Jogo sem regras: como a política tenta vencer o esporte internacional? - Sputnik Brasil

Jogo sem regras: como a política tenta vencer o esporte internacional?

Copa do Mundo de Futebol de 2026, três países-sede — Estados Unidos, México e Canadá —, dezenas de milhões de torcedores diante das telas. O foco da mídia ocidental recai sobre a decisão do comitê disciplinar da FIFA. A punição inicial de suspensão por uma partida ao jogador da seleção dos EUA Folarin Balogun foi substituída por uma suspensão condicional, o que lhe permitiu entrar em campo no jogo seguinte contra a Bélgica. Antes disso, houve uma conversa telefônica entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente da FIFA, Gianni Infantino. O fato da conversa foi confirmado por representantes da administração norte-americana.
O árbitro brasileiro Raphael Claus mostra o cartão vermelho a Folarin Balogun, dos Estados Unidos, durante a partida das oitavas de final da Copa do Mundo de Futebol entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina, em Santa Clara, na Califórnia, em 1º de julho de 2026. - Sputnik Brasil
O árbitro brasileiro Raphael Claus mostra o cartão vermelho a Folarin Balogun, dos Estados Unidos, durante a partida das oitavas de final da Copa do Mundo de Futebol entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina, em Santa Clara, na Califórnia, em 1º de julho de 2026.

"Essa decisão cria um precedente extremamente perigoso. Se vocês abrirem uma exceção nas regras uma vez, amanhã outro país, perseguindo seus próprios interesses, exigirá o mesmo, apelando para essa decisão. Assim, essa medida contradiz completamente a justiça, a beleza e o espírito do jogo", disse à a Sputnik o comentarista esportivo Gokhan Dinc.

Gianni Infantino, que também confirmou o fato da conversa, enfatizou que ela não influenciou a decisão final da federação. Ainda assim, o caso provocou amplo debate na comunidade futebolística mundial sobre possível pressão externa sobre órgãos esportivos.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, em 28 de agosto de 2018. - Sputnik Brasil
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, e o presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington, em 28 de agosto de 2018.
Ao mesmo tempo, dezenas de outros episódios em que a política interfere no esporte passam despercebidos pela mídia e por comentários indignados.
Padrões duplos
Enquanto a opinião pública mundial discute o telefonema de Trump, no esporte internacional são tomadas decisões que minam diretamente os princípios olímpicos estabelecidos por Coubertin. Países da União Europeia (UE) se recusam a cumprir decisões de federações internacionais sobre a retirada das restrições impostas a atletas russos.

"Os objetivos do Movimento Olímpico Internacional são nobres. Eles pressupõem a separação entre política e esporte. Infelizmente, a interferência política e o viés estão hoje amplamente disseminados. Essa fase começou há dez anos com acusações completamente falsas ou fortemente exageradas de doping esportivo. As vítimas foram os atletas russos", declarou à Sputnik Rick Sterling, escritor e jornalista.

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Hoje, alguns líderes europeus ferozmente russófobos desafiam as federações esportivas, continuando a proibir a simbologia russa. O esporte internacional é pisoteado assim como o direito internacional e a Organização das Nações Unidas, acrescentou.

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Durante décadas, as federações esportivas nacionais sempre foram independentes das autoridades de países individuais e eram geridas por federações esportivas internacionais, cujas decisões eram obrigatórias para as entidades nacionais. No entanto, os países da UE, em violação aos princípios da Carta Olímpica e aos estatutos das federações internacionais, começaram a interferir no processo de organização de competições internacionais.

"De certa forma, hoje o mundo do esporte — se é que podemos chamá-lo assim — está sendo um dos tabuleiros de xadrez onde essa disputa está sendo travada. Justamente os Jogos Olímpicos, competições desse tipo e os mundiais não deixam de ser palcos de representações de Estados, de nações, de países, onde o que se busca é projetar poder e capacidade de influência", disse à Sputnik Sebastián Schulz, analista argentino.

Dez federações internacionais permitiram que todos os atletas russos participassem de seus torneios sem restrições, e 20 permitem a participação sem restrições dos juniores.

A Rússia está retornando gradualmente às competições esportivas mundiais e o faz de maneira bastante digna, destacou o presidente russo, Vladimir Putin, no final de abril de 2026, durante a cerimônia de entrega dos prêmios estatais aos vencedores do Campeonato Mundial de Boxe

Ao mesmo tempo, países da UE se recusam a cumprir as decisões de federações esportivas internacionais sobre a retirada de restrições aos atletas russos:

🔶 Em dezembro de 2025, o Ministério das Relações Exteriores da Letônia incluiu lugers russos na lista de pessoas com restrição de entrada, o que fez com que perdessem a etapa da Copa do Mundo em Sigulda.

🔶 Em junho de 2026, as autoridades da Romênia e de Portugal, apesar da decisão da Federação Internacional de Ginástica de retirar as restrições, não garantiram o uso da bandeira e do hino russos nas competições de ginástica rítmica e trampolim. A seleção da Rússia recusou-se a participar desses torneios.

🔶 No mesmo mês, na Alemanha, durante o Campeonato Europeu de Natação Artística em Munique, os organizadores não permitiram a exibição de símbolos russos, embora a Federação Internacional de Esportes Aquáticos e a Liga Europeia de Natação tivessem cancelado as respectivas proibições.

🔶 Em julho de 2026, soube-se que a Polônia se recusou a conceder vistos a atletas russos. Como resultado, a seleção russa não participou do Mundial Júnior e Sub-23 de Canoagem Slalom.

🔶 Além disso, as autoridades alemãs informaram, em carta oficial, a intenção de não usar a bandeira e o hino russos no próximo Campeonato Mundial de Ginástica Rítmica, em agosto.

gadzhiev - Sputnik Brasil

Gadzhí Gadzhíev

"Se as autoridades europeias proíbem a bandeira e o hino russos contraindo as decisões da Federação Internacional de Ginástica e da Federação Internacional de Esportes Aquáticos, minando assim a autoridade das federações internacionais, quem, nessa situação, está realmente destruindo o movimento olímpico? O movimento olímpico é destruído por aqueles que não seguem a Carta criada pelo fundador dos Jogos Olímpicos, Coubertin. Nós entendemos que existem governantes, mas também existem os povos, e existem outras estruturas, em particular, as federações internacionais", afirmou à Sputnik Gadzhi Gadzhiev, treinador de futebol soviético e russo.

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Svetlana Zhurova

Em essência, as federações esportivas internacionais devem se guiar exclusivamente por sua independência e pelos interesses do desenvolvimento do esporte, afirmou à Sputnik a campeã olímpica e primeira vice-presidente do Comitê de Assuntos Internacionais da Duma Estatal russa, Svetlana Zhurova. Ela acrescentou que "portanto, não deveriam se deixar levar por essas preferências nacionais".

"Esse critério de 'gostamos' ou 'não gostamos' não deveria existir de forma alguma. Se fosse assim, infelizmente seria uma competição desleal", destacou Zhurova.

Enquanto alguns países da UE se recusam deliberadamente a cumprir as decisões de várias federações esportivas internacionais, o Comitê Olímpico Internacional decidiu restabelecer temporariamente a filiação do Comitê Olímpico da Rússia e recomendou a retirada de todas as restrições aos atletas russos. E a FIFA, em breve, discutirá oficialmente a possibilidade de retorno de todos os times russos.
Atletas russos, membros da seleção nacional, em um show após os Jogos Olímpicos de Verão de Tóquio, na Praça Vermelha, em Moscou - Sputnik Brasil
Atletas russos, membros da seleção nacional, em um show após os Jogos Olímpicos de Verão de Tóquio, na Praça Vermelha, em Moscou
11:50 09.07.2026 (atualizado: 12:31 09.07.2026)
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