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BRICS Pay vem aí para ficar? Analistas comentam perspectivas e desafios

© Sputnik / Sergey Bobylev / Acessar o banco de imagensCartões promocionais do serviço de pagamentos BRICS Pay, apresentados no Fórum Empresarial do BRICS em Moscou
Cartões promocionais do serviço de pagamentos BRICS Pay, apresentados no Fórum Empresarial do BRICS em Moscou - Sputnik Brasil, 1920, 15.06.2026
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O BRICS está prestes a ter um Pix para chamar de seu. Uma plataforma de pagamentos internacionais para transações instantâneas utilizando diretamente as moedas locais entre países do grupo promete substituir o dólar e o SWIFT, Sistema Mundial de Transação de Correntes Financeiras, principal plataforma de transferências internacionais.
Ainda em fase de testes e desenvolvimento prático, o sistema é semelhante e inspirado no Pix brasileiro, utilizando tecnologia blockchain. O tema será um dos focos da 18ª Cúpula do BRICS, marcado para ocorrer em setembro, em Nova Deli, na Índia, que assumiu a presidência rotativa do grupo neste ano.
No podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, desta segunda-feira (15), o especialista Matheus Cecílio, doutor em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), comentou que o novo ecossistema digital aponta para um horizonte de desdolarização nas transações internacionais, mas que no médio prazo a solução é mais técnica e menos política.
A ideia não é substituir o dólar, mas diminuir custos de transação, facilitar o comércio entre seus membros, diversificar suas cestas de moedas internacionais e parceiros comerciais.

"Todos os países podem se unir. Isso pode reduzir os custos de transação, firmas e consumidores podem transacionar de maneira mais fácil, mas potencialmente muito mais rápida e sem se expor a custos cambiais."

Entretanto, ressaltou, a estimativa é de que o BRICS Pay, se bem instituído e bem fomentado, poderia representar entre 15% e 20% do comércio internacional até 2030, segundo o Conselho Empresarial do BRICS, cujos países-membros já representam 40% do produto global.
Para tanto, o principal desafio é encontrar uma moeda forte para realizar uma mudança estrutural no mercado financeiro.

"Reduzir o papel do dólar efetivamente tem uma contrapartida qualitativa na vida diária das economias emergentes, à medida que elas não vão precisar no futuro se preocupar tanto com conseguir e manter moeda forte, vastos colchões de reservas internacionais, como é o caso do Brasil, como é o caso da China, por exemplo, a fim de que possam dar seguimento aos seus processos industrializantes ou reindustrializantes em alguns casos", esclareceu Cecílio.

Já no longo prazo, ele avaliou que a mudança exigirá esforços mais robustos, ainda sem estratégias claras.
O professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ebape) Luiz Antonio Joia compartilhou análise semelhante.
O BRICS Pay, pontuou, não constitui uma ruptura capaz de reconfigurar a ordem financeira global, sobretudo por carecer ainda de capacidade política e institucional, devido à alta heterogeneidade dos países do grupo:

"Há diferentes infraestruturas tecnológicas, diferentes modelos regulatórios, diferentes contextos socioeconômicos, e isso tudo teria que ser interligado. É uma iniciativa interessante, mas tem muita, muita água para rolar ainda aí", opinou em entrevista ao Mundioka.

Ambos os entrevistados elogiaram a iniciativa, mas citaram empecilhos políticos, geopolíticos e técnicos a serem superados.
Joia também citou a dificuldade de eleger a moeda a ser usada pelo BRICS nas transferências:

"O Pix é uma coisa maravilhosa, sensacional, sucesso. Mas o Pix é local, é Brasil. Então você trabalha com o Banco Central, trabalha com as fintechs, trabalha com os bancos aqui. Agora você está falando de uma moeda só, está falando de um sistema que vai falar com diferentes moedas, diferentes países, diferentes contextos, diferentes governanças, diferentes bancos centrais, diferentes cenários políticos. […] Muitas barreiras para chegar a um consenso."

Cecílio lembrou que, enquanto alguns países estão plenamente digitalizados, como a China, outros membros do BRICS têm a maioria da população ainda se familiarizando com serviços de pagamento digitais.
No curto e médio prazo, a tarefa técnica é factível, mas emular o que os Estados Unidos conseguem oferecer com o dólar, isso é muito mais difícil e exige mudanças mais estruturais, declarou.
A avaliação dos entrevistados é de que o sistema do BRICS irá conviver com o SWIFT, sendo um atrativo para algumas transações com moedas locais, inclusive para pequenas e médias empresas.
Ambos alertaram, no entanto, que, no mundo das finanças, o cenário geopolítico é muito volátil e interfere diretamente nas transações comerciais. Para exemplificar, Cecílio lembrou das críticas e ações dos EUA contra o Pix brasileiro:
"O Pix é uma grande pedra no sapato das bandeiras de cartão de crédito, como Visa e Mastercard", destacou. "A gente tem visto esse tema ser mais candente aqui na corrida eleitoral brasileira: um dos candidatos ao posto de chefe de Estado neste ano mencionou possivelmente abandonar o Pix e usar um sistema que é americano, que é o Zelle."
Realizado em Moscou, I Fórum BRICS para Tecnologias Quânticas - Sputnik Brasil, 1920, 08.06.2026
Panorama internacional
Em Moscou, I Fórum do BRICS para Tecnologias Quânticas desafia monopólio ocidental (VÍDEOS)
O contexto atual do BRICS, que surgiu com Brasil, Rússia, Índia, China, integrando logo depois a África do Sul, com novos atores, agregou diferenças sociais, econômicas, políticas e tecnológicas relevantes, na opinião do professor da FGV.
Segundo ele, a movimentação rumo à multipolaridade é uma tendência nas relações internacionais, e os blocos tendem a se multiplicar e pulverizar gradualmente poderes de uma única potência, e a China, potência que rivaliza com os EUA, demonstra ser uma defensora desse novo mundo.

"A China propõe os fóruns multilaterais, é defensora do multilateralismo e vem assumindo cada vez mais esse papel que os americanos estão um pouco deixando de lado, principalmente a partir da segunda administração [do presidente Donald] Trump", argumentou.

Nesse sentido, o BRICS é uma espécie de teste para a China, que "tenta navegar por esse vácuo deixado pelos Estados Unidos de uma maneira mais diplomática".
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