as restrições a Cuba, Trump aparenta seguir a Doutrina Monroe, avaliou a entrevistada, sob a qual os Estados Unidos intervinham com maior frequência na América Central e no Caribe no século XX, com o lema "América para os americanos".Nesse contexto, o direito internacional tem pouco ou nenhuma influência nos conflitos, segundo a professora, pois atende mais a quem tem capacidade de usufruí-lo:Já em Gaza, frisou, não será aplicado o mesmo critério que foi usado na Bósnia, de prender e levar a julgamento membros do governo de Israel responsáveis pelas ações contra os palestinos.Mergulhão, que também é professor aposentado de sociologia e história das redes estadual e municipal, defendeu que Cuba é um símbolo para a América Latina de movimentos guerrilheiros de libertação e solidariedade.Logo, justificou ele, derrotar a ilha mesmo agora é simbolicamente importante para um governo como o de Trump:Na opinião de Saraiva, a ausência de um setor interno que possa apoiar uma eventual intervenção na ilha é o principal obstáculo de Trump para invadir Cuba.Com doutorado em história pela UERJ e pós-doutorado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o professor argumentou que Cuba tem um governo constituído e eleito pelo poder popular, com orientação socialista, que possibilitou autonomia e justiça social, apesar dos percalços.O analista argumentou que o apoio internacional é fundamental para que o legado cubano de solidariedade e transformações sociais não se perca.Segundo ele, uma das frentes de investimento estrangeiro para levantar o país poderia ser o BRICS, grupo no qual Cuba ingressou recentemente como parceiro.
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Como a baía dos Porcos ainda define conflito entre EUA e Cuba 65 anos depois da invasão fracassada
21:05 17.04.2026 (atualizado: 15:52 20.04.2026) Especiais
Símbolo da resistência cubana, a fracassada tentativa de invasão militar da baía dos Porcos, patrocinada pelos EUA, em abril de 1961, foi um dos maiores constrangimentos estratégicos da política externa estadunidense durante a Guerra Fria.
A ilha caribenha continua sendo objeto de desejo dos EUA e vítima de boicotes e ameaças 65 anos depois do episódio.
As mais recentes sanções que endureceram o
bloqueio econômico histórico contra Cuba perduram há dois meses, desde que o
governo de Donald Trump pressionou empresas e governos de outros países a não comercializar com Havana, sob pena de retaliações.
O Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, desta sexta-feira (17) relembrou a data com especialistas que avaliaram o desenrolar do episódio até os dias de hoje.
A professora Miriam Gomes Saraiva, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), lembrou que a Revolução Cubana, em 1959, deixou um gosto amargo ainda presente no imaginário do governo dos EUA, que tinha a ilha como extensão de seu território:
"Havia muitas casas de norte-americanos que iam lá passar férias, usufruir de praia, cassinos e outros benefícios que a ilha tinha. A Revolução Cubana para eles é quase como se tirasse um pedaço do território deles, como se alguém hoje resolvesse tirar Porto Rico, por exemplo. A baía dos Porcos foi, talvez, uma última tentativa de tentar reverter o processo revolucionário, que já tinha mais de dois anos", disse.
Na época, os EUA treinaram e financiaram dissidentes cubanos que haviam saído da ilha.
Para o diretor da Associação Cultural José Martí do Rio de Janeiro (ACJM-RJ), Eduardo Mergulhão, um dos motivos para o fracasso foi o fato de o governo estadunidense ter subestimado o poder e a unidade popular após a revolução.
"Eles [EUA] pensavam que teriam a adesão de pelo menos 35 mil pessoas de imediato, e isso não aconteceu […]. Já havia uma presença da Revolução Cubana no seio do povo, já tinha havido melhoras substanciais em apenas um ano, com a reforma urbana, a reforma agrária, a construção de cooperativas, a construção de estradas, a alimentação. Isso foi fundamental."
Sob a presidência de John Kennedy (1961–1963), a participação do órgão de inteligência, a CIA, na ação da baía dos Porcos foi ocultada propositalmente, esclareceu Mergulhão. A ideia era construir uma situação que aparentasse que os contrarrevolucionários estavam à frente.
"A CIA faria o apoio, e, se houvesse realmente a cabeça de ponte formada, estruturada naquele setor, […] aí sim os Estados Unidos, através da OEA, participariam diretamente. Ou seja, acabaria essa máscara."
E a máscara caiu, afirmou Mergulhão, depois do fracasso da operação, que durou poucos dias e teve como consequência a morte de quatro pilotos estadunidenses.
Ele lembrou que, um dia depois do fracasso da operação, o presidente cubano, Fidel Castro, declarou formalmente a ilha uma nação socialista.
"A partir da declaração do caráter socialista, um dia depois o diplomata soviético na ONU assume a solidariedade a Cuba e coloca claramente a necessidade de os Estados Unidos respeitarem a autodeterminação do povo cubano, e que seria solidário de uma forma mais profunda se a invasão continuasse."
Ambos os entrevistados citaram que o fracasso impulsionou um apoio mais enfático da União Soviética ao governo cubano.
"Quando a União Soviética
manda mísseis para Cuba, que acabam sendo negociados, mas não instalados, uma das negociações para que os mísseis não fossem instalados era que os Estados Unidos não invadissem Cuba."
Mergulhão também frisou a importância da União Soviética para a manutenção do regime revolucionário cubano, não apenas do ponto de vista da segurança nacional, como também da soberania econômica:
"Cuba precisava não só de um mercado consumidor para o seu açúcar, para os seus produtos, mas precisava também de créditos, precisava de créditos seguros, um mercado seguro, precisava de petróleo, precisava de energia. A União Soviética foi fundamental."
Depois disso, além dos apoios a golpes de Estado e regimes ditatoriais, os EUA empreenderam na região três ações mais diretas pela contrarrevolução, na década de 1980: uma para derrubar o governo da Nicarágua; a invasão em Granada, no Caribe; e a invasão e o sequestro do general Manuel Noriega no Panamá.
Esse tipo de estratégia de intervenção voltou a ocorrer em janeiro deste ano, com a invasão direta das Forças Armadas dos EUA na Venezuela e o
sequestro do presidente do país sul-americano, Nicolás Maduro, que está preso nos EUA.
Diferentemente dos democratas, que, durante os governos Barack Obama e Joe Biden, afrouxaram as restrições a Cuba,
Trump aparenta seguir a Doutrina Monroe, avaliou a entrevistada, sob a qual os Estados Unidos intervinham com maior frequência na América Central e no Caribe no século XX,
com o lema "América para os americanos".
Nesse contexto, o direito internacional tem pouco ou nenhuma influência nos conflitos, segundo a professora, pois atende mais a quem tem capacidade de usufruí-lo:
"Países que têm o poder, ou que têm aliados, […] conseguem, a partir do direito internacional, fazer valer os seus interesses. Na guerra que houve na Bósnia, a guerra civil horrível, os líderes envolvidos foram presos, porque aquela guerra perturbava a Europa."
Já em Gaza, frisou, não será aplicado o mesmo critério que foi usado na Bósnia, de prender e levar a julgamento membros do governo de Israel responsáveis pelas ações contra os palestinos.
"Israel, em função das alianças que tem no cenário internacional, consegue fazer valer a sua soberania e não se dobra ao direito internacional. É isso, dobra-se aquele que não tem como resistir."
Mergulhão, que também é professor aposentado de sociologia e história das redes estadual e municipal, defendeu que Cuba é um símbolo para a América Latina de movimentos guerrilheiros de libertação e solidariedade.
Logo, justificou ele, derrotar a ilha mesmo agora é simbolicamente importante para um governo como o de Trump:
"É aquele país que é uma ilha pobre de recursos, etc., mas que teve conquistas sociais enormes, na saúde, na educação […]. Os Estados Unidos têm muito mais necessidade de demonstrar sua força em relação a Cuba", opinou.
Na opinião de Saraiva, a ausência de um setor interno que possa apoiar uma eventual intervenção na ilha é o principal obstáculo de Trump para invadir Cuba.
Com doutorado em história pela UERJ e pós-doutorado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o professor argumentou que Cuba tem um governo constituído e eleito pelo poder popular, com orientação socialista, que possibilitou autonomia e justiça social, apesar dos percalços.
"Hoje, quando Cuba está sendo ameaçada de ser invadida ou bombardeada, é muito bom resgatar o aniversário de Playa Girón [local da tentativa de invasão]. […] a Revolução Cubana produziu uma série de conquistas populares importantes", pontuou.
O analista argumentou que o apoio internacional é fundamental para que o legado cubano de solidariedade e transformações sociais não se perca.
"Vários bancos deixaram de ter qualquer tipo de relação com Cuba. É preciso dizer que, mesmo antes da intensificação do bloqueio por Trump, um navio mercante que chegava a Cuba […] ficava de quatro a seis meses sem entrar nos Estados Unidos. O bloqueio é violentíssimo".
Segundo ele, uma das frentes de investimento estrangeiro para levantar o país poderia ser o BRICS, grupo no qual Cuba ingressou recentemente como parceiro.
"É preciso investimento em Cuba, em tecnologia, em infraestrutura. Hoje a China ajuda Cuba com painéis solares, mas é preciso investimento em tecnologia", defendeu.
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