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Retomada do conflito no Iêmen expande a guerra do Irã e pode 'agravar crise mundial', diz analista

© AP Photo / Osamah AbdulrahmanFogos de artifício explodem enquanto apoiadores houthis se reúnem em protesto contra a coalizão liderada pela Arábia Saudita em Sanaa, no Iêmen
Fogos de artifício explodem enquanto apoiadores houthis se reúnem em protesto contra a coalizão liderada pela Arábia Saudita em Sanaa, no Iêmen - Sputnik Brasil, 1920, 22.07.2026
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Em entrevista ao Mundioka, Beatriz Gomes explica como a retomada do conflito entre o Ansar Allah e a Arábia Saudita pode ampliar a instabilidade no Oriente Médio e gerar impactos sobre o comércio internacional e a crise energética, em um cenário já agravado pela escalada entre Irã e Estados Unidos.
O movimento Ansar Allah, do Iêmen, também conhecido como houthis, e a Arábia Saudita voltaram a trocar golpes após quatro anos de trégua. Tudo foi retomado quando uma delegação iemenita partiu para o funeral do supremo líder iraniano Ali Khamenei, furando um bloqueio total imposto por Riad contra o país.
No retorno da delegação, a oposição iemenita, baseada na Arábia Saudita, bombardeou o aeroporto de Sanaa impedindo o pouso do avião, que desviou para Hodeidah. Em resposta, o Ansar Allah atacou o aeroporto de Abha, no sul do país. Segundo as autoridades sauditas, os mísseis e drones foram interceptados pela defesa aérea.
A retomada das hostilidades amplia o risco de uma escalada do conflito no Oriente Médio, que já envolve Estados Unidos e Irã. Inclusive, o episódio ocorre em um momento de maior sensibilidade regional: no início do ano, a Arábia Saudita firmou um acordo de defesa mútua com o Paquistão, outra importante potência militar da região, o que pode ampliar as implicações estratégicas de uma eventual escalada.
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Jogo de alianças no Oriente Médio

Ouvida pelo Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Beatriz Gomes, professora de geopolítica e comentarista da TVT, avalia que a trégua — feita após 11 anos de conflito — já estava bem abalada por conta do genocídio em Gaza e, mais recentemente, o conflito entre Estados Unidos e Irã.
Nos últimos anos, o Ansar Allah passou a atuar de forma mais incisiva como parte do chamado "Eixo da Resistência", uma coalizão de movimentos, partidos e governos alinhados a Teerã, e impôs restrições à navegação para navios com destino e origem israelense no mar Vermelho, em resposta ao genocídio na Faixa de Gaza.
Desde 2014, o Ansar Allah controla a capital, Sanaa, e exerce o governo de fato do país, com a oposição ainda reconhecida internacionalmente, atuando no exílio na Arábia Saudita.
Para a especialista, o conflito entre Riad e os houthis deve ser compreendido como uma guerra por procuração, na qual interesses geopolíticos das potências regionais e globais se sobrepõem às disputas internas do Iêmen.

"A Arábia Saudita atua como uma extensão da influência dos Estados Unidos na região, enquanto os houthis integram o Eixo da Resistência liderado pelo Irã."

Construtor instalando armadura de aço ao redor do cabo do fundo do mar em 100 pés de profundidade, no Pacific Missile Range Facility Barking Sands, em Kauai. Havaí, 14 de agosto de 2013 - Sputnik Brasil, 1920, 20.04.2026
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Poder sobre o comércio internacional

Na segunda-feira, o Iêmen anunciou um bloqueio do estreito de Bab el-Mandeb contra Riad, impedindo tráfego marítimo da monarquia árabe na região.
Desde que foi anunciado, petroleiros sauditas destinados aos mercados asiáticos já tiveram que dar meia-volta e seguir em direção ao canal de Suez, obrigando as embarcações a contornarem o Cabo da Boa Esperança – localizado na África do Sul –, tendo que percorrer todo o Mediterrâneo e navegar pela costa oeste africana.
Aliado ao bloqueio total do estreito de Ormuz, tamanho desvio eleva custos logísticos, aumenta o tempo de transporte e pressiona as cadeias globais de abastecimento. Esse poder, avalia Gomes, fez com que os houthis deixassem de ser apenas um ator local e passassem a desempenhar um papel central no equilíbrio de poder do Oriente Médio.

"Eles acabam sendo responsáveis por controlar uma região de suma importância para o mundo, que é o mar Vermelho. […] É um grupo que tem poder sobre o preço do petróleo e sobre produtos do comércio internacional."

Após o anúncio, o Ministério das Relações Exteriores saudita afirmou que o reino tomará "todas as medidas necessárias" para proteger suas embarcações, em conformidade com o direito internacional e a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982.
Já o presidente norte-americano, Donald Trump, disse que lidará com a situação e lembrou os quase dois meses de conflitos entre os EUA e o Ansar Allah em 2025, quando a Casa Branca tentou retomar a liberdade de navegação pelo estreito.
Gomes explica que os houthis "são bem equipados e têm muito apoio populacional" desde que passaram a integrar o Eixo da Resistência, tornando-se um dos principais instrumentos da disputa regional entre Teerã, Riad e Washington.
No entanto, apesar do bloqueio iemenita, Gomes não acredita que a Arábia Saudita buscará um confronto direto com o Irã, uma vez que sua maior preocupação é que a "desorganização da região impeça seus ganhos econômicos".

"Eles sabe que, se abrirem uma frente contra o Irã, essa guerra vai se transformar em uma coisa muito maior."

Para a especialista, se ocorrer de fato, o impacto da retomada dos confrontos vai extrapolar o Oriente Médio. "Agrava uma crise econômica mundial. A gente vai ter problemas de crises econômicas, crise de combustível e crise de fertilizantes."

"O que inicialmente parecia uma disputa entre Estados Unidos e Irã acaba se transformando em uma grande guerra regional, com vários focos de enfrentamento."

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