Prioridade a Ormuz nas conversas Irã‑EUA aumenta tensão com o golfo sobre ameaças regionais

© AP Photo / Altaf Qadri
Nos siga no
Irã e EUA avançam em negociações que priorizam o controle do estreito de Ormuz e o enriquecimento nuclear, enquanto Estados do golfo alertam que essa mudança ignora ameaças como mísseis e grupos armados, consolidando a influência iraniana sobre a rota energética mais vital do mundo.
Os Estados do golfo veem com crescente inquietação a possibilidade de que a reabertura do estreito de Ormuz seja o limite máximo das negociações entre Irã e Estados Unidos, sem avançar para a desescalada mais ampla que consideram indispensável. Um alerta do presidente russo Dmitry Medvedev cristalizou esses temores, ao sugerir que Ormuz se tornou a principal arma estratégica de Teerã.
De acordo a Reuters, autoridades e analistas afirmam que a próxima rodada de negociações em Islamabad tende a priorizar o enriquecimento de urânio e a gestão da influência iraniana sobre Ormuz, deixando de lado temas como mísseis e grupos armados.
Para os países do golfo, isso equivale a aceitar o domínio iraniano sobre a rota energética mais crítica do mundo, privilegiando a estabilidade econômica global enquanto suas próprias preocupações de segurança permanecem marginalizadas.
Segundo a apuração, fontes regionais dizem que a diplomacia entre Washington e Teerã deslocou o foco: já não se trata de reverter o programa de mísseis iraniano, mas de negociar níveis de enriquecimento e uma aceitação tácita da influência de Teerã sobre o estreito, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial. Mesmo com impasses sobre o envio de estoques de urânio ao exterior, a mudança de prioridades é vista como alarmante.
A percepção de que Ormuz se tornou a "linha vermelha" domina as avaliações no golfo. O estreito, antes tratado como um tabu estratégico, passou a ser visto como uma alavanca realista nas negociações, especialmente após as ameaças iranianas à navegação durante a guerra. Medvedev reforçou essa visão ao descrever Ormuz como uma espécie de "arma nuclear" geográfica de potencial inesgotável.
Fontes iranianas confirmam essa leitura, afirmando que o país se preparou durante anos para um cenário de fechamento do estreito e que agora o utiliza como instrumento de dissuasão. Uma delas descreveu Ormuz à mídia britânica como um ativo "valioso e inestimável", impossível de ser retirado do Irã por estar enraizado em sua geografia. Outra afirmou que o tabu sobre seu uso foi quebrado, comparando o estreito a uma espada já desembainhada.
O que mais preocupa os Estados do golfo é que, enquanto mísseis, drones e grupos armados iranianos continuam a ameaçar suas cidades e infraestrutura, as negociações internacionais se concentram quase exclusivamente em Ormuz devido ao impacto econômico global. Isso reforça a sensação de que suas vulnerabilidades são ignoradas em favor de prioridades externas.
Ainda segundo analistas que falaram à apuração e autoridades do golfo, a disputa sobre Ormuz não diz respeito apenas ao controle físico do estreito, mas a quem define as regras de passagem. Essa mudança reflete uma transição de normas internacionais estáveis para arranjos baseados no poder.
Enquanto isso, as economias do golfo já absorvem os custos da guerra, desde ataques à infraestrutura energética até o aumento de seguros e rotas alternativas vulneráveis.
Diplomatas afirmam que os países da região pedem cautela a Washington quanto ao alívio das sanções, insistindo que as principais ameaças — mísseis e grupos armados apoiados pelo Irã — permanecem sem solução.



