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Análise: CLT perdeu status e jovens estão trocando direitos por renda líquida maior e imediata

© Foto / Marcelo Camargo / Agência BrasilCarteira de trabalho digital
Carteira de trabalho digital - Sputnik Brasil, 1920, 25.08.2026
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À Sputnik Brasil, analistas apontam que, embora ainda seja a preferência da maioria dos trabalhadores, o modelo de trabalho CLT perdeu valor simbólico diante da romantização do empreendedorismo, alimentada pelo discurso neoliberal, e hoje a busca principal é por flexibilização e ampliação da renda.
O trabalho sob o modelo da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), com carteira assinada e direitos trabalhistas, está sendo colocado em xeque em um cenário no qual muitos estão escolhendo empreender e abrir seu próprio negócio. Nas redes sociais, jovens replicam memes que transformam o trabalhador celetista em piada.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva costuma dizer em discursos e entrevistas que, na juventude, emitir a carteira de trabalho era um status de amadurecimento e garantia de dignidade, uma vez que o documento servia como uma espécie de régua moral. Já nomes da direita consideram o modelo ultrapassado, como o presidenciável Renan Santos (Missão), que recentemente disse que o regime CLT "já era".
Seria possível afirmar que esse modelo de trabalho de fato está com os dias contados? Dados de uma pesquisa realizada pelo Serasa Experian indicam o oposto: 78,7% dos entrevistados que buscam emprego afirmaram preferência pelo regime celetista, percentual que sobe para 92,6% entre a geração Z (entre 14 e 29 anos) e para 86,8% entre millennials (entre 30 e 45 anos).
Para Rodrigo Rodríguez, professor de economia e pesquisador do Laboratório de Políticas Públicas (LPP) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), afirmar que o jovem está preferindo essa flexibilização no lugar do modelo CLT é amplificar muito o discurso de uma fração.
À Sputnik Brasil, ele diz que o modelo CLT não é mais o objetivo de vida das pessoas, mas sim um patamar bem-estabelecido. Segundo Rodríguez, o que ocorre é que a CLT está perdendo o valor simbólico para uma geração que não encontra mais o prestígio na palavra "trabalhador" e vai buscar a palavra "empreendedor", mesmo quando a posição social por trás das duas coisas é a mesma.

"Hoje, você dizer que é carteira assinada difere muito do que era nas décadas de 1990, de 1980, quando simbolizava muito um status social, e hoje esse status social se perdeu e as pessoas buscam outras formas de simbolizar a sua relação com o trabalho", afirma.

Ele acrescenta que as gerações mais novas enxergam a CLT como "um piso", um "ponto de partida para alcançar coisas maiores", como a flexibilidade e a ampliação da renda.
"Do ponto de vista desse jovem, ele está pensando muito mais em ir além da CLT, quando ele pensa nas possibilidades que incluem o mercado mais flexível, do que exatamente em se inserir no mercado de trabalho."
Rodríguez alerta que a busca por se tornar um microempreendedor individual (MEI) facilita a chamada pejotização, que é a conversão do trabalhador informal precário em uma pessoa jurídica, um microempreendedor, sendo que, na prática, "ele não está empreendendo, está fazendo uma função clássica do trabalhador de carteira assinada".

"Essa mudança acabou criando alguns problemas, que são o seguinte: esse trabalhador de baixa renda que virou microempreendedor, ele não vai ter acesso aos mesmos direitos e benefícios sociais que um trabalhador CLT. E é aí que entra a nossa preocupação."

O pesquisador diz que os sistemas de proteção social, como fundo de garantia, previdência social e décimo terceiro salário, foram criados no século XX como um mecanismo de garantir estabilidade para a vida do trabalhador. Mas as formas de trabalho mais flexíveis existentes hoje criaram um panorama no qual o trabalhador abre mão de vários desses direitos por ter uma renda líquida maior no presente.
"O problema é justamente o futuro. É possível que alguns consigam ter um planejamento financeiro, uma organização financeira que não impacte a sua vida dentro desse contexto. Mas boa parte da população precisa, de forma sistemática, desse sistema de proteção social", avalia.
Rodriguez cita como exemplo o caso de motoristas de aplicativos, que quando se acidentam no trabalho têm um rol de direitos muito limitado perto de um trabalhador CLT. Diante disso, ele frisa que o empreendedorismo, a ideia de se tornar um microempreendedor, gera um caminho para uma geração que continua sendo formada por trabalhadores, da mesma forma que o CLT, só que sem direitos.

"E é engraçado porque aí você vê, tem um público jovem que cada vez mais é a favor dessa flexibilização, mas quando você vê os números, muitos preferem a CLT na prática. Então, quer dizer, para a sociedade, eles podem pensar a favor da flexibilização, mas do ponto de vista individual, eles preferem a CLT."

Ele acrescenta que, se as leis trabalhistas não fossem tão bem consolidadas, as pessoas não poderiam pleitear algo a mais.
"A gente parte de uma impressão de que a CLT está sendo ameaçada, de que ela está sendo questionada. Não, os dois processos estão acontecendo. A CLT tem se estabelecido, tem crescido, e também o número de microempreendedores individuais que abrem a sua empresa", diz o pesquisador.
Carla Beni, professora de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), pondera que as piadas em relação ao trabalhador celetista nas redes sociais partem de uma faixa etária especificamente jovem, composta por quase nativos digitais. E esse público, aponta Beni, é interessante porque zombam do trabalhador que precisa pegar ônibus, é pobre e ganha pouco, "mas provavelmente eles mesmos são sustentados por pais CLTs".
"Então é mais ou menos uma fase, digamos assim, é como se ele estivesse querendo 'farmar aura', vamos falar aqui da mesma linguagem. Mas é uma dissociação completa que se tem com a visão do jovem hoje de que ele poderia ficar rico sem trabalho, via jogo do tigrinho ou ser influencer. Então é uma confusão mental muito característica da juventude", afirma.
Ela acrescenta que há uma mudança comportamental liderada pela geração atual, que entende que o trabalho faz parte da vida, mas não é a vida.
"Uma geração anterior, por exemplo, como a minha, trabalho e vida eram praticamente sinônimos. [...] No entanto, existe um grande problema com essas pessoas quando se aposentam. Você escuta, por exemplo, 'Se eu me aposentar, parar de trabalhar, eu morro, porque eu não sei o que eu vou fazer'. Então, acho que há uma combinação, sim, onde a geração anterior precisa aprender com a geração nova."
Somado a isso, Beni aponta a ascensão da romantização do empreendedorismo, alimentada pelo discurso neoliberal e pelo esgotamento causado pela escala 6x1, modelo que abrange majoritariamente pessoas de baixa escolaridade e que recebem menores salários. Mas enfatiza que a ideia de ser patrão de si mesmo também vem acompanhada da incerteza em relação à renda e risco de desamparo em caso, por exemplo, de doença ou acidente.
"Por exemplo, os entregadores de aplicativo. Ele vai trabalhar às vezes dez horas no mesmo dia. Ele vai trabalhar até mais numa jornada. Mas, para ele, ele acaba tendo essa retirada e o equivalente a uns dois salários mínimos e ele acredita que ele é dono do horário dele, que ele é dono do tempo dele."
Ela aponta ainda a questão do empreendedor por necessidade, ou seja, aqueles que começam um pequeno negócio não por oportunidade, mas porque estão passando por dificuldade financeira.
"Ele é alguém que vai fazer bolo em casa para vender no metrô. Ele é um empreendedor? Não, ele é, muitas vezes, um trabalhador de baixa qualificação."
Cristina Helena Pinto de Mello, professora de economia da PUC de São Paulo, considera que não foi a CLT que perdeu status, o que mudou foi o significado social de ter um trabalho formal. Ela diz que hoje há novas formas de trabalho e uma valorização maior da autonomia.
Segundo Mello, os avanços da tecnologia, principalmente durante a pandemia, cortaram postos de trabalho e sobrecarregaram os trabalhadores que permaneceram, fazendo crescer "a vontade de não ter chefe e de ter flexibilidade". Com isso, muitos trabalhadores não têm a percepção de bem-estar como eles tinham no passado.
Carteira de trabalho (imagem referencial) - Sputnik Brasil, 1920, 31.10.2025
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"Eles vêm enxergando uma sobrecarga de trabalho, salários baixos, jornadas muito extensas, as carreiras ficaram muito rígidas também, então a perspectiva de carreira, de tempo de subir na carreira, ficou muito mais lenta, e a dificuldade de conciliar trabalho com a vida pessoal, com a família, tudo isso vem desafiando a contratação para empregos formais de trabalho", explica.
Ela acrescenta que ter carteira assinada ainda é um desejo dos jovens e que os direitos trabalhistas têm muito valor, o problema são as condições empregatícias atuais. Em outras palavras, acrescenta Mello, o problema não é necessariamente a CLT, mas a qualidade do emprego que os vínculos formais estão oferecendo.
De acordo com a especialista, os jovens querem liberdade e um emprego que traga sentido econômico e qualidade de vida, o que coloca um desafio muito grande para as empresas e para os recursos humanos, que é oferecer condição de trabalho suficientemente boa para que essa formalização seja entendida como uma vantagem e não apenas como um aspecto, uma obrigação legal.
"Outro desafio é redesenhar o crescimento profissional dos jovens nas empresas, as etapas muito longas de promoção também têm impactado nessa percepção."
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