- Sputnik Brasil, 1920
Panorama internacional
Notícias sobre eventos de todo o mundo. Siga informado sobre tudo o que se passa em diferentes regiões do planeta.

Terra Lunda: agronegócio pode ampliar presença do Brasil em Angola, mas crédito ainda é desafio

© Reprodução / Redes sociaisAgricultores trabalhando em áreas agrícolas em Angola
Agricultores trabalhando em áreas agrícolas em Angola - Sputnik Brasil, 1920, 09.10.2026
Nos siga no
No Mundioka, especialistas comentam as oportunidades de investimento em Angola, os desafios de infraestrutura e crédito e a concorrência internacional no mercado africano.
Durante viagem oficial a Angola, o ministro da Agricultura e Pecuária (MAPA), André de Paula, acertou um protocolo de investimentos no setor agropecuário e de ações de cooperação entre os dois países. Na reunião, foram discutidas a participação do Fundo Soberano de Angola no Projeto Terra Lunda e as próximas etapas para a estruturação de novos investimentos, com a participação de empresários brasileiros.
O Terra Lunda é a primeira iniciativa considerada para o projeto-piloto do Programa de Investimento Produtivo Agropecuário Brasil-Angola. A proposta prevê a implantação de 20 mil hectares na província da Lunda Norte, com investimento estimado em US$ 83 milhões.
Uma mulher passa por uma série de esculturas feitas com detritos retirados do rio Jukskei, no bairro de Alexandra, em Joanesburgo, África do Sul - Sputnik Brasil, 1920, 18.09.2026
Panorama internacional
De 'objeto' a 'sujeito': como a África pode ser protagonista no século XXI
"O Brasil já teve um comércio mais forte com Angola. Nós ainda mantemos um comércio importante […], mas agora o que a gente pretende é inaugurar uma possibilidade de internacionalização das empresas do Brasil, do ramo da agricultura, da pecuária, do agronegócio, para participar do desenvolvimento da agricultura em Angola", diz José Guilherme Tollstadius Leal, adido agrícola do MAPA para Brasil e Angola, ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.
Segundo Leal, a ampliação da produção de alimentos em Angola abre espaço não apenas para a exportação de produtos brasileiros, mas também para a instalação de empresas e a oferta de máquinas, equipamentos, sementes e serviços ligados à produção agropecuária.
O país africano ainda depende das importações de alimentos, apesar das condições de solo e clima consideradas favoráveis à expansão da produção interna. O diferencial brasileiro estaria na expertise tecnológica somada à realidade climática do país.

"O que nós temos no diferencial é a tecnologia adaptada à agricultura tropical, ou seja, o modo de fazer agricultura, que vai necessitar de muito pouco ajuste do que se faz no Brasil para se fazer aqui em Angola."

A proposta também busca ampliar a participação de empresas brasileiras na cadeia produtiva por meio de mecanismos de financiamento já existentes. De acordo com o adido, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) poderá apoiar as exportações de máquinas por meio de suas linhas de crédito, enquanto o Banco do Brasil foi incluído no memorando de entendimento para avaliar o uso do BB Proex.
Os mecanismos poderiam financiar a exportação de tratores, colheitadeiras, plantadeiras, pulverizadores, implementos agrícolas e silos para projetos conduzidos por investidores brasileiros em Angola. "A gente traz o agricultor, o know-how do agricultor, mas também aproveita para aumentar as exportações utilizando as linhas de crédito já existentes."
A estratégia, porém, ocorre em um mercado no qual o Brasil enfrenta a concorrência de outros parceiros de Angola. Países europeus, Estados Unidos, China e Emirados Árabes Unidos oferecem condições de financiamento mais flexíveis, enquanto o Brasil busca compensar essa diferença com a experiência acumulada na agricultura tropical.
Além da tecnologia, Leal aponta o conhecimento empresarial dos produtores brasileiros como parte da oferta. A intenção é levar a Angola não apenas técnicas de produção, mas também experiência na gestão de propriedades e na formação de negócios competitivos. A perspectiva é de que a produção atenda ao mercado interno angolano e, posteriormente, possa transformar o país em uma plataforma de exportação para outros mercados africanos.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) também deverá atuar na aproximação entre empresas e oportunidades de negócios. A agência retomou em 2024 a participação na Feira Internacional de Luanda (Filda), principal feira comercial do país, e tem trabalhado na promoção de empresas brasileiras e no apoio à internacionalização.
"E também a gente trabalha em parceria com a Apex, que tem um trabalho de apoio à internacionalização de empresas brasileiras. Ou seja, empresas que queiram abrir uma operação em outros países. E o caso que nós estamos apresentando aqui são as oportunidades que existem em Angola."
O Terra Lunda, contudo, não é o único projeto em prospecção. Leal afirma que outras empresas e grupos brasileiros já avaliam oportunidades no país, enquanto alguns produtores que chegaram antes da formalização do novo acordo já iniciaram atividades no setor agropecuário angolano.
A iniciativa ocorre em um momento de tentativa de retomada da presença econômica brasileira no continente africano. Especialistas já ouvidos pela Sputnik Brasil pontuaram que o país já manteve relações comerciais mais intensas com países africanos e presença em setores como construção civil e mineração.
Atualmente, companhias brasileiras enfrentam a concorrência de países como Turquia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Portugal, além da China, que ampliou sua presença econômica no continente em uma escala superior à brasileira.
Assim, o acordo com Angola busca usar o agronegócio como uma das portas de entrada para uma nova etapa de internacionalização das empresas brasileiras, combinando investimentos produtivos, transferência de tecnologia, financiamento à exportação e experiência acumulada na agricultura tropical.
O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias,  participa da 14ª Conferência Nacional de Assistência Social - Sputnik Brasil, 1920, 11.03.2026
Notícias do Brasil
'A única guerra que vale a pena travar é contra a pobreza', diz Wellington Dias à Sputnik Brasil
Para João Bosco, presidente do Instituto Brasil-África, doutor em educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com pós-doutorado na Universidade de Brasília (UnB), reforça que o projeto Terra Lunda representa uma oportunidade de ampliar a presença do agronegócio brasileiro no continente africano.
Porém, pondera que a iniciativa, por si só, não deve transformar a relação entre os países. Para que tenha efeitos duradouros, será necessário construir um ambiente favorável à participação de empresas e produtores brasileiros, com condições para viabilizar os investimentos. Como conta, um dos principais desafios é garantir o financiamento necessário. O projeto exige recursos elevados, e ainda é preciso esclarecer de onde virá o dinheiro e quem arcará com os custos.
O governo angolano precisa participar dos investimentos, enquanto o Brasil deve oferecer incentivos e facilitar o acesso ao crédito por meio de instituições como o BNDES e o Banco do Brasil. Sem mecanismos de financiamento disponíveis desde o início, a execução da iniciativa pode ser comprometida.
"Se não tiver o recurso, o projeto fica no papel e ele não é transformado em ação."
Outro obstáculo é a infraestrutura local. Bosco destaca que as dificuldades de armazenamento e logística em Angola podem comprometer a produção e provocar perdas, tornando essencial investir nessas áreas. "Se você produz alimento e não tem como armazenar, como estocar esses alimentos, seja milho, arroz, feijão, soja, nós temos um problema de perda muito grande, que já acontece hoje e pode ser amplificado", explica.
Além disso, defende que a parceria inclua transferência de tecnologia e formação profissional, em vez de se limitar à exportação de produtos. A troca de conhecimento, segundo ele, pode fortalecer a capacidade produtiva angolana e contribuir para uma cooperação mais duradoura entre os países.
"Alguns países insistem em exportar matéria-prima sem agregar valor algum. Isso não tem mais sentido."
Apesar dos desafios, Bosco vê oportunidades para empresas brasileiras em outros setores, como construção civil, energia, saúde e telecomunicações. Ele menciona, ainda, o potencial de atuação de empresas brasileiras em áreas como a produção de medicamentos e a aviação. Para Bosco, a aproximação com Angola pode contribuir para ampliar a presença comercial brasileira em outros mercados africanos, desde que os projetos respeitem as particularidades de cada país.
Na disputa por esses mercados, entretanto, o Brasil enfrenta concorrentes com maior capacidade de investimento. Bosco observa que a China dispõe de mais recursos para financiar projetos de infraestrutura e outras iniciativas no continente.
A vantagem brasileira estaria, como falado anteriormente, na experiência acumulada com a adaptação de tecnologias agrícolas às condições tropicais, conhecimento que pode ser aplicado em países com características semelhantes às do Brasil. "Se deu certo no Brasil, é muito possível que dê certo em muitos espaços africanos", argumenta.
Bosco também ressalta que a aproximação com Angola deve fazer parte de uma estratégia de longo prazo para o continente africano, sem depender exclusivamente da orientação de um governo. Embora reconheça a importância da diplomacia presidencial para impulsionar as relações, ele considera que os vínculos entre os países precisam ser mantidos independentemente das mudanças políticas no Brasil.
"O Estado brasileiro continuará tendo as suas relações com diversos estados africanos, inclusive Angola, a despeito do presidente que estará em Brasília a partir de janeiro", afirma. Dessa forma, o Terra Lunda pode servir como ponto de partida para ampliar a cooperação econômica entre Brasil e Angola. Seu alcance, contudo, dependerá da capacidade de transformar os entendimentos diplomáticos em investimentos efetivos, com financiamento, infraestrutura adequada e transferência de conhecimento.
Logo da emissora Sputnik - Sputnik Brasil
Acompanhe as notícias que a grande mídia não mostra!

Siga a Sputnik Brasil e tenha acesso a conteúdos exclusivos no nosso canal no Telegram.

Já que a Sputnik está bloqueada em alguns países, por aqui você consegue baixar o nosso aplicativo para celular (somente para Android).

Feed de notícias
0
Para participar da discussão
inicie sessão ou cadastre-se
loader
Bate-papos
Заголовок открываемого материала