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Literatura sul-africana cumpre missão de ampliar a visão sobre o país, diz especialista

© AP Photo / Themba HadebeCópia da autobiografia "Mandela por ele mesmo" do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (foto de arquivo)
Cópia da autobiografia Mandela por ele mesmo do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela (foto de arquivo) - Sputnik Brasil, 1920, 03.08.2026
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Muito além de retratar a história do continente, a literatura sul-africana tem desempenhado um papel central na reconstrução das identidades nacionais, no resgate de tradições e na elaboração dos traumas deixados pelo colonialismo, pelas guerras e pelo Apartheid.
Essa é a avaliação da doutora em literaturas africanas e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Aza Njeri, em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil. Ao mesmo tempo, uma nova geração de escritores amplia esse horizonte ao desafiar estereótipos sobre o continente africano e propõe novas formas de pensar o presente e o futuro do continente.
"A literatura tem esse diálogo profundo com a cultura e com a filosofia. Então, quando você entra numa obra de literaturas africanas, você encontra um novo mundo na totalidade. Tanto a cena, a paisagem, a escrita, mas principalmente o pensamento filosófico."
Mundioka #935 - Sputnik Brasil, 1920, 03.08.2026
Mundioka
BRICS na estante: como a literatura sul-africana ajudou a projetar o país para o mundo?
A África é composta por 54 países, o que torna sua produção literária extremamente variada, seja nos temas de contato com o imperialismo europeu e as novas fronteiras impostas, seja nos textos que usam a experiência anterior ao colonialismo para ajudar na reconstrução da identidade nacional pós-independência.
"Isso por si só já é uma grande questão a ser debatida pelas literaturas africanas de maneira geral em relação à identidade, porque afinal, como você vai pensar a noção de nação se antes disso vem a questão comunitária, a questão étnica?"
Para além disso, cada país possui sua histórica específica. No caso da África do Sul, protagonista desse episódio da série BRICS na estante, o Apartheid é sua singularidade. O regime racista e segregacionista violou direitos humanos, criminalizou e matou pessoas não brancas por todo o país.

"O fato de o Apartheid ser uma ferida, uma chaga social e trauma naquela sociedade acaba sendo uma temática recorrente nessas literaturas produzidas ali na África do Sul. […] Essa seria uma característica-chave que diferenciaria das demais, que vão focar em outros temas, como guerra civil."

No entanto, ela explica que o tema é trabalhado em de uma variedade de formas, sendo também atualizado ao longo do tempo. É o caso do livro "Madames", de Zukiswa Wanner, lançado em 2006.
"Não fala do Apartheid no sentido das divisões que aconteceram no século XX. Mas vai falar sobre a continuidade de um apartheid contemporâneo à revelia das instituições nacionais. Tem uma coisa muito singular que acontece na África do Sul, que é justamente uma espécie de trauma que permanece."
Njeri menciona também o ativista sul-africano Steve Biko, que foi perseguido, assassinado em setembro de 1977, mas que seus escritos influenciaram não só a produção literária e intelectual do país da África do Sul, mas também a de diásporas, influenciando grupos antirracistas em todo o mundo, como os Panteras Negras.
Em sua entrevista ao programa, a especialista cita ainda autores como Futhi Ntshingila, autora de "Sem gentileza", que discute o impacto do HIV na sociedade sul-africana, e o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, John Coetzee, por seu livro "Desonra", de 1999, que trata da relação de um professor um aluna, seus dilemas morais e o fim do Apartheid.
No caso deste último, além do vencedor, a pesquisadora cita também "O cio da terra: vida e época de Michael K", que narra a história de um jovem com lábio leporino durante uma guerra civil fictícia no país. "A trajetória desse personagem dá um panorama muito lúcido e árido de uma África do Sul dos anos 70 virando para os anos 80."
Segundo Njeri, o poder político e pedagógico da arte e da literatura lograram mudar a imagem internacional da África do Sul.
"A arte, em geral, tem esse poder político, poético, pedagógico. E, com certeza, a literatura produzida na África do Sul vai ali questionar, construir e nos ajudar a pensar essa geopolítica, esse contexto social."
Homem observa livros em uma livraria em Srinagar, na Caxemira, em 7 de agosto de 2025 - Sputnik Brasil, 1920, 06.07.2026
Panorama internacional
Além de Bollywood: como o BRICS pode ampliar a presença da literatura indiana no Sul Global?
Como o país vivia um estado de repressão até os anos 1990, algo muito presente na literatura atual, ressalta a especialista, é a atual "coragem de dar nome aos bois", isto é, trazer a tona os tabus sociais e históricos da sociedade. "Uma das coisas mais revolucionárias que a gente está vendo nesse momento na história das literaturas negras", comenta.
Um exemplo disso, é o livro "Nascido do crime: histórias da minha infância na África do Sul", do comediante Trevor Noah. Filho de um casal interracial, o relacionamento de seus país era considerado crime por conta das leis de segregação racial.
Segundo ela, essas são produções fogem de uma tendência estimulada pelo Ocidente, que chama de "abutrismo", conceito acadêmico que criou para explicar o privilégio de narrativas e objetos de arte que contam e recontam desgraças do continente africano.

"A gente precisa sempre voltar a esse passado para que ele não volte a acontecer. Mas é muito interessante a predileção do mercado de arte em geral, e dentre eles a literatura, por narrativas que só enfatizam o que a gente chama de estado de Maafa, ou seja, o estado de desumanização radical dessa população", comenta. "Sabemos a nossa desgraça, nós sabemos da nossa desumanização, mas, ainda assim, como é que nós conseguimos continuar, permanecer e progredir? E eu percebo que isso é uma virada na chave das literaturas negras."

A literatura, produto de poder soft power dentro de um cenário geopolítico internacional, também ajuda a desvendar estereótipos, construir novos imaginários, mas, principalmente, contribuir para a humanização dessas sociedades, na opinião da especialista.
"No combate direto ao racismo, à xenofobia e à própria ignorância que, de alguma forma, assola as sociedades humanas […]. A literatura vai contribuir, por exemplo, no caso da África do Sul, numa imagem positiva do país. Ela vai contribuir numa imagem de pluralidade cultural. Vai contribuir num lugar de exercício social e cidadão."
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