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Condenado por racismo, Zé Maria diz que sentença 'não tem pé nem cabeça' e ataca projeto de Tabata Amaral

© Sputnik / Guilherme CorreiaZé Maria, presidente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).
Zé Maria,  presidente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). - Sputnik Brasil, 1920, 30.04.2026
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A Justiça Federal em São Paulo condenou o presidente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), José Maria de Almeida, conhecido como Zé Maria, a dois anos de prisão pelo crime de racismo por discurso feito em ato pró-Palestina na Avenida Paulista em outubro de 2023.
A pena, em regime aberto, foi convertida em medidas restritivas de direitos: pagamento de dez salários mínimos a uma entidade social e prestação de serviços à comunidade.
A sentença foi assinada pelo juiz federal Massimo Palazzolo, da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, que concluiu que a manifestação de Zé Maria ultrapassa a esfera do debate político legítimo e assume conotação discriminatória, atentando contra a dignidade do povo judeu.
Em entrevista à Sputnik Brasil, o dirigente afirmou que a decisão "não tem pé nem cabeça". "Não tem fundamento, nem do ponto de vista histórico-político e muito menos do ponto de vista legal."
Zé Maria destacou que não é a primeira vez que passa por uma condenação judicial. Ele disse ter sido preso quatro vezes durante a ditadura militar e ter sido condenado a dois anos e meio de prisão pela Auditoria de Guerra de São Paulo em 1980, pena que foi depois derrubada no Superior Tribunal Militar em Brasília. "Por alguma razão, nós temos tanto tempo de luta para mudar essa situação em que vivemos, porque é uma situação esdrúxula mesmo. Mas, por outro lado, é parte da vida, é parte dessa luta nossa."
O dirigente contestou o argumento central da acusação, que equipara críticas ao sionismo a antissemitismo, classificando essa tese como politicamente motivada e historicamente refutada. "Ela se baseia no argumento surrado que o sionismo utiliza no mundo inteiro para defender aquilo que é indefensável, que é o genocídio que eles fazem contra os palestinos, e para tentar calar as vozes que criticam essa situação, que é equiparar antisionismo e antissemitismo, como se criticar o sionismo fosse criticar o povo judeu. E essa tese é completamente refutada por tudo quanto é estudo sério que existe sobre esse tema."
"Os semitas são povos de um determinado ramo linguístico que povoa a região há séculos, dos quais fazem parte os hebreus, os antepassados dos judeus, e também os próprios palestinos, são semitas também. Sionista é um membro de um movimento político organizado em base a uma ideologia que é racista e colonialista. Misturam essas coisas que são completamente diferentes para tentar dizer que quem critica o sionismo está criticando o povo judeu. Ou que quem defende o fim do Estado de Israel está defendendo morte aos judeus. E não tem nada a ver uma coisa com a outra."
O presidente do PSTU comparou a situação ao apartheid sul-africano para explicar o que entende por "fim do Estado de Israel". "Assim como na África do Sul, praticamente a humanidade inteira defendia o fim do Estado de apartheid, não era a morte aos brancos, era para que os brancos pudessem conviver de igual para igual com os negros numa sociedade democrática."
"Defender o fim do Estado de Israel hoje é defender o fim de um Estado que é racista e colonialista, para que todos que vivem naquela região, os judeus, os palestinos, as outras etnias, possam viver lado a lado, de igual para igual, numa sociedade que seja democrática, que seja laica. É isso que a gente quer dizer quando fala em Palestina livre do Rio ao Mar. É uma Palestina onde possam viver todos, inclusive os judeus que estão lá."
Zé Maria também recorreu à tradição diplomática brasileira para contestar a base legal da condenação. Segundo ele, o Brasil classificou o sionismo como ideologia racista por décadas, retirando a classificação formal apenas a pedido da OLP durante as negociações dos Acordos de Oslo.
O processo foi movido pela Confederação Israelita do Brasil (Conib) e pela Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp), entidades que ingressaram no Ministério Público com queixa-crime por discurso de ódio.
O dirigente classifica a condenação como um precedente perigoso para a liberdade de expressão no Brasil, e afirmou que a resposta do PSTU vai além do recurso judicial.
"Se isso se transforma em rotina, ninguém mais vai poder criticar Israel. O que a sentença fez foi escolher proteger o genocídio e negar o direito de expressão daqueles que criticam o genocídio. Não tem sentido isso, nem do ponto de vista legal, nem do ponto de vista político, nem do ponto de vista humano. Isso pode se transformar em prática. Está se transformando em prática nos Estados Unidos, onde leis consideram o Hamas terrorista e qualquer um que defenda a Palestina é tratado como terrorista. Nós não precisamos chegar nesse ponto no Brasil, não podemos chegar nesse ponto."

PL de Tabata Amaral

A deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) apresentou o Projeto de Lei 1.424/2026, em 26 de março, adotando os parâmetros da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA) na definição de antissemitismo para instruir políticas públicas nacionais.
A proposta perdeu o apoio de oito parlamentares dias após ser apresentada, seis deles do Partido dos Trabalhadores (PT), após pressão nas redes sociais acusando o texto de blindar Israel de críticas.
Zé Maria atacou diretamente a proposta, dizendo que o juiz que o condenou antecipou o que o PL prometia.

"Nossa luta é para, em primeiro lugar, reverter essa visão, não só pela anulação da sentença, mas também para que se garanta o direito de expressão de todo cidadão brasileiro, pela rejeição desse projeto da Tabata Amaral e para reafirmar a defesa da luta do povo palestino e o repúdio ao genocídio praticado por Israel."

Nesse processo, apesar de admitir sentir revolta quanto à decisão, Zé Maria também afirmou ter sido surpreendido por manifestações de solidariedade, incluindo figuras e organizações com quem o PSTU tem divergências.
Sobre o conflito em si, ele disse que não há possibilidade de paz na região sem o fim do Estado de Israel, que descreveu como uma base militar a serviço dos interesses imperialistas norte-americanos e europeus.
Ele entende que governos ocidentais sabem disso e agem de forma calculada. "Os governos europeus protestam: 'Ah, não pode fazer isso aí'. Os Estados Unidos de vez em quando falam: 'Não, chegou, deu o limite'. Mas quando é necessário, soltam o cachorro louco. Porque tem que garantir os seus interesses na região. Não tem como ter paz naquela região, ou como aquelas pessoas viverem com mínimo de democracia, sem acabar com o Estado de Israel. Essa coisa de dois Estados, tudo isso é pura ilusão, é ficção."
Sobre os brasileiros mortos em Gaza e a interceptação da flotilha humanitária por Israel, Zé Maria disse que o desrespeito aos cessar-fogos tem a ver com o próprio caráter daquele Estado. "Que Israel não respeite nenhum cessar-fogo não é novidade. Desde que expulsou uma parte da população palestina para instalar o Estado de Israel, ele desrespeita sistematicamente todas as decisões do Conselho de Segurança da ONU em relação à região. Ao cessar-fogo em vigência, ele segue matando os palestinos em Gaza e agora matando libaneses no sul do Líbano. Matou quase a metade de uma família brasileira esses dias."
"Você vê isso no plenário, televisionado no mundo todo, em 2026. É um escândalo que não haja uma revolta mundial das instituições, dos Estados, contra uma coisa dessa. Por que não há? Porque os interesses são os mesmos. Agora, em algum momento as populações vão reagir e a gente cria as condições para mudar essa situação, porque isso é um absurdo."

PSTU

Zé Maria também aproveitou a entrevista para fazer um balanço severo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com quem o PSTU não fará aliança nas eleições de 2026. Segundo ele, o PT abriu mão de qualquer elemento programático ao se aliar ao empresariado.
Ele também alertou para os perigos de se ceder as terras raras brasileiras, no estado de Goiás, para Washington.
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Sobre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Zé Maria afirmou que ele representa a face mais perigosa da direita justamente por ser mais contida. "O governo de Tarcísio é expressão de um governo de extrema direita entre aspas civilizado. Ele faz um tipo diferente das grosserias do [Jair] Bolsonaro, mas em termos de conteúdo é exatamente a mesma coisa. Justamente por isso, talvez seja mais perigoso inclusive um governo como esse do que o Bolsonaro, que fala abertamente as baboseiras que eles pensam."
Para o dirigente, o avanço das privatizações em São Paulo, incluindo agora as escolas, é parte de um projeto deliberado.
Zé Maria criticou também a política de segurança pública paulista, classificando-a como instrumento de contenção política.
"A polícia voltou a matar de uma forma indiscriminada as pessoas. É claramente uma política de Estado voltada para conter, em última instância, qualquer revolta nos setores mais pobres da população. A máscara que colocam nisso é o tal combate ao crime organizado. Se vocês querem fazer direito, têm que fazer aqui na Faria Lima. Não é lá na favela, porque lá na favela estão os meninos que, até por falta de alternativa, às vezes trabalham para o tráfico. A polícia vai lá, mata esses meninos, bota outro no lugar, e não vai resolver nada do tráfico de drogas. Essa política de guerra às drogas se aplica no Brasil há décadas e a única coisa que cresceu de lá para cá foi a violência."
Sobre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o discurso de combate ao crime organizado na América Latina, ele completou: "A conversa fiada do Trump é essa coisa de querer combater crime organizado. Se ele quisesse mesmo, teria que procurar em Wall Street. O que ele utiliza é um artifício, um subterfúgio com esse discurso, para construir uma condição de ingerência política e econômica nos países e favorecer os monopólios americanos."
"O que ele queria na Venezuela era acabar com o crime organizado? Não. Queria o petróleo. Quando ameaça atacar países da América Latina e classifica o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, isso é desculpa para pressionar os países e obter controle dos seus recursos naturais."
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