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Bolsa de grãos do BRICS pode dar ao Brasil mais poder sobre o mercado de commodities?

© AP Photo / Andre PennerTrabalhadores conduzem tratores dentro de campo de soja em Mato Grosso, em 27 de março de 2022
Trabalhadores conduzem tratores dentro de campo de soja em Mato Grosso, em 27 de março de 2022 - Sputnik Brasil, 1920, 25.09.2026
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Brasil pode ampliar influência no comércio de commodities com uma Bolsa de Grãos do BRICS. País já participa da formação de preços de produtos como soja, café e açúcar, mas as principais referências internacionais continuam concentradas em grandes bolsas estrangeiras.
O Brasil é o principal produtor global de várias commodities como soja, café, açúcar e suco de laranja, além de estar entre os líderes de vários outros produtos como milho, cacau e algodão. Apesar disso, a maior parte da negociação de compra e venda desses produtos é feita fora do país, em países como Estados Unidos e Reino Unido, com os contratos negociados em dólar.
À Sputnik Brasil, o diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Alexis Toríbio Dantas, explica que essa é uma vulnerabilidade da economia brasileira, uma vez que a Casa Branca vem utilizando, desde a década de 60 com Cuba, o dólar como uma arma geopolítica.
Os exemplos mais atuais são, no entanto, a Rússia e o Irã, que para além das sanções comerciais sofrem sanções financeiras que devem ser seguidas por todo o planeta sob o risco de serem excluídos do sistema bancário mundial, que dão prioridade à se manter ativos no mercado norte-americano.
A questão que fica, então, é como sanar esse problema?
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Uma ideia seria contornar os pregões do Norte Global, por exemplo, a Bolsa de Chicago, o maior ponto de encontro de compradores e vendedores de soja, e realizar as transações por aqui. Um dos benefícios seria que esses contratos poderiam ser demarcados em reais, e não em dólares.
No entanto, à reportagem, Felippe Serigati, coordenador do Mestrado Profissional em Agronegócio do FGVAgro, explica que isso não é tão simples assim. A começar, o Brasil já participa na formação de preço de todos esses commodities — com exceção das carnes, que dependem mais de fatores como cortes e peças.

"O que acontece na safra brasileira se reflete no preço na sua praça de referência [...]. O preço da soja em Rondonópolis é igual ao preço da soja lá em Chicago, acrescido de custos logísticos."

Tampouco ser o maior exportador dá ao Brasil uma primazia na hora de definir preços. A lei da oferta e demanda é a maior força por trás desse valor. "Se a China virar e falar: 'Não vou comprar soja', o preço da soja cai."
O especialista da FGVAgro explica que Chicago se tornou o preço de referência dos grãos porque a cidade era o principal ponto de escoamento dos grãos estadunidenses, o maior produtor à época. Com isso, lá se concentraram compradores, empresas de logísticas, seguradores, bancos que financiavam a produção e comercialização.
Em uma menor escala, há São Paulo, centro financeiro do Brasil. E contratos negociados por lá possuem uma vantagem para o produtor, uma vez que eles refletem melhor os padrões de sazonalidade e necessidades do agricultor, como poder precificar diretamente em reais, eliminando o risco cambial, isto é, uma possível desvalorização do dólar de quando o contrato foi negociado.
Mesmo assim, para o produtor brasileiro isso não representa necessariamente uma vantagem absoluta dado o grande volume de Chicago, uma diferença "brutal", comenta Serigati. E nisso há um impasse: "Quem veio primeiro, ovo ou galinha?"

"Para atrair compradores e vendedores, é preciso ter liquidez; porém, para ter liquidez, é preciso primeiro atrair compradores e vendedores."

Outro ponto é, também, justamente a liquidez do dólar frente as outras moedas globais. Para os agentes, também faz sentido utilizar a moeda norte-americana, que pode ser facilmente convertida em qualquer país.
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Para Dantas, da UFRJ, é possível utilizar o poder de barganha do Brasil, como maior produtor, justamente para se tornar menos dependente dos trâmites do sistema financeiro internacional. Entretanto, para isso é necessária uma articulação de Estado, e não de produtores locais descentralizados.
"Isso poderia levar a uma maior capacidade de controle dos efeitos da exportação desses produtos para a economia brasileira."
Uma iniciativa do tipo já foi pensada e está em sua fase inicial de execução: a Bolsa de Grãos do BRICS, iniciativa que busca dar maior voz à países do Sul Global que conta com Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Indonésia como membros plenos.
A 17ª Cúpula de Líderes do BRICS, no Rio de Janeiro, registrou oficialmente o início das discussões para a criação dessa plataforma. Estimativas do grupo indicam que os membros representam cerca de 26% do comércio global e 40,7% do PIB são em paridade do poder de compra (PPC), além de dominarem no setor de comodities.
Segundo o economista, esses empreendimentos têm o poder de reduzir a dependência do dólar como moeda global de troca.

"Isso acontece muito rapidamente entre China e Rússia, por exemplo, e o Brasil pode acelerar esse processo e garantir um papel mais importante na geopolítica e no campo geoeconômico."

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