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Brasil teve forte papel na abertura do setor elétrico da Bolívia a empresas privadas, diz analista
Brasil teve forte papel na abertura do setor elétrico da Bolívia a empresas privadas, diz analista
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Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a medida contribui para a integração energética da América Latina e para os... 07.05.2026, Sputnik Brasil
2026-05-07T16:12-0300
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O governo da Bolívia abriu o mercado de energia à concorrência do setor privado, passando a permitir que empresas privadas passem a exportar e importar energia elétrica. A medida foi feita por meio do Decreto 5598 e representa uma mudança de paradigma relevante no modelo do setor do país. O objetivo é ampliar o acesso interno à energia e, ao mesmo tempo, fortalecer a posição boliviana na integração energética regional.A medida se trata muito mais de pragmatismo econômico e energético do que uma ruptura ideológica no país, aponta ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Gabriel Vergara, mestre em engenharia mecânica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do grupo Cidades Educadoras, Inteligentes e Sustentáveis (CEIS).Ele acrescenta que a Bolívia faz fronteira com cinco países — Peru, Brasil, Argentina, Paraguai e Chile —, além de estar situada entre os eixos do Atlântico e do Pacífico, e diz que o governo boliviano vem definindo explicitamente a ideia de que o país pode atuar como um hub logístico e energético regional."No entanto, tornar-se um hub energético vai depender de muito mais do que isso. Ele exige investimento elevado em linhas de transmissão, interconexões internacionais, estabilidade regulatória e também acordos bilaterais de longo prazo. Ou seja, a abertura do setor privado é uma condição necessária, mas ainda não suficiente para que tenha essa transformação."Nesse processo, Vergara aponta que o principal risco é que, sem uma regulação forte e clara, a Bolívia possa trocar o monopólio estatal por uma dependência privada, inclusive de grupos estrangeiros. Ele frisa que o setor elétrico é visto como estratégico pelo país para a segurança nacional e em termos de soberania energética, e destaca que experiências de privatizações na década de 1990 geraram tensões políticas e sociais que culminaram em posterior nacionalização.A medida também favorece a integração regional por remover o que Vergara chama de "gargalo histórico", que é o monopólio estatal das interconexões internacionais. Ele explica que, tendo mais agentes no setor, a Bolívia passa a ter maior flexibilidade para trocas de energia, aproveitamento de complementaridades sazonais e integração de fontes renováveis."Então esse movimento converge com agendas regionais defendidas pelo Brasil, por organismos multilaterais e por fóruns sul-americanos que veem a integração elétrica como fator de redução de custos, de aumento da segurança energética e de apoio à transição energética, que é tão falada hoje."Segundo Victor Hugo Acarapi Castro, pesquisador especializado em economia política internacional e doutorando no tema da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre as empresas latino-americanas que já sinalizaram a entrada no mercado elétrico boliviano, a Eletrobras é uma das mais significativas em termos de escala e interesse declarado. Porém, ele afirma que a assimetria entre a Eletrobras e a estatal boliviana de energia ENDE, uma empresa de médio porte no contexto regional, traz riscos de subordinação."A Eletrobras é uma das maiores empresas da América Latina, com capacidade de dezenas de milhares de watts, acesso a mercados de capitais internacionais e décadas de experiência operando em contextos regulatórios complexos. Quando essas duas empresas operam no mesmo mercado, a assimetria não é apenas de tamanho; pode ser até de capacidade de negociação", afirma o especialista.Ele enfatiza que a Bolívia tem excedente energético, mas o Brasil tem capital e tecnologia. Com o decreto, as empresas brasileiras poderão construir e operar linhas de transmissão no solo boliviano. E, quando um país tem um grande comprador para seu produto energético, esse comprador acaba ditando o preço.Castro diz que a abertura do setor elétrico boliviano era uma medida há muito tempo desejada pelo Brasil, que ele afirma ter influenciado de maneira decisiva esse processo desde 2024, algo que chegou a ser confirmado pelo ex-ministro de Hidrocarbonetos e Energia da Bolívia Mauricio Medinaceli Monrroy em entrevista à mídia boliviana."O próprio ex-ministro Medinaceli confirmou isso sem rodeios. O decreto surgiu de conversas com o Lula. É uma declaração oficial do próprio governo boliviano", destaca Castro.Ele avalia que o Brasil impulsionou a medida com tanta determinação por três motivos. O primeiro é econômico: o mercado elétrico brasileiro tem um déficit energético recorrente, principalmente nos períodos de estiagem, quando as usinas hidrelétricas reduzem sua geração.O segundo motivo é estrutural. Castro explica que as empresas brasileiras interessadas em investir em linhas de transmissão no território boliviano exigiam condições que o marco anterior não lhes oferecia."Uma delas era a segurança jurídica, e a outra era o marco normativo que garante a livre concorrência compatível com o mercado brasileiro. O decreto 5598 lhes oferece exatamente isso."O terceiro fator é geopolítico. Castro lembra que o presidente boliviano, Rodrigo Paz, revelou em uma entrevista que, quando se encontrou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma reunião bilateral no Brasil, ouviu do líder brasileiro que "um ex-presidente não queria uma integração profunda com o Brasil porque dizia que a Pacha Mama [Terra Mãe, na cultura andina] não queria".
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américas, evo morales, américa latina, eletrobras, bolívia, brasil, energia, integração regional, luiz inácio lula da silva, setor energético, monopólio, exclusiva, podcast, mundioka
Brasil teve forte papel na abertura do setor elétrico da Bolívia a empresas privadas, diz analista
16:12 07.05.2026 (atualizado: 17:51 07.05.2026) Especiais
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a medida contribui para a integração energética da América Latina e para os planos do país de se tornar um hub logístico regional, mas destacam que, em paralelo, o país corre o risco de ficar sujeito às condições do Brasil.
O governo da Bolívia abriu o mercado de energia à concorrência do setor privado, passando a permitir que empresas privadas passem a exportar e importar energia elétrica. A medida foi feita por meio do Decreto 5598 e representa uma mudança de paradigma relevante no modelo do setor do país. O objetivo é ampliar o acesso interno à energia e, ao mesmo tempo, fortalecer a posição boliviana na
integração energética regional. A medida se trata muito mais de pragmatismo econômico e energético do que uma ruptura ideológica no país, aponta ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Gabriel Vergara, mestre em engenharia mecânica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do grupo Cidades Educadoras, Inteligentes e Sustentáveis (CEIS).
"Isso ocorre principalmente porque a Bolívia acaba enfrentando limitações estruturais — uma alta demanda das termoelétricas a gás natural e queda das reservas desse recurso —, e então há a necessidade de atrair investimentos para geração e infraestrutura", afirma.
Ele acrescenta que a Bolívia faz fronteira com cinco países — Peru, Brasil, Argentina, Paraguai e Chile —, além de estar situada entre os eixos do Atlântico e do Pacífico, e diz que o governo boliviano vem definindo explicitamente a ideia de que o país pode atuar como um hub logístico e energético regional.
"No entanto, tornar-se um hub energético vai depender de muito mais do que isso. Ele exige investimento elevado em linhas de transmissão, interconexões internacionais, estabilidade regulatória e também acordos bilaterais de longo prazo. Ou seja, a abertura do setor privado é uma condição necessária, mas ainda não suficiente para que tenha essa transformação."
Nesse processo, Vergara aponta que o principal risco é que, sem uma regulação forte e clara, a Bolívia possa trocar o monopólio estatal por uma dependência privada, inclusive de grupos estrangeiros. Ele frisa que o setor elétrico é visto como estratégico pelo país para a segurança nacional e em termos de soberania energética, e destaca que experiências de privatizações na década de 1990 geraram tensões políticas e sociais que culminaram em posterior nacionalização.
"Por isso, o próprio governo boliviano tem ressaltado que a abertura ocorre principalmente sem abdicar do papel regulador do Estado", observa o analista.
A medida também favorece a integração regional por remover o que Vergara chama de "gargalo histórico", que é o monopólio estatal das interconexões internacionais. Ele explica que, tendo mais agentes no setor, a Bolívia passa a ter maior flexibilidade para trocas de energia, aproveitamento de complementaridades sazonais e integração de fontes renováveis.
"Então esse movimento converge com agendas regionais defendidas pelo Brasil, por organismos multilaterais e por fóruns sul-americanos que veem a integração elétrica como fator de redução de custos, de aumento da segurança energética e de apoio à transição energética, que é tão falada hoje."

27 de novembro 2024, 00:32
Segundo Victor Hugo Acarapi Castro, pesquisador especializado em economia política internacional e doutorando no tema da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre as empresas latino-americanas que já sinalizaram a entrada no mercado elétrico boliviano, a Eletrobras é uma das mais significativas em termos de escala e interesse declarado. Porém, ele afirma que a assimetria entre a Eletrobras e a estatal boliviana de energia ENDE, uma empresa de médio porte no contexto regional, traz riscos de subordinação.
"A Eletrobras é uma das maiores empresas da América Latina, com capacidade de dezenas de milhares de watts, acesso a mercados de capitais internacionais e décadas de experiência operando em contextos regulatórios complexos. Quando essas duas empresas operam no mesmo mercado, a assimetria não é apenas de tamanho; pode ser até de capacidade de negociação", afirma o especialista.
Ele enfatiza que a Bolívia tem excedente energético, mas o Brasil tem capital e tecnologia. Com o decreto, as empresas brasileiras poderão construir e operar linhas de transmissão no solo boliviano. E, quando um país tem um grande comprador para seu produto energético, esse comprador acaba ditando o preço.
"Isso se chama de monopólio de compra. Se a Bolívia não conseguir diversificar a exportação de energia, ficará sujeita às condições do Brasil. Se o Brasil estiver disposto a oferecer um preço, a Bolívia vai ter que aceitar, porque vai ser o único comprador."
Castro diz que a abertura do setor elétrico boliviano era uma medida há muito tempo desejada pelo Brasil, que ele afirma ter influenciado de maneira decisiva esse processo desde 2024, algo que chegou a ser confirmado pelo ex-ministro de Hidrocarbonetos e Energia da Bolívia Mauricio Medinaceli Monrroy em entrevista à mídia boliviana.
"O próprio ex-ministro Medinaceli confirmou isso sem rodeios. O decreto surgiu de conversas com o Lula. É uma declaração oficial do próprio governo boliviano", destaca Castro.
Ele avalia que
o Brasil impulsionou a medida com tanta determinação por três motivos. O primeiro é econômico:
o mercado elétrico brasileiro tem um déficit energético recorrente, principalmente nos períodos de estiagem, quando as usinas hidrelétricas reduzem sua geração.
"É melhor comprar os excedentes bolivianos produzidos com gás subsidiado a preço muito abaixo do mercado internacional. É substancialmente mais barato do que gerar energia térmica própria. Do ponto de vista brasileiro, penso que a Bolívia é um fornecedor de energia barato."
O segundo motivo é estrutural. Castro explica que as empresas brasileiras interessadas em investir em linhas de transmissão no território boliviano exigiam condições que o marco anterior não lhes oferecia.
"Uma delas era a segurança jurídica, e a outra era o marco normativo que garante a livre concorrência compatível com o mercado brasileiro. O decreto 5598 lhes oferece exatamente isso."
O terceiro fator é geopolítico. Castro lembra que o presidente boliviano, Rodrigo Paz, revelou em uma entrevista que, quando se encontrou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em uma reunião bilateral no Brasil, ouviu do líder brasileiro que "um ex-presidente não queria uma integração profunda com o Brasil porque dizia que a Pacha Mama [Terra Mãe, na cultura andina] não queria".
"Ele estava se referindo ao Evo Morales. O Evo Morales não queria uma profunda integração com o Brasil. Aí a mensagem é clara, que o Rodrigo Paz é diferente. Essa frase resume 20 anos de resistência boliviana com a integração profunda com o Brasil. Agora, poucos meses após a posse do governo do Rodrigo Paz, a Bolívia assinou o decreto que o Brasil precisava."
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