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'África não é um tabuleiro' e soft power brasileiro é incomparável, diz general ex-observador da ONU

© Foto / Palácio do Planalto / Ricardo Stuckert Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva durante a cerimônia de abertura da 37ª Cúpula da União Africana, na sede da organização. Adis Abeba, Etiópia, 16 de fevereiro de 2024
Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva durante a cerimônia de abertura da 37ª Cúpula da União Africana, na sede da organização. Adis Abeba, Etiópia, 16 de fevereiro de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 12.06.2026
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Em um contexto cada vez mais complexo, em que a disputa por recursos naturais se acirra, a maioria dos países da África e o Brasil têm em comum riquezas estratégicas e vitais para a economia global, além de realidades e histórias marcadas pelo colonialismo.
A avaliação é do assessor militar da chefia de educação e cultura do Ministério da Defesa, na área de patrimônio histórico e cultural militar, general João Gobert Damasceno.
"O que o Brasil consegue fazer com o soft power em determinados ambientes é incomparável", opina ele em entrevista ao podcast Mundioka desta sexta-feira (12).
Com vasta experiência como representante do Brasil na África, seu primeiro posto foi no Sudão. Como observador militar da Organização das Nações Unidas (ONU), ele realizava patrulhas, inspeções e contatos com comunidades.
Nessas interações, compreendeu que trabalhar pela paz "exigia muito mais do que presença militar: demandava empatia, diálogo e construção de confiança".
Ao longo da missão, assumiu funções de liderança e coordenação de observadores de dezenas de países, atuando inclusive na fiscalização do acordo de paz de 2005 no Sudão, e na mediação entre diferentes atores locais.
Para ele, a principal diferença entre uma operação militar convencional e uma missão de paz é que nesta não existe um inimigo definido, o que exige ações políticas, diplomáticas e humanas para evitar que os conflitos se agravem.
O general também destaca que os conflitos na região não eram causados diretamente por diferenças étnicas ou religiosas, mas pela instrumentalização dessas identidades por interesses políticos. Lá, testemunhou comunidades cristãs, muçulmanas e animistas convivendo pacificamente, embora tenha presenciado episódios de violência quando grupos armados exploravam essas divisões. Essa instrumentalização marca a história africana, observa:

"Pessoas que se agarram ao poder, ditadores, fazem qualquer negócio, realizam todo tipo de atrocidade para se manter no poder […]. Você combina essa governança frágil com competição por recursos e com essas identidades manipuladas por atores políticos; aí você tem o cerne da maior parte dos conflitos."

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Ele lamenta a situação atual de enfraquecimento e a desconfiança global em relação à ONU, o que prejudica a capacidade das missões de paz.

"A gente viu a Minusma [sigla em inglês para Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali] terminar tempestivamente, em menos de 30 dias. A gente está vendo no Congo, em fase de consolidação; e o nordeste do Congo continua conflagrado, com a dinâmica envolvendo vários grupos armados e interesses, especialmente de países limítrofes, de que o Congo não se estabilize."

Ele conta que participou de todo o processo para a entrada do Brasil na Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (Minusca, na sigla em inglês), em 2018, que acabou não ocorrendo; e que coordenou o grupo de trabalho de planejamento.
Nas missões que integrou, relata como o Brasil tomou a iniciativa de asfaltar ruas, cavar poços artesianos, reconstruir escolas. Esse vínculo torna o país sul-americano um aliado da paz africana diferenciado:
"A gente faz melhor que os outros, e faz melhor mesmo […]. Preparamos tudo e no final a decisão sabemos, política ou diplomática, do não desdobramento da tropa no continente africano, embora a gente já tivesse tradições naquele continente. Imagine um batalhão brasileiro lá no meio da República Centro-Africana."
Ao lembrar de sua experiência, o general afirma que o cenário atual no contexto dos conflitos piorou e está mais complexo:

"Antes, a gente via muitos conflitos essencialmente locais, aquelas velhas disputas por poder político, as tensões étnicas, as rivalidades regionais. Então, especialmente no Sahel, o terrorismo conectou esses conflitos a redes transnacionais, criando um ambiente muito mais imprevisível e perigoso."

Os novos grupos, comenta, não respeitam fronteiras e se fundiram com economias ilícitas, financiando-se com tráfico de armas, drogas e pessoas. Armados, acrescenta, ocupam vácuos de poder e constroem economias paralelas, sendo a ameaça militar, social, econômica e ideológica.

"No caso da República Centro-Africana e do Sudão, minerais como urânio; pedras preciosas, como diamantes, safiras; regiões produtoras de ouro estão totalmente controladas por milícias […]. Na República Centro-Africana tem minas de urânio que não são controladas pelo governo nem por ninguém. O petróleo também é disputado, a água é usada como instrumento de poder e essas terras férteis são tomadas à força."

Na avaliação do general, nesse contexto, o Brasil tem muito a contribuir:

"A nossa tradição está na nossa Constituição. Somos pela negociação, não somos imperialistas, não impomos a nossa vontade, conversamos", opinou. "O Brasil deveria observar e buscar essa participação."

O legado da cultura afrodescendente é outra ligação poderosa que azeita as relações entre o Brasil e a África negra, bem como o esporte, em que o Brasil desponta e encanta.

"O Brasil goza no exterior, especialmente na África, de muitos pontos de conexão, mais pontos de conexão que pontos de afastamento. A gente tem um histórico de formação de sociedade, em grande parte, oriundo da África", frisou.

Na sua opinião, diferentemente de muitos países, interessados apenas nos recursos minerais e em expandir a área de influência no continente, fomentar conflitos locais para interesse próprio, o Brasil prova, por meio de ações, estar comprometido com a paz e o desenvolvimento desses países.
"Ela [África] não é um tabuleiro. Ela não pode ser considerada um agente passivo. Ela é um sujeito. Ela é um sujeito ativo no cenário geopolítico mundial. Tem que ser respeitada", concluiu.
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