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Quais os caminhos trilhados pelo Brasil para ampliar sua capacidade de armazenar rejeitos nucleares?

© Foto / Divulgação / RosatomUsina nuclear Angra 1 (à esquerda) e usina nuclear Angra 2 (à direita)
Usina nuclear Angra 1 (à esquerda) e usina nuclear Angra 2 (à direita) - Sputnik Brasil, 1920, 12.06.2026
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O Brasil discute a otimização e a ampliação do armazenamento de rejeitos de baixo e médio níveis de radiação. A condição ainda não é um gargalo para a expansão do uso da energia nuclear no país, mas pode vir a ser um limitador estratégico.
Recentemente, a Eletronuclear apresentou propostas para ampliar a capacidade de armazenamento de rejeitos. A iniciativa quer garantir condições para gerenciar o lixo nuclear enquanto o Centro Tecnológico Nuclear e Ambiental (Centena) não ganha um projeto definido de implementação.
Segundo Leonam Guimarães, diretor técnico da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), o Brasil vem discutindo um conjunto de medidas de curto e médio prazos para evitar restrições operacionais nas instalações nucleares existentes e preparar a expansão do programa nuclear. As principais iniciativas incluem:
a ampliação das capacidades de armazenamento temporário nas próprias instalações geradoras de rejeitos;
a expansão das instalações de armazenamento da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para rejeitos institucionais;
a implantação do Repositório Nacional de Rejeitos Radioativos de Baixo e Médio Níveis de Radiação (RBMN), conhecido como Projeto Centena;
e o aproveitamento de sinergias com a Unidade de Armazenamento a Seco (UAS) da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA) para armazenamento integrado de combustíveis irradiados e rejeitos acondicionados.
Alternativas apresentadas para estender a vida útil dos depósitos existentes consistem, por exemplo, em otimizar a ocupação desses depósitos pela revisão dos critérios de empilhamento; ou em fazer a redução volumétrica dos rejeitos a partir da compactação ou supercompactação, da descontaminação e até mesmo da solidificação e cimentação dos rejeitos.
Entre as iniciativas para armazenamento dos rejeitos, "a que apresenta maior potencial de solução estrutural para o problema brasileiro é a entrada em operação do Centena, pois ele permitirá retirar dos sítios geradores uma parcela significativa dos rejeitos atualmente armazenados localmente, consolidando-os em uma instalação nacional dedicada".
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Porém ele explica, ainda, que o Centena não elimina todas as necessidades futuras. "O combustível irradiado continuará demandando armazenamento especializado por muitas décadas. Por isso, soluções integradas envolvendo a UAS da CNAAA e futuras instalações centralizadas podem representar o caminho mais eficiente de longo prazo", acrescenta.
Além disso, pesquisas apontam a implementação sólida do Centena apenas no longo prazo, ou seja, após 2050.
Inayá Lima, professora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta que as discussões ocorrem no âmbito da ampliação das capacidades, uma vez que o Brasil já possui sistemas seguros. Ou seja, "não existe hoje uma situação de emergência ou falta de capacidade de armazenamento".

Quais os desafios para avançar na ampliação do armazenamento?

De acordo com o diretor técnico da ABDAN, o avanço das iniciativas esbarra em questões institucionais, financeiras e regulatórias, que passam pela conclusão do processo de seleção e licenciamento do Centena; pela capacitação profissional; e por garantias financeiras para as operações de longo prazo, até que ocorra a integração entre os atores do segmento nuclear.
O Brasil, segundo Lima, possui um arcabouço robusto no que diz respeito à regulação. O desafio para avançar no armazenamento, portanto, consiste na "implantação de estruturas capazes de atender não apenas às demandas presentes, mas também às necessidades futuras de um país que pretende ampliar suas aplicações nucleares".
Os riscos dos projetos também são um ponto, relacionados à necessidade de planejamento de longo prazo, à continuidade institucional e à disponibilidade de infraestrutura adequada. Guimarães enumera estes pontos de inflexão como os principais:
saturação gradual das instalações temporárias;
aumento dos custos de armazenamento distribuído;
complexidade logística para futuras transferências;
necessidade de preservar conhecimento técnico ao longo de décadas;
e atrasos regulatórios ou de licenciamento.
Conforme explica a professora da UFRJ, o desafio que mobiliza a comunidade técnica mundial não é a segurança imediata desses materiais, "mas a definição de soluções sustentáveis para períodos que podem alcançar décadas ou até séculos, dependendo do tipo de rejeito".

Armazenamento de rejeitos ainda não é gargalo, mas pode se tornar

Historicamente, segundo o especialista, o planejamento da gestão de rejeitos no Brasil avançou em ritmo mais lento do que o planejamento da geração nuclear.

"Isso não significa ausência de planejamento, mas sim uma defasagem comum observada em muitos países. Durante décadas, o volume de rejeitos gerado pelas instalações brasileiras permaneceu administrável dentro das capacidades existentes. Contudo, a perspectiva de operação prolongada de Angra 1, de continuidade de Angra 2, a entrada em operação de Angra 3 e a eventual implantação de novos reatores torna necessária uma aceleração dos projetos de gestão de rejeitos", explica.

A limitação para armazenar rejeitos não constitui o principal fator limitante do programa nuclear brasileiro neste momento. "No curto prazo, a disponibilidade de capacidade de armazenamento não impede a operação de Angra 1 e Angra 2 nem inviabiliza a futura operação de Angra 3", destaca Guimarães.
Entretanto, esse fator pode representar um limitador estratégico no futuro, para outros projetos, como novas usinas nucleares e pequenos reatores modulares (SMRs, na sigla em inglês), além de afetar a ampliação do ciclo do combustível e até impactar o aumento da aceitação pública dos projetos nucleares.
Instalações da usina de Angra 2, na Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), em Angra dos Reis (RJ). Brasil, 21 de junho de 2024 - Sputnik Brasil, 1920, 15.01.2026
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Com quem o Brasil pode aprender a melhorar seu armazenamento?

Guimarães ressalta que existem três modelos predominantes que podem servir de inspiração para o caso brasileiro, encabeçados por Estados Unidos, França e Finlândia.
Os norte-americanos, explica o analista à reportagem, utilizam armazenamento a seco em contêineres de concreto e aço em instalações localizadas junto às usinas nucleares. O país ainda possui um repositório geológico para combustível irradiado.
Já a França adota uma estratégia baseada "no reprocessamento de combustível irradiado e em uma estrutura nacional integrada de gestão de rejeitos mantida pela agência nacional especializada. O país desenvolve o projeto geológico profundo Cigéo para rejeitos de alta atividade", conta.
Os finlandeses, por sua vez, se tornaram referência mundial no assunto, segundo Guimarães. O país nórdico conta com o "repositório geológico profundo de Onkalo", considerado o primeiro sistema comercial dessa natureza em estágio avançado de implementação.
O diretor técnico da ABDAN menciona ainda a Suécia, que combina armazenamento centralizado de combustível irradiado com o desenvolvimento de repositórios geológicos profundos. Os modelos dos países citados, de acordo com ele, têm sido acompanhados pelo Brasil e são utilizados como referências nas discussões sobre o tema.

"Considerando as características brasileiras, é provável que o país incorpore elementos dos modelos norte-americano e europeu, especialmente armazenamento a seco de longo prazo, instalações centralizadas e repositórios nacionais para rejeitos de baixo e médio níveis", finaliza.

O que o Centena representará para a gestão de resíduos nucleares?

A professora da UFRJ destaca que o Centena possui uma importância estratégica para o país, "porque completa uma das etapas fundamentais do ciclo de gestão dos materiais radioativos".

"A entrada em operação do Centena permitirá concentrar em uma única infraestrutura nacional a disposição definitiva dos rejeitos de baixo e médio níveis de radiação, fortalecendo a governança do setor e alinhando o país às práticas adotadas internacionalmente."

Além disso, do ponto de vista estratégico, a analista afirma que a operação do programa passa a demonstrar que o Brasil está preparado para gerir de forma responsável "não apenas os benefícios da tecnologia nuclear, mas também todas as etapas associadas à sua utilização. Essa visão integrada é um dos pilares de qualquer programa nuclear moderno e sustentável", acrescenta.
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