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Recrutamento infantil: o rosto mais problemático da crise de insegurança no Equador

© Foto / Polícia do EquadorEquador apreende material explosivo na fronteira com o Peru para 'atos terroristas' na Colômbia
Equador apreende material explosivo na fronteira com o Peru para 'atos terroristas' na Colômbia  - Sputnik Brasil, 1920, 24.06.2026
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O recente ataque armado no aeroporto de Guayaquil no Equador por dois menores de 14 e 15 anos contra o chefe da organização criminosa Los Águilas, Carlos Alberto Suástegui Villanueva, conhecido como "Cachete", virou comoção nacional.
A estratégia criminosa que utiliza crianças e adolescentes e o concomitante endurecimento das penas, segundo especialistas ouvidos pela Sputnik, tem na raiz do problema o fracasso do Estado nas ações preventivas e sociais.
A cena no aeroporto, onde os adolescentes usaram bichos de pelúcia e flores para ocultar suas armas é prova irrefutável do fracasso do sistema, segundo Nicolás Díaz Torres, advogado especialista em criminalidade complexa.

"Quando em um país, em uma sociedade, temos crianças e adolescentes sicários, o Estado nos falhou. E o Estado não falhou apenas com essas crianças e adolescentes: falhou com todos nós como sociedade", afirma ele à Sputnik.

O advogado penalista e docente Fernando José Yumi Hurtado frisa que organizações criminosas otimizaram sua operação aproveitando a extrema vulnerabilidade dos menores de idade:
"Eles sabem identificar algo que talvez tenha custado muito ao Estado: as falhas sociais e estruturais, para poder tirar proveito disso. Recrutam as pessoas mais vulneráveis, mais maleáveis, aquelas crianças de baixa renda, que não têm um lar, que não têm família, que não têm um referencial."
Policiais patrulham os arredores da Assembleia Nacional antes do discurso do presidente Daniel Noboa, em Quito, Equador, em 24 de maio de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 31.05.2026
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Por que Equador continua a vivenciar altos níveis de insegurança, apesar de rigoroso combate ao crime?
Segundo Yumi, existe um treinamento sistemático: essas organizações não apenas recrutam crianças, como também as treinam e as profissionalizam para cometer crimes.
Para o especialista, elas retiram sua humanidade e inocência com o único objetivo de utilizá-las para os interesses da organização impunemente:
"Eles souberam identificar essas lacunas estruturais e essa forma de evitar certo tipo de responsabilidades e obter uma mão de obra barata, maleável, e os altos escalões, os que dão as ordens, são os que realmente se beneficiam dessas situações, para não se exporem a nenhum tipo de responsabilidade penal”, explica Yumi Hurtado.

Medidas preventivas ou reativas?

Um estudo publicado em 2025 pelo Observatório equatoriano do crime organizado entrevistou 3 mil crianças e jovens de nove cidades costeiras do país. Segundo a análise, 8% dos entrevistados admitiram pertencer a um grupo criminoso, e mais de 50% declararam conhecer a existência de gangues em seu território. Diante do fenômeno, o endurecimento das leis tem sido recorrente, critica Díaz Torres:

"Endurecer penas, agravar delitos, não é medida preventiva, porque o direito penal não previne. O direito penal reage quando há um delito. As medidas preventivas são políticas econômicas, políticas sociais e políticas educacionais que até o momento não têm sido empregadas pelo Estado equatoriano", afirma.

Responsabilização

O desafio jurídico é responsabilizar os líderes que levam menores a cometer delitos. O Código Penal do país já prevê punições para pessoas que usam da violência física, abuso de autoridade, ameaças ou uso de algum meio coercitivo de força par ao brigar terceiros a cometer uma infração penal.
No artigo 42 é determinado que a pessoa, mesmo sem comprovação de atos de intimidação, que exerça cargo de comando na organização criminosa pode ser responsabilizada.
Mas apesar dessas ferramentas legais, os especialistas concordam que a lei sozinha não será suficiente se o Estado não recuperar os territórios perdidos. Como afirma Díaz Torres, "o que realmente dissuade a prática de crimes é a aplicação da lei, não o seu endurecimento".
Em meados de 2025, a Vice-Presidência da República anunciou a Estratégia emergente para a prevenção do recrutamento de crianças e adolescentes. Nela, é detalhado um cronograma para a construção de um plano de ação obrigatório para prevenir e combater a vinculação de menores por grupos de crime organizado.
Díaz Torres ressalta que a evasão escolar é um dos principais fatores que favorecem o recrutamento, defendendo uma reinserção urgente. Segundo o Ministério da Educação, em 2025, mais de 450 mil menores que não frequentavam instituições de ensino.
Hurtado afirma que a solução exige uma abordagem integral de longo prazo, distante de medidas pontuais ou de governos específicos.
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