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Pesquisadora: Alemanha concentra a maioria dos fósseis brasileiros retirados irregularmente do país (VÍDEOS)

Fósseis do Brasil são alvos de tráfico para o exterior
Fósseis do Brasil são alvos de tráfico para o exterior - Sputnik Brasil, 1920, 29.05.2026
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A reivindicação de pesquisadores brasileiros pela repatriação de fósseis e outros artefatos que foram levados irregularmente para fora do Brasil reacende o debate sobre o chamado colonialismo científico, prática pela qual centros de pesquisa, museus e colecionadores, principalmente dos EUA e da Europa, acumulam itens de países em desenvolvimento.
Nesse sentido, paleontólogos brasileiros iniciaram um estudo focado na Bacia do Araripe. Localizada na região Nordeste, a área compreende os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, sendo uma das mais importantes para a paleontologia mundial. O levantamento constatou que a maioria desses fósseis extraídos está na Alemanha. A informação foi elucidada por Aline Ghilardi, paleontóloga e professora do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em entrevista à Sputnik Brasil.

"Nosso levantamento foi publicado em 2021 e envolveu fósseis da Bacia do Araripe que estavam fora do Brasil. Identificamos centenas de fósseis que estavam lá fora. Em primeiro lugar está a Alemanha, principalmente no estado de Baden-Wurttemberg, depois vêm EUA, França e Reino Unido como os países que mais concentram esses materiais. De todos esses fósseis, cerca de 88% estavam de forma irregular", disse.

A pesquisadora relembra o caso emblemático do Ubirajara jubatus. O fóssil desse dinossauro de 110 milhões de anos permaneceu décadas sob a posse do Museu Estadual de História Natural de Karlsruhe, na Alemanha. A repatriação, ocorrida em 2023, só foi conquistada após intensa mobilização e campanhas lideradas pela comunidade científica brasileira.
Atualmente, outra espécie está em poder dos alemães: desta vez, um crânio de dinossauro batizado como Irritator, descoberto na Chapada do Araripe, no Ceará, que ficou 35 anos no Museu de História Natural de Stuttgart e está em vias de ser repatriado ao Brasil.

"Após nossa campanha pelo retorno do Ubirajara, em 2020, ele só voltou em 2023. Quanto ao Irritator, era um crânio que não estava completo. Os traficantes de fósseis completaram a ponta do focinho para que valesse mais. Isso atraiu um museu estrangeiro que o comprou, mas seus pesquisadores perceberam a adulteração. Esse fato os deixou irritados e, por isso, batizaram o fóssil como Irritator", comenta.

Paleontóloga Aline Ghilardi em trabalho de campo no Nordeste brasileiro - Sputnik Brasil
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Arte da campanha feita por cientistas brasileiros contra o colonialismo científico e pela repatriação do fóssil Ubirajara jubatus, dinossauro brasileiro que viveu há cerca de 110 milhões de anos e que foi devolvido ao Brasil apenas em 2023 - Sputnik Brasil
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Arte da campanha feita por cientistas brasileiros pela repatriação do fóssil do dinossauro brasileiro Irritator - Sputnik Brasil
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Muitos fósseis são possíveis de serem encontrados no Brasil - Sputnik Brasil
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Muitos fósseis são possíveis de serem encontrados no Brasil - Sputnik Brasil
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Muitos fósseis são possíveis de serem encontrados no Brasil - Sputnik Brasil
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Fósseis no exterior prejudicam cientistas brasileiros

Ghilardi reforça que a retenção desses fósseis por cientistas estrangeiros restringe o acesso de pesquisadores nacionais. Enquanto isso, instituições e museus europeus ganham destaque e garantem volumosos financiamentos científicos utilizando materiais extraídos de maneira irregular do território brasileiro.

"Nós, como pesquisadores do Sul Global, já chegamos a essas instituições sendo vistos como pesquisadores de má qualidade, o que não é verdade. O que ocorre é que os pesquisadores que estão na Europa e nos EUA têm esse prestígio devido a essa lógica assimétrica de poder e, por isso, publicam trabalhos de maior impacto e atraem financiamento para ter museus melhores, enquanto nós tivemos justamente o oposto", destaca.

Além da produção acadêmica, a especialista alerta para os prejuízos socioeconômicos gerados por essa evasão de patrimônio. Segundo Ghilardi, a impossibilidade de reter e estudar esses fósseis impede o Brasil de explorar o potencial turístico, educacional e cultural de materiais descobertos em diversas regiões do país.

"Quando o fóssil sai, a gente perde o bem material, que poderia gerar renda sustentável por meio de turismo, artesanato local, entre outros. A Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] e o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] pagam anualmente a revistas científicas para que seus pesquisadores possam acessar e produzir conhecimento a partir dali. Ou seja, o país perde ainda mais dinheiro", observa.

Fóssil de anfíbio com características russas é encontrado no Brasil - Sputnik Brasil, 1920, 02.02.2024
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Como fóssil de anfíbio russo, mais antigo que os dinossauros, foi encontrado no Brasil? (VÍDEO)

Colonialismo científico contra países do Sul Global

Toda essa dinâmica de apropriação de fósseis por estrangeiros, originários em grande parte de nações ocidentais, trata-se de colonialismo científico contra os Estados do Sul Global, conforme contextualiza Ghilardi.

"O colonialismo ganhou ao longo do tempo outras facetas. Na ciência, entra o colonialismo científico ao adquirir dados, usar força de trabalho das comunidades e pesquisadores locais para fornecer informações e depois processá-las fora do país para produzir bens manufaturados, livros, publicações e artesanato em museu, que são oriundos de uma pesquisa que voltará para nós de uma forma muito mais cara", conclui.

A discussão sobre o neocolonialismo envolve camadas que vão muito além da ocupação territorial. Forças hegemônicas exercem pressões econômicas, impõem barreiras tecnológicas e restringem o avanço científico ao se apropriarem de materiais e saberes de nações em desenvolvimento.
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