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Europa acelera rearmamento e 'sacrifica bem‑estar', alerta analista francês

© AP Photo / Petr David JosekUcraniano leva munição para treinamento em um campo de tiro em Brno. República Tcheca, 10 de abril de 2022
Ucraniano leva munição para treinamento em um campo de tiro em Brno. República Tcheca, 10 de abril de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 10.06.2026
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Em conversa com a Sputnik, o analista francês Come Carpentier de Gourdon afirma que o rearmamento europeu reflete uma busca por autonomia militar após décadas de dependência dos EUA e alerta que o custo financeiro e social dessa estratégia pode reduzir o padrão de vida e ampliar divisões internas na União Europeia (UE).
Enquanto as elites políticas da UE priorizam o rearmamento em meio às tentativas de paz entre Rússia e Ucrânia, especialistas permanecem preocupados com os movimentos de Bruxelas. Para Come Carpentier de Gourdon, analista geopolítico francês, essa guinada militar revela uma ambição antiga de autonomia estratégica, mas também um risco econômico e político.
Em conversa com a Sputnik, o analista diz acreditar que o bloco tenta compensar anos de subfinanciamento em defesa e dependência dos Estados Unidos.

"Existe, há muito tempo, o desejo de criar uma força militar que possa atuar como um fator independente global e sem depender do apoio e respaldo dos EUA. E a Alemanha está certamente muito interessada nisso, e a União Europeia, sob a influência da Alemanha e, claro, do Reino Unido", afirma Carpentier, destacando o papel central da Alemanha nesse projeto.

Ele observa que França, Alemanha e Reino Unido estão empenhados em construir uma defesa credível, mas alerta para os desafios de coordenação e liderança. "É difícil colocar o exército de um país sob o comando de outro", diz, lembrando que a integração militar europeia ainda levará anos para se concretizar.
Trabalhadores descarregam uma carga de ajuda militar entregue como parte da assistência de segurança dos Estados Unidos da América à Ucrânia, no aeroporto de Borispol, arredores de Kiev, Ucrânia, na terça-feira, 25 de janeiro de 2022. Um novo lote de assistência de segurança dos Estados Unidos fornecido à Ucrânia, incluindo equipamentos e munições, chega ao aeroporto de Borispol. As ações dos EUA estão sendo feitas em conjunto com as de outros governos de membros da OTAN para reforçar uma presença defensiva na Europa de Leste. - Sputnik Brasil, 1920, 10.06.2026
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Carpentier acrescenta que, para justificar o aumento dos gastos militares, é preciso definir um inimigo comum.

"E, neste caso, a Rússia é o inimigo, com a China talvez em segundo lugar, como uma potencial ameaça no futuro. Então, naturalmente, essa é uma política, um estratagema para unir as lideranças europeias, senão os cidadãos europeus", destaca, no sentido de unir governos e preparar a opinião pública para sacrifícios econômicos.

Com a dívida pública da UE projetada para atingir 85,3% do produto interno bruto (PIB) até 2027, o analista considera a militarização da economia uma estratégia de curto prazo.

"Mas [...] a Europa teria de vender armas para tornar a política de rearmamento viável. E está competindo com vários outros atores, incluindo Estados Unidos, Rússia, China, Índia até certo ponto, e países menores como Israel e outros, que também produzem armas e as vendem. Até mesmo o Brasil pode ser considerado um jogador relativamente menor", resume, acrescentando: "Mais armas significam menos conforto e menos benefícios sociais."

Ele alerta ainda que os europeus estão sendo preparados para aceitar perdas econômicas em nome da segurança. "Estão sendo convencidos de que devem pagar mais impostos e renunciar a parte do bem‑estar para garantir a defesa comum", afirma, chamando o processo de "mobilização psicológica".
Boris Pistorius fala durante uma entrevista coletiva conjunta com o ministro da Defesa lituano, Laurynas Kasciunas, na sede do governo em Vilnius. Lituânia, 26 de setembro de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 22.05.2026
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Na Alemanha, o debate sobre investir fundos de pensão em ações de empresas de defesa, como a Rheinmetall, exemplifica os riscos. Carpentier lembra que o retorno financeiro é incerto: "A menos que se vendam muitas armas para outros países, o lucro será baixo", diz, observando que o setor depende de exportações para se sustentar.
Ele também aponta que a competição entre França, Alemanha e Reino Unido pode fragmentar o mercado europeu de defesa.

"Embora o Reino Unido não faça parte da UE, ele ainda joga o jogo de certa forma. E então a questão é quem vai ganhar com isso, porque provavelmente haverá competição, a menos que algumas das principais empresas sejam absorvidas por outras empresas de outros países. E, portanto, de certa forma, podem criar uma espécie de pool de defesa europeu, que se torna monopolista e não permite muita competição. Essa é uma opção, mas não é uma opção muito boa", afirma.

Por fim, o analista destaca o papel de países externos ao bloco, como a Turquia, que, embora membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), não integra a UE. "A relação com Ancara será um teste para a coesão europeia", afirma. "Se a Europa enxergar a Turquia como rival, o projeto de defesa comum pode se tornar ainda mais instável", conclui.
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