Terra atravessa 'nuvem de supernovas' que deixa poeira estelar presa no gelo antártico (IMAGENS)

© Foto / Alfred Wegener Institute/Esther Horvath
Nos siga no
A chuva de um isótopo radioativo do ferro (ferro‑60) preservada no gelo antártico revela que o Sistema Solar atravessa há pelo menos 80 mil anos uma nuvem interestelar moldada por antigas supernovas, deixando no planeta um raro registro da nossa viagem pela vizinhança galáctica.
A Terra e o Sistema Solar não viajam imóveis pelo espaço: eles descrevem uma lenta órbita ao redor do centro da Via Láctea, atravessando regiões cuja história raramente conseguimos reconstruir. Agora, novos indícios preservados no gelo antártico oferecem pistas sobre por onde passamos nessa jornada cósmica, revelando marcas deixadas por antigas explosões estelares.
Pesquisadores liderados por Dominik Koll identificaram no gelo isótopos raros de ferro que funcionam como rastros da passagem do Sistema Solar por uma nuvem interestelar repleta de poeira de supernova. Esses detritos, ejetados por estrelas mortas há milhões de anos, ficaram presos no gelo acumulado camada após camada ao longo de dezenas de milhares de anos.

Escultura de gelo criada a partir de seções de gelo remanescentes do corte de varetas de Análise de Fluxo Contínuo (CFA, na sigla em inglês) em seções rasas do núcleo BID ALHIC23-2.

Amostra de núcleo de gelo retirada da perfuração.

3/4
© Foto / B. Schröder/HZDR/NASA Goddard/Adler/U Chicago/WesleyanImage
Um diagrama ilustrando como a distribuição de ferro-60 em um núcleo de gelo se relaciona com a jornada da Terra através da Nuvem Interestelar Local.

A Nebulosa do Caranguejo é um remanescente de supernova, tudo o que restou de uma tremenda explosão estelar. Observadores na China e no Japão registraram a supernova há quase 1.000 anos, em 1054.
Escultura de gelo criada a partir de seções de gelo remanescentes do corte de varetas de Análise de Fluxo Contínuo (CFA, na sigla em inglês) em seções rasas do núcleo BID ALHIC23-2.
Amostra de núcleo de gelo retirada da perfuração.
3/4
© Foto / B. Schröder/HZDR/NASA Goddard/Adler/U Chicago/WesleyanImage
Um diagrama ilustrando como a distribuição de ferro-60 em um núcleo de gelo se relaciona com a jornada da Terra através da Nuvem Interestelar Local.
A Nebulosa do Caranguejo é um remanescente de supernova, tudo o que restou de uma tremenda explosão estelar. Observadores na China e no Japão registraram a supernova há quase 1.000 anos, em 1054.
Segundo os pesquisadores, a Antártida se tornou uma espécie de arquivo natural da atmosfera terrestre já que a neve que cai há 35 milhões de anos captura partículas do ar e as preserva em sucessivas camadas comprimidas. Ao perfurarem esse registro vertical, cientistas conseguem recuperar mudanças ambientais e até vestígios de eventos cósmicos que atingiram o planeta.
Em 2019, a equipe de Koll encontrou ferro‑60 em neve recente. Agora, o mesmo isótopo aparece em núcleos de gelo com idades entre 40 mil e 81 mil anos. Como o ferro‑60 só se forma em condições extremas, como supernovas, e sua meia‑vida é curta em termos geológicos, qualquer quantidade detectada hoje precisa ter vindo do espaço interestelar.
A presença desse material em sedimentos oceânicos e na neve moderna já sugeria que o Sistema Solar atravessa uma região enriquecida por supernovas. A nova detecção em gelo antigo aprofunda essa hipótese, indicando que a passagem por essa nuvem não é recente, mas contínua ao longo de dezenas de milhares de anos.
Para medir o isótopo, os cientistas analisaram 295 quilos de gelo do projeto EPICA, derretendo as amostras e contando os raríssimos átomos de ferro‑60. As concentrações encontradas superam o que poderia ser produzido por raios cósmicos, reforçando a origem interestelar do material.
O dado mais intrigante é que o gelo antigo contém menos ferro‑60 do que a neve atual. Isso sugere que o Sistema Solar entrou primeiro em uma região mais rarefeita da Nuvem Interestelar Local e, posteriormente, em uma parte mais densa — onde ainda se encontra. O gelo antártico, portanto, registra a estrutura interna dessa nuvem, revelando variações na quantidade de poeira enriquecida por supernovas.
As conclusões apontam que a Nuvem Interestelar Local funciona como um arquivo cósmico de ferro‑60, permitindo rastrear a evolução do ambiente interestelar ao longo de 80 mil anos. Para os autores, esse registro preservado no gelo terrestre abre uma rara janela para compreender a história recente da vizinhança galáctica e a interação contínua entre o Sistema Solar e os restos de estrelas explodidas.



